domingo, janeiro 07, 2007

Salomão Nunes de Carvalho.

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Salomão Nunes Carvalho, auto-retrato daguerreótipo n.d.

Colecção - Biblioteca do Congresso, Washington
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Os Nunes Carvalho daguerreotipistas sefarditas


...............A 22 de Agosto de 1853, o americano Salomão Nunes Carvalho (1815-1897), judeu sefardita de origem portuguesa, pintor e fotógrafo, com atelier inaugurado a 1 de Junho de 1849 em Baltimor, encontrou-se com o coronel John Charles Frémont (1813-1890), astrónomo, geógrafo e expedicionário de prestígio, que fora incumbido de organizar uma expedição que fizesse o levantamento orográfico para a execução do futuro traçado da primeira linha de caminho de ferro transcontinental que atravessaria o Kansas, as montanhas rochosas do Colorado, Utah até Los Angeles, entre o rio Mississipi e a Costa do Pacífico. Frémont procurava um desenhador e fotógrafo para acompanhá-lo na expedição. Salomão Nunes Carvalho aceitou de imediato o convite e assim juntou-se à expedição como desenhador e fotógrafo oficial. Teve apenas dez dias para preparar todo o material fotográfico necessário para esta viagem arrojada, que lhe apresentava problemas acrescidos pela necessidade de cumprir com as orações da religião que professava e com regras muito especificas quanto aos alimentos kosher, e ainda, as adversidades climatéricas de um Inverno impiedoso, que se imporia no cume das montanhas com temperaturas que chegariam a rondar os 30 graus negativos e que previa fizessem alterar todo o processo comum das aplicações correntes para a preparação, revelação e posterior conservação de todas as chapas de daguerreótipos.
...............As suspeitas de S. N. Carvalho quanto à morosidade do processo fotográfico naquelas circunstâncias climatéricas viriam a concretizar-se. O fotógrafo fez-se valer dos seus conhecimentos em química e estudos sobre a incidência da luz, dedicando-se diariamente à preparação de todo o material fotográfico e obrigando à paragem da expedição por um período de 12 horas em cada local, onde eram efectuadas as tomadas de vista, para que efectivamente se tivesse a certeza que as imagens haviam sido bem captadas e resistiriam às vicissitudes das intempéries. Isto contribuiu para uma sucessão de atrasos na expedição, o que veio a revelar-se desastroso pois para além de ter trazido um maior desgaste físico ao grupo fez com que este chegasse às Montanhas Rochosas do Colorado numa altura em que o clima era mais severo.
...............A Expedição viria a revelar-se um desastre. Salomão Nunes Carvalho, depois de ter suportado o frio e a neve, a fome e a doença, enfrentado índios e animais selvagens, ter quebrado as regras rígidas da alimentação da religião judia (Kashrut), numa aventura em que nem todos chegaram ao fim e que para muitos o preço foi a morte; em Utha, o fotógrafo sefradita viu-se obrigado a abandonar a expedição por motivos de saúde.
...............Salomão Nunes Carvalho regressa desta aventura com 300 daguerreótipos tornando-se o primeiro daguerreotipista a fotografar o Kansas. Segundo Robert Faft “...As mais antigas fotografias feitas no Kansas que eu tenha conhecimento e que sejam mencionadas são atribuídas a Salomão Nunes Carvalho – durante a expedição Frémont em 1853/54” in A Photographic Históry of Early Kansas.
Antes da expedição ao Far Weste, Salomão Nunes de Carvalho trabalhou na Broadway em New York City para Mathew Brady (1823-1896) e também para o atelier fotográfico de Jeremiah Gurney (1812-1886), provavelmente, na mesma altura em que aí se encontrava o fotógrafo português Joaquim José Pacheco (Joaquim Insley Pacheco), ver Registo Daguerreian de Craig (Pesquisa sobre os fotógrafos americanos entre 1839-1860), John S. Craig actualização de 2003. Acrescento agora, ao que aqui tenho vindo a escrever, o comentário de Carlos Miguel Fernandes do blog No Mundo http://no-mundo.weblog.com.pt/, e ao qual aproveito para agradecer: "There was another young newcomer to Broadway's photography row within the next few months. Brady undoubtedly saw him, S.N. Carvalho, a brisk youn man with a short black beard, probably the first American to penetrate America's Wild West with a camera."in Mathew Brady - Historian with a Camera, Bonanza Books, New York, 1955.

