domingo, fevereiro 17, 2008

Milagres do tempo presente

Dedico este artigo a Gérard Castello Lopes

As duas fotografias que hoje me servem de tema ganharam prémios do World Press Photo 2007. À esquerda, na foto do búlgaro Ivaylo Velev, o esquiador Philippe Meier é perseguido por uma avalanche em Flaine, França, em 15.03.2007. Velev ficou em primeiro na categoria de acção desportiva. À direita, a foto de Miguel Barreira, do Record, ficou em terceiro nessa categoria; mostra o surfista Jaime Jesus no campeonato português em 16.12.2007 alçando-se habilmente duma onda violenta na Nazaré (ver todas as imagens no blogue do PÚBLICO http://blogs.publico.pt/artephotographica/).


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Essas são as circunstâncias das duas fotografias; elas são aqui irrelevantes. Certamente não o foram nem para os desportistas, que correram perigo, nem para os fotógrafos que as viveram do lado de lá da câmara. Mas nenhuma delas foi pr emiada pelas acções desportivas dos seus protagonistas. A única circunstância importante dos dois momentos decisivos nas imagens é conhecermos o seu devir: os desportistas não sofreram com gravidade em consequência dos actos da natureza que vemos. Venceram as ameaças gigantescas que nos são dadas ver.
O que interessa nas fotografias, é, assim, e apenas, as próprias fotografias. Elas sobreviveram em primeiro lugar pela beleza. Aplicando o que o antropólogo Julio Caro Baroja escreveu em contexto só aparentemente afastado, ‘as formas de ritual que têm um valor estético resistem ao tempo’. É o caso.
Ambas as fotos confirmam e contrariam a essência da fotografia em simultâneo: capturam um momento fixo, único; mas dão-nos também, na rigidez desse momento, a história do antes e principalmente do depois. Não são só a acção em imagem, são a imagem em acção. Tal como a foto do homem que salta de uma das Torres Gémeas, estamos perante duas imagens provocadoras da imaginação, construtoras de narrativas.
Há mais semelhanças entre elas. Cada uma mostra um único homem, não identificável. A identidade é tornada irrelevante pela distância e pelas circunstâncias que cada um vive. No caso do esquiador, a cara está tapada pelo equipamento de protecção. No caso do surfista, a distância impede que lhe reconheçamos as feições. Aqui entra uma primeira dimensão cultural das duas fotos -- simbólica ou representacional, se se quiser: estes dois homens poderiam ser qualquer um, qualquer outro. Eles são eles e ao mesmo tempo todos os homens. Apesar de a circunstância revelar a sua valentia, não estão aqui como heróis, pois mais parece que os rodeia uma força exterior a eles.
Assemelham-se também as duas imagens por mostrarem os protagonistas rodeados pelo elemento água: gelada no primeiro caso, líquida no segundo, a água ocupa tudo o que há. E a água está nos dois casos em revolta, em avalancha sobre o esquiador, em onda gigantesca envolvendo o surfista.
Os desportistas estão em perigo. A água representa aqui em primeiro lugar a morte e não surge aparentemente como a fonte de toda a vida. É uma massa indiferenciada que ameaça submergir os homens. É uma representação simbólica da dissolução, do dilúvio que revela a fragilidade do homem: ‘Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou a afundar-me num lamaçal profundo, não tenho ponto de apoio; entrei no abismo de águas sem fundo e a corrente está a arrastar-me’ (Salmos, 69, 1-2).


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As duas imagens parecem distinguir-se quanto à capacidade de o homem se afirmar perante o elemento em fúria. Vemos o esquiador mais próximo de ser esmagado do que o surfista, porque o primeiro está na metade inferior da fotografia e o segundo na metade superior. A ameaça ao esquiador é, porém, organizada com linhas rectas do gelo a cair em grossas cordas. A ameaça não passa da metade superior. Há, a meio da imagem, uma zona neutra e o esquiador fica a salvo não só por causa dessa distância como devido à sua posição: a forma triangular que assume com os esquis e o bastão resguarda-o. E, pelo movimento de fuga, em menos de um ápice o esquiador estará fora da fotografia, e esse devir é mostrado na imagem fixa. O gelo que cai, a zona neutra e o corpo do homem em movimento seguem todos na mesma direcção, o canto inferior direito seguindo a diagonal que parte do canto superior esquerdo.
No caso do surfista, quase não há linhas rectas. A onda do mar é um remoinho, um vórtice que suga em direcção ao centro exacto da fotografia. É aí que está o fundo, o abismo, o ponto mais negro do mar na imagem. Acontece, porém, que a imagem nos dá uma sensação de que o homem não corre perigo. O corpo do homem, num magnífico movimento, acompanha a direcção da onda, mas ele está suspenso, acima da onda, acima do centro do abismo. O seu movimento ascensional diz-nos que ele salvar-se-á. Tal como o gelo, estas não são águas de dilúvio, mas afinal de renovação da vida. Nós sabêmo-lo porque há uma harmonia geométrica perfeita, e a perfeição é divina. O surfista está colocado exactamente acima do cruzamento das diagonais da fotografia. Ele está na metade superior da fotografia porque voa, foge da água em direcção ao céu enquanto o esquiador tinha de estar na metade inferior da fotografia porque foge da água que cai do céu, foge em direcção à terra. Atenção: o surfista está protegido pelo céu, mas também o esquiador, porque ambos estão no ar, não tocam no elemento em fúria, eles andam sobre as águas: poder divino, poder do homem forte e hábil que o desportista representa? Será como o leitor quiser receber estas imagens: mas em qualquer caso, não temerá por eles.
Estando no Centro simbólico das imagens, os seus protagonistas não só representam a Ordem como a vitória sobre o Caos que os ameaça. Nas fotos, para mais, o Caos aparece organizado. Ambos os homens sugerem triângulos, símbolos de divindade, harmonia e proporção. E a fúria da Natureza é geometrica. As duas fotografias transmitem esteticamente essa dupla visão do Caos e da Ordem.
É assim. As imagens dão-nos realidades, mas realidades aparentes. Elas só ganham sentido com a carga simbólica, sagrada ou profana, que transportam elas e que transportamos nós. São os símbolos que tornam estas imagens não só universais como transparentes, que nos permitem ver a transcendência, o mundo e o homem. Podemos camuflar os mitos e os símbolos, mas são eles que nos salvam. Merecem prémios.
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Eduardo Cintra Torres in "Olho Vivo", Público 16 de Fevereiro de 2008

