Dedico este artigo a Gérard Castello Lopes
O que interessa nas fotografias, é, assim, e apenas, as próprias fotografias. Elas sobreviveram em primeiro lugar pela beleza. Aplicando o que o antropólogo Julio Caro Baroja escreveu em contexto só aparentemente afastado, ‘as formas de ritual que têm um valor estético resistem ao tempo’. É o caso.
Ambas as fotos confirmam e contrariam a essência da fotografia em simultâneo: capturam um momento fixo, único; mas dão-nos também, na rigidez desse momento, a história do antes e principalmente do depois. Não são só a acção em imagem, são a imagem em acção. Tal como a foto do homem que salta de uma das Torres Gémeas, estamos perante duas imagens provocadoras da imaginação, construtoras de narrativas.
Há mais semelhanças entre elas. Cada uma mostra um único homem, não identificável. A identidade é tornada irrelevante pela distância e pelas circunstâncias que cada um vive. No caso do esquiador, a cara está tapada pelo equipamento de protecção. No caso do surfista, a distância impede que lhe reconheçamos as feições. Aqui entra uma primeira dimensão cultural das duas fotos -- simbólica ou representacional, se se quiser: estes dois homens poderiam ser qualquer um, qualquer outro. Eles são eles e ao mesmo tempo todos os homens. Apesar de a circunstância revelar a sua valentia, não estão aqui como heróis, pois mais parece que os rodeia uma força exterior a eles.
Assemelham-se também as duas imagens por mostrarem os protagonistas rodeados pelo elemento água: gelada no primeiro caso, líquida no segundo, a água ocupa tudo o que há. E a água está nos dois casos em revolta, em avalancha sobre o esquiador, em onda gigantesca envolvendo o surfista.
Os desportistas estão em perigo. A água representa aqui em primeiro lugar a morte e não surge aparentemente como a fonte de toda a vida. É uma massa indiferenciada que ameaça submergir os homens. É uma representação simbólica da dissolução, do dilúvio que revela a fragilidade do homem: ‘Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou a afundar-me num lamaçal profundo, não tenho ponto de apoio; entrei no abismo de águas sem fundo e a corrente está a arrastar-me’ (Salmos, 69, 1-2).
No caso do surfista, quase não há linhas rectas. A onda do mar é um remoinho, um vórtice que suga em direcção ao centro exacto da fotografia. É aí que está o fundo, o abismo, o ponto mais negro do mar na imagem. Acontece, porém, que a imagem nos dá uma sensação de que o homem não corre perigo. O corpo do homem, num magnífico movimento, acompanha a direcção da onda, mas ele está suspenso, acima da onda, acima do centro do abismo. O seu movimento ascensional diz-nos que ele salvar-se-á. Tal como o gelo, estas não são águas de dilúvio, mas afinal de renovação da vida. Nós sabêmo-lo porque há uma harmonia geométrica perfeita, e a perfeição é divina. O surfista está colocado exactamente acima do cruzamento das diagonais da fotografia. Ele está na metade superior da fotografia porque voa, foge da água em direcção ao céu enquanto o esquiador tinha de estar na metade inferior da fotografia porque foge da água que cai do céu, foge em direcção à terra. Atenção: o surfista está protegido pelo céu, mas também o esquiador, porque ambos estão no ar, não tocam no elemento em fúria, eles andam sobre as águas: poder divino, poder do homem forte e hábil que o desportista representa? Será como o leitor quiser receber estas imagens: mas em qualquer caso, não temerá por eles.
Estando no Centro simbólico das imagens, os seus protagonistas não só representam a Ordem como a vitória sobre o Caos que os ameaça. Nas fotos, para mais, o Caos aparece organizado. Ambos os homens sugerem triângulos, símbolos de divindade, harmonia e proporção. E a fúria da Natureza é geometrica. As duas fotografias transmitem esteticamente essa dupla visão do Caos e da Ordem.
É assim. As imagens dão-nos realidades, mas realidades aparentes. Elas só ganham sentido com a carga simbólica, sagrada ou profana, que transportam elas e que transportamos nós. São os símbolos que tornam estas imagens não só universais como transparentes, que nos permitem ver a transcendência, o mundo e o homem. Podemos camuflar os mitos e os símbolos, mas são eles que nos salvam. Merecem prémios.
Eduardo Cintra Torres in "Olho Vivo", Público 16 de Fevereiro de 2008


















