...............Em 1856, Salomão Nunes Carvalho descreve as suas experiências durante a expedição, num livro intitulado “Incidents of Travel and Adventure in the Far West”, publicado por Derby e Jackson, Nova Iorque 1859. http://www.jewish-history.com/WildWest/Carvalho/index.html Nestes testemunhos, é mencionado que as primeiras vistas foram captadas perto de Westport a 17 ou 18 de Setembro de 1853.
...............Desta expedição que ficou para a história norte americana como um feito para a época, onde Salomão Nunes Carvalho viu reconhecida a sua habilidade e mestria profissional e John Charles Frémont alicerçou condições para se lançar na corrida ao Senado, não foi feito relatório escrito e a memória da expedição registada por S. N. Carvalho, assim como as cópias feitas pelo conhecido fotógrafo norte americano Mathew B. Brady, perdeu-se para sempre aquando de um incêndio em Nova Iorque em 1881, num armazém onde estavam guardados os daguerreótipos desta epopeia e grande parte das cópias de Brady. Ao que se sabe, de 300 daguerreótipos restaram apenas 3 que estão conservados e preservados pela Biblioteca do Congresso, em Washington. Conhece-se ainda 34 gravuras que haviam sido abertas a partir dos daguerreótipos feitos durante a expedição.

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Aldeia Cheyenne, daguerreótipo S. N. Carvalho


Colecção da Biblioteca do Congresso, Washington


Genealogia da família Nunes Carvalho


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David e Charity, filhos de Nunes Carvalho, Colecção da Biblioteca do Congresso...
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Auto-retrato Nunes Carvalho, Colecção da Biblioteca do Congresso.


...............A ascendência portuguesa de Salomão Nunes Carvalho reporta ao início do século XVIII, quando persistia a perseguição e expulsão dos judeus em Portugal pela igreja católica.
...............Não conheço as datas de nascimento e morte do avô do fotógrafo daguerreotipista que tinha o mesmo nome. Apenas sei, que casou em Londres em Abril de 1765 com Judite Henriques Pimentel e que do matrimónio nasceram cinco filhos, entre os quais, David Nunes Carvalho (Londres, 1784 – Baltimor, 1860) que casa em 1814 com Sarah d’Azevedo e tem cinco filhos, um dos quais é o fotógrafo sefardita Salomão Nunes Carvalho que nasceu a 27 de Abril de 1815 em Charleston, Carolina do Sul e que foi o primeiro daguerreotipista a atravessar os EUA e a fotografar o lendário oeste selvagem, http://ruadajudiaria.com/index.php?p=80. Salomão Nunes Carvalho casou a 15 de Outubro de 1845, em Filadélfia com Sarah Miriam Solis e morreu em Nova Iorque a 21 de Maio de 1897. O pai do fotógrafo, David Nunes Carvalho também foi daguerreotipista, estando referenciado no “Directory of Baltimore Daguerreans” de Ross J. Kelbaugh
http://www.bcpl.net/~images/baltodagsa-j.html .

DAGUERREÓTIPOS DE ROBERT SHLAER, 1996


Robert Shlaer um daguerreotipista contemporâneo
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Robert Shlaer, 1998


Robert Shlaer é um fotógrafo americano apaixonado pelo processo da daguerreotipia e fascinado pela expedição que em 1853/4 John Charles Frémont e o fotógrafo de ascendência portuguesa Salomão Nunes Carvalho haviam empreendido para fazerem o levantamento orográfico e tomadas de vistas da região entre o rio Mississipi e a Costa do Pacífico. Shlaer, resolveu em 1994, por um período de quatro anos, seguir os passos destes homens, tentando transpor para os nossos dias as paisagens vistas por estes exploradores que durante o Inverno e em condições climatéricas extremamente adversas conseguiram realizar 300 daguerreótipos. Robert Shlaer projectou a viagem com a ajuda dos mapas originais da expedição e do livro “Incidentes do curso e da aventura no oeste distante” titulo do livro escrito por Salomão Nunes Carvalho em 1856 e publicado em 1859.
...............Desta epopeia fotográfica do século XX, nasceram 100 daguerreótipos a cores que foram exibidos em 2003 no The Frick Art Museum numa exposição intitulada “Vistas vistas uma vez: A última expedição através das Montanhas Rochosas”. A exposição esteve também no Museu George Eastman em Rochester, Nova Iorque e foi editado o álbum “Sights Once Seen” Daguerreotyping Fremont’s Last Expedition Through the Rockies. Robert Shlaer.



Auto retrato Robert Schlaer, 1996. Daguerreótipo
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http://www.amazon.co.uk/exec/obidos/ASIN/0890133409

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terça-feira, janeiro 02, 2007

O "Sultanato" dos fotógrafos portugueses no Zanzibar



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© Colecção Ângela Camila Castelo - Branco e António Faria
Europeu e criados
 Foto: J. B. Coutinho, Zanzibar 1878