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sábado, fevereiro 16, 2008

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Pedro Letria
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São Trindade

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"O Mundo é belo" de Pedro Letria
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de São Trindade "Sobreviver a uma cidade de futebol"
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21 de Fevereiro de 2008. às 18:30
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Rua da Palma, 246 Lisboa
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Telf.21 886 23 32
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Os Livros de Daniel Blaufuks
28 de Fevereiro de 2008 a 28 de Março de 2008

Conversa entre Nuno Crespo e o Autor
Quinta-Feira 28 de Fevereiro de 2008, às 17 horas
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Um mundo igual a este, mas um bocadinho diferente.

"A fotografia é um espaço. A fotografia é uma memória. Fotografia é um texto. A fotografia é um postal. A memória é uma imagem. Um livro de fotografias bem desenhado pode criar um novo tipo de original."

Estas afirmações de Daniel Blaufuks partem da consciência de que a imagem fotográfica é constituida de inúmeras camadas de sentido em que a relação entre memória e realidade conhece novas dimensões.

Trata-se de, primeiro, distinguir entre a imagem-facto e imagem-fotografia, esta é um objecto com uma escala e narrativa próprias, a outra diz respeito aos diferentes modos de como o real se inscreve nos corpos, na inteligência, na sensibilidade.

As categorias de interpretação da fotografia estão presas não só à pratica que cada indivíduo, artista e fotógrafo a cada momento definem, mas do modo como essas imagens participam da vida colectiva da comunidade em que se inserem. É neste contexto que o livro de fotografia (também podemos designá-lo como álbum, atlas, colecção e, até certo ponto, arquivo) é uma outra existência da imagem-fotografia. É esta existência que os livros de Blaufuks dão conta...

Nuno Crespo

Arquivo Municipal de Lisboa /Biblioteca do Arquivo Fotográfico

Rua da Palma, 246 Lisboa

Telf.21 886 23 32

arqmun.fotografico@cm-lisboa.pt

O "Sítio" do Daniel Blaufuks


© Daniel Blaufuks. I Spy, da série Collected Short Stories, 2003
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sexta-feira, fevereiro 08, 2008


FOTÓGRAFOS DA CASA REAL


Palácio Nacional da Ajuda

17 de Fevereiro de 2008 às 15:00 horas

No Palácio Nacional da Ajuda uma visita guiada cujo tema é “Fotógrafos da Casa Real”, a qual será orientada pela conservadora da colecção de fotografia do palácio, a Dr.ª Mª do Carmo Rebello de Andrade. A visita está sujeita a marcação prévia e tem o limite de 30 pessoas.

Informações:

Palácio Nacional da Ajuda / Museu Calçada da Ajuda 1349-021 Lisboa

Tel 213637095

Fax 213648283

www.ipmuseus.pt/

www.ippar.pt/monumentos/palacio_ajuda.html

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quarta-feira, fevereiro 06, 2008

HOTEL CHELSEA, NY
"Um lugar mágico"




Capa do Le Monde 2. “Hotel Chelsea, New York”, Fotografia de Rita Barros


O assunto “Une legende que s’éteint” faz a capa do "Le Monde 2" de 1 de Fevereiro de 2008, com uma fotografia de Rita Barros. No interior algumas fotografias ilustram a reportagem sobre a agonia do mítico hotel nova-iorquino. A fotógrafa portuguesa vive em New York desde 1980, foi para lá estudar, a cidade trocou-lhe as voltas “Rapidamente arranjei amigos, também saía muito, NY era super divertido, mas assim daquelas coisas que a gente não tem tempo para ir às aulas, e pronto, rapidamente gostei muito, e festas, era uma altura em que havia muito dinheiro e em que, de facto, viver era fácil. Trabalhar era uma coisa, género ganhar rapidamente assim o que houvesse a ganhar e continuar.” (som), In ©2001 Walk Don't Walk, de Laurent Simões. Rita vive no último andar do Chelsea Hotel no mesmo quarto onde esteve o inventor dos satélites, Arthur C. Clarke que escreveu "2001: Odisseia no Espaço" enquanto aí esteve hospedado. Rita Barros já editou um livro de fotografias “Chelsea Hotel fifteen years” em 1999. E não me surpreenderia se editar um segundo com muitas fotografias e histórias deste hotel mítico, verdadeiro ícone da cultura nova-iorquina.

Velho de 125 anos o Chelsea aguenta. Tem resistido desde 1883 altura em que foi construído no bairro de Chelsea, em Manhattan, Nova Iorque. Situa-se no 222 de West Street 23º, entre as Sétima e Oitava Avenidas. Foi o primeiro condomínio “cooperativa de habitação” de Nova Iorque. De rendas baixas e residentes modestos, trabalhadores imigrantes italianos, irlandeses, polacos, alguns judeus que viviam do comércio e de outras actividades portuárias nas docas de Hudson ali mesmo ao lado. Em 1905 a cooperativa foi vendida e passou a ser um Hotel. Foi só em 1939 que o pai de Stanley Bard, um imigrante húngaro que tinha feito fortuna, adquiriu o hotel em sociedade com alguns amigos. Em 1957 o pai de Stanley Bard nomeia-o delegado do Chelsea Hotel. Hoje o hotel recebe hóspedes, mas é mais conhecido pelos seus residentes de longa duração, do passado e do presente. Em 1968 Stanley Bard hospedou um jovem checo que não gostava dos tanques soviéticos a passearem pelas ruas de Praga e por isso resolveu fugir para o outro lado do atlântico. Acabado de chegar a New York, sem dinheiro, ficou combinado que só pagaria a estadia no Chelsea quando se concretizasse a pretensão que trazia de realizar um filme. Bard perguntou-lhe como se chamava. Ao que este lhe respondeu: "... no passaporte está escrito Jan Thomas Forman mas, todos me tratam por Milos". O jovem cineasta, então com 36 anos, só veio a pagar a renda 2 anos depois com o êxito de Taking Off (1971), uma sátira hilariante. Ficaria no Chelsea por mais três anos, a trabalhar no argumento do “One Flew Over the Cuckoo's Nest” (em português: Voando sobre um Ninho de Cucos), que estreou em 1975. Um filme que é uma adaptação de um romance de Ken Kesey, que foi produzido pelo actor Michael Douglas e que marcaria a carreira de Milos Forman. Ainda hoje, quando visita Nova Iorque, Milos fica hospedado no Chelsea Hotel.




"Como se fuma um charro"




Não resisto - até pelo fundamentalismo anti tabagista que nos rodeia, em deixar aqui um excerto de 'Taking Off' de Milos Forman (1971), How to smoke a joint – (Como se fuma um charro). Milos Forman deve rir-se do facto de hoje em dia, haver um 'Não Fumar' no átrio do hotel.


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São muitas as estórias e não menos os nomes de gente célebre que encontrou no Chelsea um abrigo, um lugar privilegiado de inspiração e magia. Paul Morrissey e Andy Warhol dirigem “Chelsea Girls (1966). O filme foi o primeiro grande sucesso cinematográfico de Warhol. Tendo como cenário o Hotel Chelsea e outros locais de New York, documenta a vida das jovens que aí vivem. O nome é uma óbvia referência ao local onde decorreram as filmagens. Filmado no Verão e início do Outono 1966, em várias salas e locais no interior do Hotel Chelsea, mas vale a pena esclarecer que, de todos aqueles que entravam no filme, só o poeta René Ricard realmente vivia ali na altura. Também se filmou na The Factory, Warhol's studio.
A cantora de música popular, modelo e actriz alemã Christa Päffgen (1938–1988) foi discípula de Warhol, mais conhecida pelo seu pseudónimo Nico, e foi uma das "Warhol Superstar", em "Chelsea Girls".
O Hotel Chelsea é frequentemente associado ao "Warhol Superstars" e o filme "Chelsea Girls" (1966), um filme sobre a sua "Factory" e a vida das "Warhol Superstars": Edie Sedgwick, Viva, Larry Rivers, Ultra Violet, Mary Woronov, Holly Woodlawn, Andrea Feldman, Nico, Paul América, e Brigid Berlinno como residentes do Hotel Chelsea.




Nico canta Chelsea Girls in the Chelsea Hotel




No Hotel Chelsea passaram ou permaneceram por longos períodos, escritores e pensadores como: Mark Twain, O. Henry, Herbert Huncke, Dylan Thomas, Arthur C. Clarke, William S. Burroughs, Gregory Corso, Leonard Cohen, Arthur Miller, Quentin Crisp, Gore Vidal, Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Jack Kerouac (que aí escreveu On the Road ), Robert Hunter, Jack Gantos, Brendan Behan, Simone de Beauvoir, Robert Oppenheimer, Jean-Paul Sartre, Bill Landis, Michelle Clifford, Thomas Wolfe, Charles Bukowski, Matthew Richardson , Peggy Biderman, Raymond Foye, e René Ricard. Charles R. Jackson, autor de The Lost Weekend, cometeu suicídio nos seus aposentos, no Chelsea a 21 de Setembro de 1968. Por lá passaram também actores e realizadores como: Stanley Kubrick, Shirley Clarke, Cyndi Coyne, Mitch Hedberg, Miloš Forman, Lillie Langtry, Ethan Hawke, Dennis Hopper, Eddie Izzard, Kevin O'Connor, Uma Thurman, Elliot Gould, Jane Fonda, e Gaby Hoffmann e sua mãe, a estrela "Warhol Superstar" Viva e Edie Sedgwick. Ali moraram, mais ou menos tempo, músicos como: The Libertines, Tom Aguarda, Patti Smith, Virgil Thomson, Dee Dee Ramone do grupo "The Ramones", Henri Chopin, John Cale, Édith Piaf, Joni Mitchell, Marty Connolly, Bob Dylan, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Sid Vicious, Richard Hell, Ryan Adams, Jobriath, Rufus Wainwright, Abdullah Ibrahim / Sathima Bea Benjamin, Leonard Cohen e Anthony Kiedis.