O “Sultanato” dos fotógrafos portugueses no Zanzibar

Numa ilha do Índico, no litoral da Tanzânia (ex Tânganica), nasceu a 5 de Setembro de 1964 Faukh Bomi Bulsar, que viria a ser conhecido no mundo inteiro por Freddie Mercury, sim esse mesmo, o do dueto com Monserrat Caballé e vocalista dos Queen.
Entre os séculos VII e XVI o território e a costa oriental do continente africano foram centros de comércio árabe, até caírem sob o domínio dos portugueses que acabariam expulsos pelo Sultão de Omã. Por volta de 1890 os alemães transformaram o Tânganica na África Oriental Alemã. Os portugueses bem sentiram a presença germânica, sobretudo durante as incursões destes a Moçambique (1916-18), que partindo do Tânganica e sob a liderança do General Von Lettow infligiram pesadas derrotas a um exército português desorganizado e sem recursos. Depois da I Guerra Mundial o território foi colocado sob mandato da Sociedade das Nações com administração britânica. Em 1963 torna-se independente e um ano depois Nyerere anexa o Zanzibar, a família de Freddie Mercury tem de partir do território. Nascia a República Unida da Tanzânia.
Na ilha tinham desembarcado nos finais do séc. XIX muitas famílias goesas vindas da Índia Portuguesa, fugindo das epidemias que obrigaram a mudar a capital para Pangim. Os que não quiseram ficar na nova capital, procuraram melhores oportunidades económicas noutras paragens e porventura alguns ter-se-ão decidido pelo Sultanato do Zanzibar. A história do Sultanato do Zanzibar do final do século XIX e começo do século XX pode ser contada num álbum de fotógrafos de origem portuguesa de Goa. Este é o motivo pelo qual escrevo hoje sobre fotografia portuguesa.



COUTINHO BROS

Coutinho Bros, pode ter sido a primeira casa fotográfica comercial na África do Leste. Em 1890 fizeram sociedade com A. C. Gomes, que tinha estúdio na ilha do Zanzibar desde 1870. A sociedade entre os dois fotógrafos de origem portuguesa (A. C. Gomes e os irmãos Coutinho), terminou a 31 de Julho de 1897. Não conheço a data em que mais tarde montam um estúdio em Dar es Salaam, capital do Tânganica.




Mulher do Zanzibar; Árabes fotografados em estúdio; H. S. H. Hamaud Sultão do Zanzibar. Fotografias de Coutinho Bros e J. B. Coutinho, Zanzibar 1900


A. C. GOMES & Cº; SONS


Postal Fotográfico, A. C. Gomes & Cº; Son

A. C. Gomes foi fundada em 1868 em Aden. Em 1890 J. B. Coutinho trabalhou em sociedade com a A. C. Gomes que tinha estúdio no Zanzibar desde 1870. Esta breve parceria com J. B. Coutinho foi dissolvida em 31 de Julho de 1897. A. C. Gomes morre em 1917. Os filhos de A. C. Gomes continuaram o negócio da família até 1932. Um estúdio da família foi aberto em Dar - es - Salaam pela P. F. Gomes e seu filho, E. Gomes, em 1929. Em 1930 P. F. Gomes estava a montar estúdio na Main Street, no Zanzibar, quando lhe nasceu um segundo filho (G. Gomes). O filho de A. C. Gomes, fez algumas das primeiras fotografias dos caminhos-de-ferro do Ruanda. A família fotografou na Tanzânia, Uganda, Yemen, Adan, Zanzibar, Dar es Salaam e Moçambique. Os primeiros trabalhos dos Gomes são marcados A. C. Gomes & Cº, photographers, Zanzibar; alguns anos depois encontramos carimbos com Copyright issued by A. C. Gomes & Cº, Son, Zanzibar e finalmente A. C. Gomes & Cº, Sons, Zanzibar.



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A. C. Gomes

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...P. F. Gomes


DE LORDS PHOTO STUDIO

Fotografias de grande qualidade documental deixaram-nos os irmãos Pereira de Lord. Ninguém fez tantas imagens da antiga Zanzibar quanto estes dois fotógrafos que fizeram um levantamento exaustivo do território, fotografando também o quotidiano e os costumes do Zanzibar. Eram famosos os retratos feitos no estúdio de A. R. P. de Lord, posteriormente P. De Lord Brothers, que funcionava na avenida principal de Stone Town.



Estúdio P. de Lord, em Stone Town



Jardim da comunidade goesa no Zanzibar, fotografia P. de Lord


Swahili Girls, 1910
 Foto: P. de Lord




© Colecção Ângela Camila Castelo- Branco e António Faria
Família portuguesa fotografada por P. de Lord Brothers, 1910


CAPITAL ART ESTÚDIO


O Capital Art Estúdio, em actividade desde 1930, teve como proprietário Ronchad T. Oza que apesar de não ser de origem goesa, começou a trabalhar como aprendiz de fotógrafo para a Casa Gomes & Cº; Filhos em 1925. Em 1930 inaugurou o seu próprio estúdio, na mesma rua do estúdio Pereira de Lord em Stone Town. O seu trabalho foi apreciado pelo Sultão Khalifa, que era um mecenas das artes e das letras e Ronchad T. Oza torna-se o fotógrafo oficial da família dos Sultões. Oza morreu em 1983 com 80 anos. O Capital Art Estúdio, agora a ser explorado por Rameh Oza e pelo irmão, perfaz 77 anos desde a sua inauguração em 1930.


Postais a partir das fotografias de Ronchad T. Oza, Zanzibar

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Quem souber informações adicionais para poder construir a biografia destes fotógrafos pode entrar em contacto com o mail do Grand Monde o que desde logo muito agradeço.


domingo, dezembro 31, 2006

Da Feira da Ladra ao Império do Sol Nascente

© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
Wenceslau de Moraes, o ultimo à direita. Albumina s/d fotógrafo n/i


Da Feira da Ladra ao Império do Sol Nascente


Desde que o destino fez naufragar uma nau portuguesa, que ia a caminho do Sião, numa praia de Tanegashima, um tal António da Mota passou a ser citado nas crónicas japonesas como o primeiro ocidental a pisar solo nipónico. Bem pode Fernão Mendes Pinto vangloriar-se do feito na “Peregrinação”. As duas culturas passaram a descobrir-se iniciando-se os primeiros contactos com aqueles que viriam a designar-nos como os “Bárbaros do Sul”.
O Império Japonês então unificado a custo pelos senhores da guerra – Oda Nobunaga (1534-1582), Toyotomi Hideyoshi (1536-1598) e Tokugawa Ieyasu (1542-1616), iniciavam os primeiros contactos com os europeus. Os portugueses, apesar de poucos, influenciaram de forma decisiva o decurso da história nesta região, até pela responsabilidade que tiveram na introdução de armas de fogo que contribuíram para a pacificação do país devastado pelas guerras. Há, até, quem aluda ao "Século Português do Japão".
Os objectivos dos portugueses nestes territórios foram de natureza religiosa cuja figura maior foi São Francisco Xavier; outros se lhe seguiram, como os padres jesuítas João Rodrigues e Luís Fróis, este responsável pela obra “História do Japam” em 5 volumes, (1549-1593); o Padre João Rodrigues com a sua obra dedicada à aprendizagem da língua japonesa, autor da primeira gramática do Japonês e da “A História da Igreja do Japão”, Macau (1620-1633), onde se destacam a descrição do culto do chá que se pensa ter alguma relação com as práticas cristãs. Práticas cristãs que acabariam por levar a um final trágico a relação dos portugueses com o Império do Sol Nascente e que culminaram com a chacina de milhares de cristãos em Nagasaki no ano de 1597.
Quem também veio a estudar e a escrever intensamente sobre a cultura japonesa foi Wenceslau de Moraes.
Isto vem a propósito porque adquiri recentemente, na Feira da Ladra em Lisboa, uma fotografia que me despertou a atenção apenas pelo facto de representar um grupo de oficiais da Marinha Portuguesa.
Fiquei ainda mais feliz quando ao chegar a casa verifiquei que para além do papel albuminado ser da prestigiada casa B. F. K. Rives, um dos oficiais do grupo podia ser o militar e escritor Wenceslau de Moraes.
Daí ao labirinto da curiosidade foi um passo. Consultei na minha biblioteca a fotobiografia de Wenceslau de Moraes, da autoria de Daniel Pires, edição Fundação Oriente, 1993. Ali estava ele na pág. 64 com a legenda “Oito oficiais em uniforme de Verão. O escritor é o último à direita”, fotografia da Biblioteca Central da Marinha, (a minha compra em muito melhor estado de conservação). A mesma fotobiografia refere detalhadamente o percurso de Wenceslau de Moraes e as embarcações onde este prestou serviço. Refere também, que o escritor passa a pertencer à Escola Naval a 4 de Fevereiro de 1879 e a 12 do mesmo mês é promovido a Segundo-Tenente e que a 16 de Novembro do mesmo ano começa a exercer na canhoneira Quanza, comandada por Carlos Maria da Silva Costa, oficial que, a confirmarem-se as deduções das minhas pesquisas, estará entre os retratados.
No entanto, consultando o historial dos navios da armada portuguesa, no “Dicionário de Navios & Relação de Efemérides “ de Adelino Rodrigues da Costa e “Os últimos navios do Império – Portugal no Mar” de Telmo Gomes, continuam-me a subsistir duvidas quanto à embarcação onde se encontra o grupo de oficiais. Será esta a canhoneira Quanza (1877-1900) que se encontrava a efectuar várias comissões na costa angolana no ano de 1879/80 ou será a corveta mista Mindelo (1875-1897), onde seguiu Wenceslau de Moraes a 6 de Junho de 1881 quando esta largou de Lisboa para a estação naval de Moçambique e que uma tempestade no Indico obrigou a arribar a Aden, onde permaneceu durante três meses, pelo que só chegou a Moçambique em 9 de Novembro de 1881?
Isto para dizer, que quando publicamos num blog uma fotografia ou escrevemos sobre a mesma e não descrevemos todos os passos ou ainda não referenciamos a proveniência da informação que nos levou a determinada conclusão, muitas das vezes tal acontece por esquecimento e sem malícia.