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Patti Smith e Robert Mapplethorpe no Hotel Chelsea


O Chelsea foi ainda um lugar mágico para artistas plásticos que ali pernoitaram ou se deixaram ficar em estadias mais ou menos longas, ali viveram, ali se abrigaram e ao Hotel deixaram algumas das suas obras: Larry Rivers, Brett Whiteley, Christo, Arman, Richard Bernstein, Francesco Clemente, Philip Taaffe, Michele Zalopany, Ralph Gibson, Robert Mapplethorpe, Frida Kahlo, Diego Rivera, Robert Crumb, Jasper Johns, Claes Oldenburg, Vali Myers, Donald Baechler, Herbert Gentry, Willem De Kooning, John Dahlberg e Henri Cartier-Bresson. O pintor e etnomusicologista Harry Smith viveu e morreu no quarto 328. O pintor Alphaeus Cole viveu no Chelsea os últimos 35 anos da sua vida, onde acabou por morrer em 1988, com 112 anos. Charles James: couturiers do século XX, influenciaram a moda nos anos de 1940 e 50 - Em 1964 mudaram-se para o Chelsea Hotel, onde criaram um pequeno estúdio, mas que atraiu poucos clientes. James morreu de pneumonia no Chelsea Hotel, em 1978.




Um "concerto" ao Chelsea Hotel
“Sarah” Bob Dylan in Chelsea Hotel
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"Sara" by Bob Dylan, which refers to "Staying up for days in the Chelsea Hotel, writing Sad Eyed Lady of the Lowlands for you".


LEONARD COHEN'S CHELSEA HOTEL AT MIDNIGHT
Chelsea Hotel/Leonard Cohen/Rufus Wainwright








David Van Tieghem - Live at the Chelsea Hotel






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New York Skyline. Fotografia de Rita Barros

Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.

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sexta-feira, fevereiro 01, 2008


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Dos Anos do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa
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Na sequência de uma iniciativa da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) e do jornal “O Primeiro de Janeiro”, e tendo por base uma selecção de fotografias (70), a exposição "Dos Anos do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa" pretende dar a conhecer uma determinada realidade arquitectónica, antropológica e etnográfica de Portugal. As fotografias têm origem no arquivo profissional do arquitecto António Menéres, enquanto membro da Zona 1 da equipa do inquérito produzido pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos no final dos anos 50 e tornado público no ano de 1961. A exposição que agora se apresenta na Direcção-Geral de Arquivos (DGARQ) / Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), mostra o percurso fotográfico resultante da acção do arquitecto. O resultado deste trabalho é uma exposição itinerante, que já esteve exposta na FAUP e no Arquivo Distrital de Braga/Unidade Cultural da Universidade do Minho e que agora se apresenta em Lisboa, acompanhada de um Livro/ Catálogo (disponível para aquisição na Loja da DGARQ/ANTT) que fixa e amplia a dimensão do material expositivo.
A exposição está patente ao público, na sala de exposições do ANTT (Alameda da Universidade, 1649-010 Lisboa), de 11 de Janeiro a 22 de Fevereiro de 2008, nos dias úteis das 10h às 19h e aos Sábados das 10h às 12h.
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quinta-feira, janeiro 31, 2008



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L'ancêtre du porte cartes mémoire. (Tony Cenicola/The New York Times)


Robert Capa e "La valise mexicaine"


Desaparecida desde 1939, “la valise mexicaine” de Robert Capa que na verdade não é uma, mas três malas de negativos, acabam de ser devolvidas por um cineasta mexicano, Benjamin N. Traver. O fotógrafo tinha confiado estas três malas ao seu assistente Imre (Csiki) Weisz antes de fugir para os Estados Unidos da América. Agora que foram encontradas, elas trazem consigo algumas questões. Julgava-se que Weisz as tinha dado a um Cônsul mexicano em Marselha, antes de ter sido preso e de ter sido enviado para um campo na Argélia. Por isso, e se foi realmente assim, como se explica que depois da sua libertação, ele não tenha procurado os negativos (na altura nas mãos do General Aguilar Gonzalez que os tinha levado com ele para o México) ?
Imre Weisz entrevistado pelo biografo de Robert Capa, Richard Whelan, em 1985, nunca deu indícios que permitissem localizar os negativos...Ele hoje está morto, mas foi precisamente no México que acabou os seus dias (casou com a pintora surrealista Leonora Carrington).
Depois da reaparição surpresa dos negativos na Internacional Center of Photography (ICP) em Nova Iorque, “une onde de choc parcours la planète photographique”. A descoberta destes filmes, que pertenciam tanto a Capa como a Gerda Taro e David ‘Chim’ Seymour, reabrem a discussão. O original da célebre foto do soldado espanhol, atribuída a Capa e publicada a 23 de Setembro de 1936 na revista VU, estará ele no meio dos 3 500 negativos perdidos à 69 anos? Poderemos esclarecer, enfim, a autenticidade do “cliché”? Por exemplo, em Lés Photos Icons (Ed. Taschen, 2002) Hans-Michael Koetzle interroga-se: “Como é que um homem que está a descer uma ladeira e é alvejado, pode cair para trás?”
A fotografia será encenada? O homem terá sido realmente baleado? E depois falta confirmar de quem é na verdade a imagem. Brian Wallis, o chefe dos conservadores do ICP, já disse que a emblemática fotografia pode ser de Taro e não de Capa... Uma coisa é certa, os direitos sobre os clichés de Gerda Taro na posse do ICP, serão assegurados pela Magnum, assim como os negativos de Capa e de Chim que forem encontrados nas malas.



Morte de um miliciano, Robert Capa, (?) Cerro Muriano, 1936 (25,5 x 35cm)


Texto original no blogue Photographie.com
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sexta-feira, janeiro 25, 2008



Paris en couleurs

Clique na imagem para ter acesso ao catálogo em PDF.