sábado, dezembro 30, 2006

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GÊSHA - CORTESÃ JAPONESA


© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria
Albuminas datadas de 1894, fotógrafo não identificado
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quinta-feira, dezembro 28, 2006




CAMINHO-DE-FERRO DE MOÇÂMEDES

1909/1910

Fotografia G. Schoss © Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria


A ideia da construção do Caminho-de-ferro de Moçâmedes, actual Namibe, reporta a uma carta de lei de 1890, por ela foi o Governo autorizado à construção e exploração destes caminhos-de-ferro. No entanto, os trabalhos de construção só foram iniciados a partir de 1905, isto é, quinze anos depois. Em 1907 foram inaugurados os primeiros 67 quilómetros.
As fotografias que aqui vemos, da autoria de G. Schoss, fazem parte de um álbum fotográfico do levantamento dos trabalhos de estudo e construção desta linha-férrea de Angola pela Brigada de Artur Torres entre 1909 e 1910.
Na sequência deste trabalho esta importante linha do Sul de Angola atingiu o quilómetro 186. Aqui parou por um período de sete anos, pois só em 1923 chegaria a Sá da Bandeira, hoje Lubango, tinham então decorrido 33 anos desde a data da ideia da sua construção.
A partir dos anos cinquenta o seu prolongamento para Sul tornou-se uma realidade, com a construção do troço da Chibia em direcção ao Cunene e à Namíbia. Ficou-se por Chiange, e ainda hoje lá se encontra, a alguns quilómetros do objectivo inicial. À espera que o homem sonhe!


© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria

Fotografia G. Schoss, barbeiro no Caniço


© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria

Fotografia G. Schoss, Humbia, nivelando o ponto mais alto



© Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria

Fotografia G. Schoss, Locomotivas do C. F. M.





quarta-feira, dezembro 20, 2006

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AUGUSTO DA SILVA CARVALHO (1861-1957)



Augusto Silva Carvalho, 1952. Fotografia Bobone . BN

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O Grand Monde, presta hoje merecida homenagem a Augusto da Silva Carvalho, natural de Tavira onde nasceu em 1861. Formou-se em Medicina na Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa. Trabalhou nos Serviços da Administração Hospitalar em Lisboa. Foi presidente da Sociedade de Ciências Médicas, professor de História da Medicina a convite da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa e sócio efectivo da Academia das Ciências (1928), deixou extensa bibliografia, quer no domínio da clínica cirúrgica, epidemiologia e saúde pública, quer no da História da Medicina em Portugal. Morreu em Lisboa em 1957 com 96 anos.
Ocorreu-me, a quando da leitura de alguns trabalhos académicos, e de outros menos académicos, que a frequente citação da “Comemoração do Centenário da Fotografia – Subsídio para a História da Introdução da Fotografia em Portugal” de Augusto da Silva Carvalho, (Comunicação feita à Classe de Ciências, em 2 de Novembro de 1939), acontecia de uma forma mecânica que, se por um lado continua a levar pessoas à leitura do mesmo, por outro lado levará alguns a citar o trabalho sem sequer o ter lido. Quando em 1940 se comemorou o centenário da fotografia e para isso se convidou A. da Silva Carvalho o Presidente da Sociedade de Ciências Médicas, talvez não tenha sido por acaso. Na sua comunicação, feita à Classe de Ciências a 2 de Novembro de 1939 e editada a separata nas Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, Classe Ciências Tomo III, Academia das Ciências de Lisboa 1941, escrevia a propósito das noticias que tinha encontrado sobre fotografia: “...Desta maneira poder-se-á talvez fazer juízo fundamentado da resistência ou dificuldade, que em Portugal se manifestou para a compreensão do valor de tal descoberta.”, a este trabalho de recolha e pesquisa Augusto da Silva Carvalho juntou estudos especiais sobre diversas aplicações da fotografia na ciência em Portugal elaborados pelas mais diversas personalidades da época: “As aplicações da Fotografia à Química e à Físico-química” Dr. Achilles Machado (Comunicado feito à Classe de Ciências, 11 de Janeiro de 1940); “Notas sobre a Fotografia na Anatomia” Dr. Henrique de Vilhena (Lido em sessão da Classe de Ciências, em 11 de Janeiro de 1940); “A Microfotografia”Dr. A. Celestino da Costa (Comunicado feito à Classe de Ciências , 11 de Janeiro de 1940); “Notas para a história da fotografia aérea e da sua aplicação à cartografia) Dr. Vítor Hugo de Lemos (Comunicação feita à Classe de Ciências, em 7 de Março de 1940); “Sobre a importância dos métodos fotográficos na anatomia patológica” Dr. Friedrich Wohlwill, (Comunicado feito à Classe de Ciências, em 7 de Março de 1940); do nosso prémio Nobel da medicina Dr. Egas Moniz “A fotografia da circulação normal e patológica do cérebro” (Comunicado feito à Classe de Ciências, em 7 de Março de 1940) e ainda “Nota sobre a fotografia aplicada à Antropologia em Portugal” Dr. A. A. Mendes Corrêa (Comunicado lido pelo Sr. Dr. Augusto Silva Carvalho, à Classe de Ciências; em 7 de Março de 1940). Nem de propósito, depois destes anos todos, as conclusões de Augusto da Silva Carvalho no que diz respeito à fotografia, “da resistência ou dificuldade, que em Portugal se manifestou para a compreensão do valor de tal descoberta”, mutatis mutandis, continuam pertinentes.
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Em Dezembro de 1962 foi comprado pela BN à Misericórdia de Tavira o espólio de Augusto da Silva Carvalho, que compreende um vastíssimo conjunto de notas bio-bibliográficas, apontamentos de história de Medicina, correspondência, documentos biográficos e fotografias, junto com parte da livraria do médico e escritor.

Ângela Camila Castelo-Branco

terça-feira, dezembro 19, 2006


PAULO NOZOLINO

Paulo Nozolino Foto - Nelson D Aires

PRÉMIO NACIONAL DE FOTOGRAFIA


A Ministra da Cultura entregou na passada terça- feira, dia 19 de Dezembro no Porto, o Prémio Nacional de Fotografia ao fotógrafo Paulo Nozolino em cerimónia que decorreu no CPF.
Trata-se de um prémio de carreira, bienal, que foi criado em 1999 pelo Ministério da Cultura/CPF, tendo sido atribuído nas duas anteriores edições aos "históricos" Victor Palla (1922-2006), em 1999, e Fernando Lemos (n.1926), em 2001 e volta agora depois de um interregno de 5 anos.
O prémio, manteve o espírito dos anteriores, ao distinguir «a excepção que representa uma carreira de fotógrafo cuja intervenção criativa foi considerada particularmente relevante no panorama global da produção fotográfica portuguesa, pelo seu carácter inovador e susceptível de desencadear processos renovadores».

O galardão foi atribuído por um júri constituído por Marta Almeida, em representação da Fundação de Serralves/Museu de Arte Contemporânea, pelo pintor Manuel Costa Cabral (Fundação Calouste Gulbenkian), pelos fotógrafos Júlio de Matos e Virgílio Ferreira, e por Tereza Siza, directora do CPF. O júri foi unânime em considerar o valor e a pertinência da obra do fotógrafo, ao longo de 30 anos de carreira.
Nascido em Lisboa, em 1955, Paulo Nozolino "pode ser considerado um fotógrafo inovador e mesmo experimental, tendo exercido larga influência nas estratégias técnicas e na construção das narrativas fotográficas sobre autores e perspectivas, a nível nacional e internacional".
Paulo Nozolino (n.1955), estudou pintura na Sociedade Nacional de Belas-Artes (SNBA) de Lisboa, começou a fotografar em 1972 e obteve o Higher Diploma in Creative Photography, no London College of Printing, Londres, em 1975.
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PACÍFICO INÉDITO 1862-1866
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.Pacífico Inédito integra quase uma centena de fotografias, instrumentos científicos, insectos dissecados, documentos, litografias de animais e publicações da época e actuais. Da expedição podemos ver nesta exposição fotografias do porto de Cádis, em Espanha, inicio da aventura; Brasil, Rio de Janeiro, Baía e Pernambuco; Montevideu na República do Uruguai; Chile; Lima no Peru; Guaiaquil no Equador; Panamá (que fazia então parte da Grande Colômbia) e São Francisco da Califórnia donde se destacam uma série de retratos de imigrantes chineses a viver nesta cidade já então cosmopolita.



Expedicionários: Francisco de Paula Marínez, Juan Isern, Fernando Amor e Manuel Almargo





Em meados do sec. XIX realizou-se a chamada “Expedição ao Pacífico”, última das grandes expedições enviadas por Espanha à América. Embora alguns dos políticos que entreviram mais activamente na sua organização, e inclusivamente a Rainha Isabel II, terem considerado que a nova empresa iria ser continuadora das grandes expedições ilustradas do século XVIII, esta iria estar marcada pelo seu século, pelo que aparece perante nós como expedição essencialmente romântica e nacionalista.







Rafael Castro e Ordóñez, fotógrafo da expedição (?- 1865)

http://cvc.cervantes.es/ACTCULT/fotografia/miradas/castro.htm

Pintor educado na Real Academia das Belas Artes de San Fernando de Madrid, foi nomeado desenhador e fotógrafo da expedição. A sua actividade na área da fotografia, na qual se tinha formado com Charles Clifford – um dos fotógrafos da Rainha e introdutor em Espanha de técnicas avançadas – foi intensa e muito importante, embora fosse truncada pela sua morte voluntária em 1865.
A sua câmara retratou uma mostra dos locais pelos quais passaram no seu percurso pelo continente americano.
No Arquivo do Museu Nacional de Ciências Naturais conservaram-se a documentação científica e administrativa da expedição, bem como uma colecção de fotografias montadas em cartão; as placas originais consideraram-se perdidas para sempre.
No entanto, em 1984, em diversos laboratórios do Museu encontraram-se umas placas de vidro; uma vez estudadas, comprovou-se que pertenciam aos negativos das fotografias, realizadas entre 1862 e 1865, da Comissão Científica do Pacífico, algumas delas assinadas por Castro. No ano de 1986 apareceram mais, embora em péssimo estado de conservação. Empreendeu-se o trabalho de restauro.