Dos irmãos Lumière a Martin Parr

Para comemorar o centenário da comercialização do autochrome, primeiro processo industrial de fotografia a cores inventado pelos irmãos Lumière, podemos ver até Março de 2008 no Hotel de Ville a exposição “Paris en couleur” 300 fotografias inéditas da capital francesa desde 1907 até hoje.
Estão nesta exposição cerca de sessenta negativos em placas de vidro autochrome de entre 1907 e 1930 dos Archives de la Planète. Em 1909 o banqueiro Albert Kahn (1860-1940), decidiu conceber o seu projecto para os Archives de la Planète, primeiro com imagens a preto e branco mas, a partir de 1912 e 1913 o operador Stéphane Paset vai realizar autochromes da República Popular da China. Entre 1909 e 1931, Albert Kahn financia reportagens fotográficas em mais de cinquenta países; 72 000 autochromes resultaram deste empreendimento, inventário fotográfico único e testemunho essencial dos primeiros anos do séc. XX.
A partir de 1913 são cerca de 6 mil placas de vidro que saem diariamente das fábricas Lumière. Em 1931 começam a vender-se os Filmcolor, material à base de celulóide. Dois anos depois substituído pelo Lumicolor, também em celulóide. O processo autochrome desaparece em 1956 cedendo à concorrência com processos de revelação cromogenea inversivel comercializados pela Kodak e pela Agfa desde 1935/36.

Numa segunda parte podemos ver fotografias de entre 1930 e 1960, o início dos filmes de fotografia a cores nos originais de Gisèle Freund, , fotógrafa alemã refugiada em França, foi uma das primeiras a especialisar-se nos retratos a cores. Fotografou artistas e escritores (Cocteau, Sartre, Youcenar, Beckett... ).
A 8 de Maio de 1939 a capa da revista americana Time mostra-nos um retrato em Kodachrome do escritor James Joyce na sua casa de Paris.
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Nos anos 20, Serge Prokoudine Gorsky, um dos pioneiros russos da fotografia a cores, fundador com os seus filhos Michel e Dimitri da sociedade Elka, torna-se conhecido quando desenvolve e melhora um processo de revelação a cores. São eles os responsáveis pelo Álbum Oficial da Exposição Internacional das Artes e Técnicas em Paris , 1937. As fotografias a cores no álbum oficial da Exposition Internationale des Arts et des Techniques” contrastam com o preto e branco de Guernica, o quadro de Picasso, que estava nesta mesma exposição internacional, denunciando o massacre com o mesmo nome, e o silêncio de uma Espanha ausente.
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Álbum oficial da “Exposition Internationale des Arts et des Techniques”, de 1937
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As imagens do quotidiano dos parisienses durante a ocupação e a libertação de Paris. “La pellicule en couleurs, quant à elle, est introuvable en France”. Setenta imagens inéditas de fotógrafos franceses e alemães, profissionais e amadores, podem ser vistas projectadas na exposição “Paris en Couleurs” As fotografias a cores de Paris durante a Segunda Guerra Mundial são muito raras. Quando da ocupação alemã um regulamento proibia a fotografia no exterior, salvo profissionais munidos de uma autorização especial com o acordo dos serviços de propaganda alemães.
Finalmente, dos finais dos anos sessenta até aos dias de hoje, nomes como Bruno Barbey ou Pierre et Gilles, Jean-Paul Goude, Sarah Moon, Martin Parr ou Philippe Ramette.
Uma parte da exposição é dedicada à moda e ao papel dos fotógrafos da Vogue como Henry Clarke, William Klein, Helmut Newton.







Exposição « Paris en couleurs » no Hôtel de Ville
Colocado por mairie de paris
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quinta-feira, janeiro 24, 2008

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A realidade "também" a cores
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A TRICROMIA

O francês Louis Ducos du Hauron (1837-1920), foi o inventor da fotografia a cores em 1868. Eescreveu “Lés Couleurs en Photographie”, em 1869. Foi também o inventor da tricromia, processo de fotografar e de impressão em policromia de fotografias. Hauron foi ainda, o inventor dos anaglifos, imagens que dão a impressão de relevo quando as olhamos através de óculos com uma lente vermelha e outra verde.


Agen, França em 1877. Fotografia de Louis Ducos du Hauron


Les Autochromes Lumière
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Os irmãos Auguste e Louis Lumière registaram logo em 17 de Dezembro de 1903 e apresentaram na Academia de Ciências a 30 de Maio de 1904 as placas autochrome Lumière. A partir de Junho de 1907 a invenção começa a ser comercializada e em 1913 são cerca de 6 mil placas de vidro que saem diariamente das fábricas Lumière. Em 1931 começam a vender-se os Filmcolor, material à base de celulóide. Dois anos depois foi substituído pelo Lumicolor.
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Photographies couleurs collections privées de la famille
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O AUTOCROME
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Este processo consistia em cobrir um vidro com oito a nove mil grãos de amido de batata por milímetro quadrado. Esses grãos coloridos de violeta, verde e laranja eram misturados numa proporção tal que a mistura apresentava uma cor neutra. Eram depois espalhados sobre uma chapa de vidro e submetidos a alta pressão de iodo para formarem uma camada muito fina, uniforme, transparente, com a espessura de um só grão. Pó de carvão era usado para tapar os poros e fixava-se sobre a placa com a ajuda de um betume, uma aplicação de carbono que permitia preencher as separações dos grãos.
Os grãos de amido eram depois cobertos com emulsão pancromática e expostos numa máquina fotográfica com a emulsão por detrás do vidro e dos grãos de amido. A luz atravessava primeiro o vidro, depois os grãos coloridos e finalmente registava na emulsão uma imagem a preto e branco contendo toda a informação cromática da cena fotografada. A chapa era revelada por um processo reversível. A imagem final resultava da sobreposição de um positivo transparente a preto e branco com o ecrã colorido. Tinha um aspecto granuloso, apresentando cores suaves. Os pequenos pontos coloridos não se apercebiam a olho nu e as três cores misturavam-se perfeitamente dando a aparência das cores reais. O processo apresentava excelente estabilidade. Duas revelações sucessivas transformavam a placa em positivo restituindo-lhe as cores reais da natureza. Depois aplicava-se um verniz destinado a aumentar a transparência das cores e a proteger a superfície sensibilizada das deteriorações, O resultado que se obtinha era o de uma placa positiva visível por transparência, da mesma forma de como seriam mais tarde vistos os diapositivos.