Fotografia de Guayaquil no Equador antes e depois do trabalho de restauro
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BRASIL
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Pão de Açucar, Rio de Janeiro
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Passeio público, Pernambuco

“...ao amanhecer do dia 6 de Outubro vimos o cimo da cordilheira de Órganos, verde como esmeraldas e de graciosa ondulação; pouco depois apercebíamo-nos do Gigante que indica a entrada do Rio de Janeiro, e ao meio-dia fundeámos na sua opulenta baía, que tinha nas suas águas uma quantidade enorme de navios de todo o tipo, mercantes e de guerra. Esta baía é vastíssima e reúne todas as condições de um magnífico porto; as suas margens estão cheias de barcos a vapor bonitos e cómodos e servem de transporte para as pessoas se deslocarem entre as duas margens. Rio de Janeiro é a capital do império, e por isso a residência do Imperador, e das Câmaras do Governo Central, etc., etc. A sua população ultrapassa 500 mil almas, composta de brancos, mulatos e negros...”

(Almargo, M., Breve descrição...,pp. 13-14)


Tipos da Baía


A exposição pode (e deve) ser vista no na Centro Português de Fotografia Cadeia da Relação no Porto até 29 de Dezembro de 2006.
Horário: Terça a Sexta das 15h00 às 18h00 Sábados. Domingos e Feriados das 15h00 às 19h00

-Informação tirada do catálogo da exposição e de um folheto do Instituto Cervantes-



Museu Virtual
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Vamos visitar Gustave Le Gray (1820-1884)


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Autoretrato Gustave Le Gray entre 1850-1852
Cópio em papel salgado a partir de um negativo de vidro de colódio húmido 20 x 14,7 cm Antiga colecção Georges Sirot© Paris, Biblioteca Nacional de França, Departamento de Estampas e de Fotografia.

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Cairo, Egipto. Túmulos dos Califas Fotografia de Gustave Le Gray, 1861-1862 Papel albuminado a partir de um negativo de vidro em colódio húmido. Panorâmica de duas provas em formato de carte-de-visite horizontais 20 x 6,3 cm
Antiga colecção do Principe Filipe da Bélgica, conde da Flandres (1837-1905) © Paris, Bibliothèque nationale de France

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domingo, dezembro 17, 2006



Henri Jean-Louis Le Secq
Fotógrafo francês, 1818-1882

A propósito de Henri Le Secq que para criar um registo fotográfico dos monumentos de França trabalhou, com mais quatro fotógrafos, em Chartres, Strasbourg, Reims e outras catedrais e igrejas que cercam Paris. Começou a carreira fotográfica em 1840 quando ainda era pintor no estúdio de Paul Delaroche (1797-1856), e foi fundador da Société Héliographique de France. Dizia eu, a propósito de Le Secq, quando aqui à uns anos subi pela primeira vez, à Catedral de Notre Dame de Paris, o António que estava comigo, também quis subir, mas pela milionésima vez e decidiu que estava na altura de os nossos dois filhos mais velhos, o João Diogo e o Nuno Miguel, nos acompanharem na subida íngreme de 387 degraus que nos separam da vista que podemos desfrutar sobre a cidade depois de tamanho esforço. Devo acrescentar que para os meus dois filhos de 7 e 10 anos foi uma experiência inesquecível ainda hoje o João se lembra do número de degraus para chegar ao topo. Foi aqui que Le Secq fez uma fotografia magnífica com a vista fabulosa de Paris partilhada com as gárgulas da catedral gótica, Notre Dame de Paris na Ile de la Cité, berço da cidade e onde reis e imperadores foram coroados. Foi mais tarde transformada em templo ao culto da razão e depois em depósito de vinhos pelos revolucionários. Lá do alto o João e o Nuno viam lá em baixo, pequenino, o avô que os esperava sentado e aprendiam como a distância pode afectar a grandeza do homem. Foi uma experiência inesquecível, daqui a uns anos recordá-la-ei com amor.

Figuras grandes no Porch norte, catedral de Chartres, 1852 Henri Le Secq (francês, 1818-1882)Cópia de papel salgada do negativo de papel; 12 15/16 x 8 11/16 dentro. (32.8 x 22.1 cm)

sábado, dezembro 16, 2006





Feliz Natal

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João Vilhena

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.Ele entrou na sala como se aquilo tudo que ali estivesse não existisse, aquilo éramos nós todos, sentados à espera de sermos servidos, à espera que o João entrasse em cena. Na mesa onde se sentou com a Isabel, estava já eu sentada, não os conhecia, falámos toda a noite sobre coisa nenhuma. No final do jantar entornou-se-lhe vinho sobre o fato de linho branco e foi a casa trocar de roupa. Mais tarde voltei a vê-los na inauguração da exposição de John Baldessari em Lisboa. Há pessoas que, por motivo nenhum, gostamos logo... Ele está agora em Nova Yorque, e lá também é Inverno....