Em 1909 o banqueiro Albert Kahn (1860-1940), decidiu conceber o seu projecto para os Arquivos da Planète, primeiro com imagens a preto e branco mas, a partir de 1912 e 1913 o operador Stéphane Paset vai realizar autocromes na República Popular da China. Entre 1909 e 1931, Albert Kahn financia reportagens fotográficas em mais de cinquenta países; 72 000 autocromes resultaram deste empreendimento, inventário fotográfico único e testemunho essencial dos primeiros anos do séc. XX.


Technicolour dream: a married noblewoman, Ulan Bator, 1913

Outro processo que dava os primeiros passos era a revelação cromogénia inversivel, descoberta de R. E. Liesegang em 1895 e B. Homolka em 1907. O uso de acopladores de cor foi patenteado por Rudolph Fischer em 1912. Os corantes amarelo, cian e magenta, constituintes da imagem a cor, são formados durante a revelação cromogénia por reacção química do revelador oxidado com acopladores de cor existentes na emulsão ou no banho revelador. No processo de revelação cromogénia a primeira reacção dá-se entre os sais de prata e o revelador, formando-se prata metálica e revelador oxidado. A segunda reacção dá-se entre o revelador oxidado e os acopladores de cor formando-se corante. A prata é eliminada num banho posterior e a imagem final é constituída apenas por corantes. Os acopladores de cor não usados permanecem invisíveis na emulsão. Este método foi um grande desenvolvimento na cor da fotografia, e na qualidade da imagem, mas as cores produzidas eram inexactas, porque os acopladores não permaneciam nas camadas dos respectivos filmes.
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Serge Prokoudine Gorsky
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Tolstoy fotografado a cores por Prokudin-Gorsky


Nos anos 20, Serge Prokoudine Gorsky, um dos pioneiros russos da fotografia a cores, fundador com os seus filhos Michel e Dimitri da sociedade Elka, torna-se conhecido quando desenvolve e melhora um processo de revelação a cores.


Kodachrome e a evolução da fotografia a cores


Rolos Kodachrome de 1935 ....................................Fotografia Autochrome de 1907,

Curiosamente foram dois músicos profissionais que ficaram ligados ao maior sucesso de sempre da fotografia a cores a kodachrome, são eles os americanos Leopold Godowsky, Jr. e Leopold Mannes. A Kodachrome foi inventada por eles em 1930 e veio revolucionar todos os conceitos até então existentes sobre fotografia. Entrou nas nossas casas, nas revistas dos cabeleireiros, impôs-se na publicidade no cinema na moda, no fotojornalismo e por fim nas artes.




Quem da nossa geração, não teve o seu momento kodachrome? Tivemos todos os nossos momentos Kodachrome, aqui ficam alguns dos meus momentos coloridos nos anos sessenta e setenta.





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Kodachrome em 1974, o meu irmão Miguel e eu muito coloridos.



1969, eu a fazer-me à Kodachrome


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.Kodachrome de John F. Kennedy apenas 90 segundos antes de seu assassinato em 1963

Se pretenderem continuar a conhecer a cor na fotografia, não deixem de ler o Prof. Jorge Calado no Blogue da Associação Portuguesa de Photographia e no Sais de Prata e Pixels da Madalena Lello o que estes escreveram sobre o tema.


Mistérios da Cor
Será preciso recomeçar a fabricar os papéis e a preparar pigmentos

“O problema estava no excesso de informação. Se já era difícil procurar o instante decisivo em que a estrutura geométrica e significado coalesciam numa mensagem una e definida, era mesmo impossível esperar que as cores, aleatórias como a vida, harmonizassem com tudo o resto. À coca na esquina da rua, o fotografo não podia pedir à fulana que passava que mudasse ou tingisse o vestido, ou que o dono da loja alterasse a cor do letreiro, para tudo « ficar melhor no retrato». O pintor comanda a paleta; o fotógrafo governa-se com o que Deus lhe dá.”
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Jorge Calado in Actual, Expresso 9 de Abril de 2005, no Blogue da APPh.
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Joel Meyerowitz e a cor na fotografia
A 28 de Novembro de 2006 Madalena Lello, a propósito da cor na fotografia de Joel Meyerowitz, escrevia assim: “A utilização tardia da cor na fotografia continua um mistério por desvendar.A justificação de que os filmes a cores produziam cores instáveis não serve a partir da década de 1930. Em 1936, a Eastman Kodak Company comercializava o Kodachrome Color Film.”


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Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.
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quarta-feira, janeiro 23, 2008


Zwelethu Mthethwa um fotógrafo sul-africano



Zwelethu Mthethwa nasceu em 1960 em Durban, Kwa-Zulu Natal, África do Sul. Estudou na Michaelis School of Fine Art, University de Cape Town. Com uma bolsa foi para os Estados Unidos da América onde, no Rochester Institute de Technology, obteve um mestrado em artes gráficas em 1989. No seu regresso à África do Sul, trabalhou durante vários anos no comércio antes de se tornar professor de fotografia e desenho na Escola Michaelis em 1994. Em 1999 deixa o ensino para se dedicar a tempo inteiro ao seu trabalho artístico. Conhecido pelas suas grandes ampliações fotográficas que nos mostram uma África a "cores".
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Zwelethu Mthethwa. Série Cana do Açucar 2004

Se clicar aqui ou nas fotografias de Zwelethu Mthethwa pode ver e ouvir Pascal Philippe na redacção de Photographie.com a falar sobre o trabalho do fotógrafo sul-africano: "Imagens que interrogam a realidade económica e política da África do Sul, que nos falam do quotidiano das populações obrigadas a deixar as zonas rurais e que nos descrevem os dias daqueles que vivem à margem da sociedade.".
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Ângela Camila Castelo-Branco

sábado, janeiro 19, 2008


Um “Sítio” para Ernesto de Sousa


(… ) A paixão da pintura, foi quando eu comecei a fabricar tintas. Eu acabava um curso universitário. De ciências… Foi a grande re-volta. Que depois se transformou em câmara escura. (Autobiografia In desdobrável da exposição A Tradição como Aventura, Gal. Quadrum, Lisboa, 1978)

“A sua produção fotográfica, com início nos anos 40, inclui levantamentos etnográficos, de escultura medieval, de arte popular, retratos urbanos, etc. Entre os inéditos que fazem parte do seu espólio, contam-se numerosas montagens de fotografias que E.S. “paginava” com reenquadramentos e cortes, segundo um modelo que não era meramente gráfico ou cinematográfico mas antes se aproximava de posteriores sequenciações conceptuais.”. (Biografia In http://www.ernestodesousa.com/)


Emília Tavares escreve sobre o trabalho de Ernesto de Sousa na área da Fotografia (…) Ernesto de Sousa adere às primeiras rupturas com o redutor ambiente de concursos e salões fotográficos, bem como das publicações a estes adstritas, ao lançar a breve mas fracturante revista PLANO FOCAL, na década de 50, em que se assistiam ainda às ressonâncias de um Surrealismo nacional inesperado. Ao longo de 5 números, a revista propõe uma actualização dos conteúdos fotográficos informativos e formativos em que, entre outras situações de relevância, a historicamente mais importante foi uma entrevista a Man Ray (1890-1976), publicada no número de Maio-Junho de 1953.(…)

“dar o mundo todo ao mundo”

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Em 1972, Ernesto de Sousa entrevistou Joseph Beuys na V DOCUMENTA, em Kassel.

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Ernesto de Sousa encontra-se com Joseph Beuys…