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Inverno

(Fotografia de João Vilhena)

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sexta-feira, dezembro 15, 2006






Princesas para todos os gostos de Huíla ao Xai-Xai




Litografia de Babolla Princesa de Huíla
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Em 1843 o médico cirurgião Clemente Joaquim Abranches Bizarro (?-1845), fotografou a Princesa de Huíla em Angola, quando esta acompanhava o Major Garcia Moreira nas explorações de África; do daguerreótipo existe uma litografia na Biblioteca Nacional em Lisboa.
O fotógrafo, que pela mesma altura tinha estúdio na rua dos Mártires n.º 34, 1.º em Lisboa, era o francês E. Thiesson que fotografou meia Lisboa e a quem A. Feliciano de Castilho dedicou um artigo publicado no Jornal de Belas Artes intitulado “Luz Pintora”, onde se confirma o estúdio do francês em Lisboa em 1845. Provavelmente foi nesse mesmo estúdio, visitado por Castilho, que Thiesson terá feito uma série de daguerreótipos de africanos residentes em Lisboa entre os quais estaria aquela que passou a ser uma famosa nativa de Moçambique. O daguerreótipo pertence hoje à colecção George Eastman, Rochester, Nova Yorque; esclarecem estes que a retratada a nativa de Sofala é a Rainha do Xai-Xai de Zavala - Moçambique e que aí foi retratada por Thiesson em condições climatéricas adversas. Bem, o Xai-Xai foi a capital de distrito João Belo e depois novamente Xai-Xai. Perto fica a Zavala dos tarimbeiros, mas Sofala fica a umas largas centenas de Km de distância. E eu que até acho que o fotógrafo nunca esteve em Moçambique, não deixo de simpatizar com a história da Casa George Eastman. Os americanos lá terão as suas fontes! Para mim serão sempre a Rainha Babolla e uma Princesa do Sabá, negra e formosa senhora de grandes domínios, do Índico aos grandes Lagos donde sempre se pensou nasciam os grandes rios que rasgam o continente africano incluindo o Nilo.
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Nativa de Sofala, Rainha do Xai-Xai

terça-feira, dezembro 12, 2006


Delagoa Bay / Lourenço Marques / Maputo



Lourenço Marques, 1890.

Albumina de Thomas Lee
Colecção Angela Camila Castelo-Branco e António Faria

Quando em 1890 D. Carlos decidiu que fazia todo o sentido que a capital da província deixasse de ser a ilha de Moçambique e se mudasse para a actual Maputo antes Lourenço Marques, aquilo era um pântano imenso de humidade e doenças. No início da década de 90, começa então a febre da construção na nova capital da colónia, rasgando-se avenidas, drenando-se terrenos alagados, procedendo-se a aterros. Surgem construções de alvenaria, proliferam alpendres, varandas em rendilhados de ferro forjado, colunatas também em ferro, em caprichosos ou duvidosos pastiches de estilos clássicos. As companhias inglesas vão- se instalando na Lourenço Marques em crescimento, mas ainda reticentes quanto ao nome da capital, insistindo os bilhetes-postais na para sempre perdida Delagoa Bay. Entre os primeiros a lá chegar estariam por ventura, muitos conhecidos da bisavó Argentina que ali chegara com apenas dez anos, idade que não bastaria para arranjar par no baile de gala a quando da visita do Príncipe herdeiro Luís Filipe ao território em 1907. Lourenço Marques já era na altura uma cidade charmosa traçada a régua e esquadro segundo o plano do General Joaquim José Machado, com edifícios de alguma beleza, sobretudo a Baixa Lourentina do inicio do séc. XX, que já denunciavam a diversidade cultural daquela província varanda do Índico onde aportavam gentes de um oriente ainda mais longínquo das Índias Portuguesas e Macau, coexistiam já igrejas católicas e protestantes e desde 1887 a mesquita com os mesmos anos que a cidade de Lourenço Marques. Os comerciantes da rua da Gávea, banianes (indu) e monhés (maumetanos); os chineses na Av. General Machado, Av. Paiva Manso e Av. Manuel Arriaga, que desde 1910 até ao triunfo de Mao estiveram sempre em guerra e para Moçambique foram muitos trabalhar em hortas, casas de louças, pequenas tabernas, em lojas com roupas e tapetes da ManKay e muitos restaurantes. A marrabenta invadia as primeiras casas da rua Araújo.

Quiosque na Pç 7 de Março em Lourenço Marques 1898.

Albumina de Thomas Lee.

Colecção Ângela Camila Castelo-Branco e António Faria