…assim, para lá de todo o pudor:
ES: Nascemos ambos em 1921, eu conheço-te razoavelmente. Tu não me conheces. Achas bem?
JB: Acho péssimo.
ES: Conheces algum português?
JB: Sim… 0 Pinheiro, o Costa Pinheiro!
ES: Pois… que vive e trabalha em Munique. Também o conheço.Afinal começamos a ter algo em comum… de qualquer maneira, terei que te conhecer melhor. A primeira pergunta que quero fazer é muito importante: Consideras-te uma pessoa séria?
JB: Sim, sou uma pessoa muito séria… - Aqui Beuys suspende-se e afirma depois com uma grande simplicidade: - mas também sou um «clown».(Um clown. Sabia Beuys o profundo respeito que eu tenho pelo «clown»? Tinha que saber. Almada Negreiros também era assim um pouco «clown» e isso não foi uma das razões menores do meu fascínio, posso dizer do meu amor. Vou mais longe: um intelectual que se preza e que se toma cem por cento a sério nesta sociedade, neste sistema, é para mim o último dos patetas. Ou talvez seja um ingénuo. «Um ingénuo voluntário», dizia Almada. E talvez não seja por acaso que num grafitti desenhado sobre um cartaz de Beuys alguém escreveu: Sou um ingénuo!)
ES: Tu fazes «propaganda política». A mim parece-me que propagas sobretudo uma ideia utópica. Acreditas que a utopia é necessária?
JB: Sim. Mas devemos encarar a utopia no domínio das possibilidades reais. Há uma utopia negativa que devemos riscar. E uma utopia positiva. Essa, embora mantendo-se como utopia, deverá também entrar no domínio das possibilidades reais. (E com uma escrita característica e impressiva traça um esquema desta ideia no meu caderno. Compreende-se que os esquemas de Beuys tenham tanta importância para ele. São elementos do espaço socrático que conduz ao diálogo, ao d i á 1 o g o, ao D I Á L 0 G 0).
0 Diálogo
JB: Nunca deixei de atingir o diálogo intenso. O resto, as acções, as obras, a «arte» é secundário. Pouco me interessa a arte senão na medida em que ela propicia o diálogo com o homem. Esse diálogo sempre o consegui… Algumas vezes tive que ouvir insultos, sarcasmos, mas isso também foi sem importância.
ES: Apesar da roupagem «política» da tua propaganda, julgo que ela é sobretudo moral porque se dirige a cada um dos teus interlocutores. No entanto o que pensas da teoria científica das relações de classe social tal como tem sido desenvolvida no pensamento moderno?
JB: Penso que é uma teoria muito importante, e decisiva, sem a qual não se pode entender a sociedade actual. Mas penso que o meu trabalho é outro, paralelo a esse mesmo. Neste meu domínio o que me preocupa é uma espécie de terapêutica social, activa e metodicamente empreendida. Dessa terapêutica faz parte uma informação inteira, cuja vocação é dar o mundo todo ao mundo: homens, animais, história, o espaço, as pedras, o tempo, as plantas… É aqui que intervém a arte, como um meio de comunicação. Que esta tarefa se transforme em política, pois bem, assim tem que ser. É o destino de tudo o que pretende a uma capacidade global. Dar o mundo ao mundo. É como dar a não-forma à forma e vice-versa. Nas minhas acções anteriores sempre me preocupei em mostrar que no fundo de tudo isto havia uma energia comum - e que nos devíamos lembrar desta energia comum que resume tudo. Eu e tu, por exemplo.
ES: Sim, falaste em eficácia…
JB: A eficácia é segundo a capacidade de cada um. Mas não creio que a eficácia aconteça seja no que for se não for acompanhada dessa confiança total. Que tem que ser restabelecida, é essa a terapêutica social.
ES: A arte surge assim como um meio. Consideras-te um artista?
JB: Sim e não. (E Beuys inclina-se sobre o meu caderno e escreve:
ANTIARS + ARS = ARS
… a fórmula que resume não tão facilmente como se pode pensar o problema da anti-arte. Porque uma transformação semântica importante não é um eterno retorno dessorado. Que importa que as palavras fiquem se o mundo é outro. É esse outro que nos compete pressentir).
ES: Tu dizes que a revolução somos nós. Nós todos. Então os carrascos também entram na tua classificação. «Eles» também são a revolução…
JB: Também são… em absoluto. Mas digamos que têm poucas probabilidades de se realizarem como revolução. É isso; têm muito poucas probabilidades… Eu devo falar de todas as forças que se relacionam com o homem: as boas e as más. Aqui a posição do artista aproxima-se de uma posição antropológica: recolocar o homem no todo é ter consciência daquilo que lhe está ligado pelo baixo, como daquilo que lhe está ligado pelo alto. Só assim o homem terá força para as grandes transformações. Da passagem da não-forma à forma (um pedaço informe de cera seca adquire a forma arquitectónica do que a envolve), do movimento, da vontade. A vontade, o sentimento e a tomada de consciência. É o fim das minhas acções, que pretende atingir a confiança total.
ES: Joseph Beuys, vives numa sociedade que pretendes combater, e instalado nela, serves-te dela. Mas como é isso possível? És rico? Tens meios próprios?
JB: Rico não sou, mas ganho à vontade para fazer o que quero… Eu sou escultor, sabes? Eu sabia. Tinha visto o essencial da «obra» de Beuys no Museu de Darmstadt, como parte da espantosa doação do industrial Ströher à cidade. Ströher fez uma combinação com Beuys segundo a qual este lhe forneceria um duplo de cada «obra». Assim o Museu tem o carácter de colecção científica, o que está de acordo com as «obras» em questão e com as intenções principais de Beuys.Escultor. Escultura de arte-total: pega em qualquer coisa, diz o Ben Vautier. Essa escultura pode ser materialmente nada, mas corresponde-lhe sempre uma imagem mental: todo o mundo à volta mudou. («A cada imagem nova, um mundo novo», já explicara o Bachelard.) A entrevista terminava. Prometi a Beuys que me apresentaria melhor quando estivéssemos mais preparados para isso (a máscara). Entretanto mandei-lhe recados para amigos que não me conhecem também, Spoerri, Broodthaers, Filliou… «J’ai enfin le droit de saluer des êtres que je ne connais pas» (Apollinaire, Le musicien de Saint Merry). A propósito de Spoerri, falou-se de peixes com miolo de figo do Algarve, eat art. Mas isso já não interessa aos leitores de República.
Nem, tão pouco, aos leitores do Grand Monde. O que interessa realmente reter, é este sítio http://www.ernestodesousa.com/, onde podemos estudar uma parte da história da fotografia em Portugal. Numa iniciativa inédita e sem paralelo na cultura portuguesa, Isabel Alves disponibiliza a todos, como dizia Beuys “dar o mundo todo ao mundo”, o espólio de Ernesto de Sousa. A companheira dos últimos vinte anos de Ernesto de Sousa, procura perpetuar-lhe a memória. Que arribe a bom porto...


O carácter fundador e transdisciplinar das acções desenvolvidas por Ernesto de Sousa, tal como fica a seguir brevemente anotado na sua biografia, constituem-nas como obras abertas de que a investigação académica, a edição e a reedição de textos ou outros registos ou o exercício da crítica podem ser considerados as mais evidentes e desejáveis consequências. Em 1990, na sequência da decisão de organizar e salvaguardar o espólio de Ernesto de Sousa, a partir do projecto CEMES, foram estabelecidos protocolos com a Biblioteca Nacional, (Inventário BN), para o tratamento e microfilmagem da produção escrita do artista, identico protocolo com a Cinemateca-ANIM, em relação ao espólio fílmico, e com o Arquivo Nacional de Fotografia (hoje Divisão de Documentação Fotográfica do IPM), para salvaguarda de uma parte do acervo fotográfico. O projecto CEMES aguarda encontrar a Instituição interessada no importante acervo de interesse público.
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2008 © http://www.ernestodesousa.com/. Todos os direitos reservados.

Porque entendo, que qualquer reprodução possa ser entendida como abusiva e apesar de com este post apenas estar a homenagear a obra de Ernesto de Sousa e este Sítio que inaugura agora, como se se tratasse de um verdadeiro “Museu Virtual da Obra de Ernesto de Sousa” que Isabel Alves põe à disposição de todos, fica aqui registada a disponibilidade imediata para anular este post se esse for o entendimento de Isabel Alves e da CEMES.
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Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.
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quarta-feira, janeiro 09, 2008

Daniel Blaufuks

domingo, janeiro 06, 2008

É PROIBIDO PROIBIR

Lei n.º 37/2007 de 14 de Agosto