Genialidades na Fundação Calouste Gulbenkian
Diz o Prof. em jeito de brincadeira, como se estivesse a dar uma aula, mesmo antes de iniciar uma visita guiada à exposição.
- Isto é uma exposição de fotografia. Não faz sentido procurar a razão pela qual não está aqui a Ponte Vasco da Gama ou a construção da barragem de Cahora Bassa, ou esta ou aquela obra!
- É uma exposição universal, com 350 trabalhos de 160 fotógrafos; a fotografia mais antiga data de 1846 e a mais recente é de Setembro de 2006
- Abarca toda a História da fotografia e engloba quase todas as técnicas e processos a ela associados, dos mais antigos aos mais recentes.
- O facto de notarem uma maior presença dos continentes Americano (América do Norte) e Oceânia (Austrália), deve-se a termos podido acompanhar desde o início as grandes transformações e o desbravar desses territórios.
- “INGenuidades”, é um trocadilho entre Engenharia, a ciência das máquinas, e ardil, aldrabice, maquinação com Ingenuidade, ingénuo aquele que nasce livre.
- A outra grande ideia que encontramos nesta exposição é a de podermos olhar para a engenharia como um corpo orgânico que nasce (vive), morre (pela destruição) e transforma-se. Criação / Destruição / Reciclagem.
Podíamos ter ficado ali o dia todo a ouvir o Professor, ninguém se teria importado. Talvez por essa razão eu tenha voltado numa segunda visita.
Thomas Weinberger, «Cracker», Refinaria Esso, 2003
No mesmo dia, talvez pela mesma hora, Al Gore o autor do livro e do filme «Uma Verdade Inconveniente», militante de causas ambientais, na sua cruzada quixotesca, estava presente em Lisboa numa conferência sobre os perigos das alterações climáticas. A conferência era apenas para convidados, efectuou-se à porta fechada, e não foi permitida a presença de jornalistas nem a captação de imagens. Vá lá saber-se porquê? No mesmo dia, dizia, inaugurava na Fundação Calouste Gulbenkian INGenuidades Fotografia e Engenharia 1846-2006, um hino às preocupações ecológicas com o planeta, um apelo às tréguas desta guerra desenfreada da sociedade de consumo, numa aliança entre o homem, a engenharia, a ciência e as forças da natureza contra a destruição do planeta. Esta menção à conferência de Al Gore no mesmo dia da inauguração de “INGenuidades”, também não é inocente!
Senti esta exposição! E senti-a ainda mais profundamente, quando o Prof. Jorge Calado nos recebe com um Pôr-do-Sol no Oceano Pacífico de ca. 1853 de Ansel Adams (1902-1984) e mesmo antes de nos irmos embora, nos lembra Gandhi (1869-1948) com a frase “Nós somos a mudança que queremos ver no mundo”, daquele que foi a par de Nelson Mandela (1918-), a maior referência e exemplo da perseverança e da inteligência (bondade), do homem do séc. XX.
Mas voltemos à exposição, “O Dodó que desapareceu entre os séculos XVI e XVII, e que é a primeira espécie extinta a entrar na consciência da humanidade”. Podemos ler logo à chegada ao mesmo tempo que apreciamos um dos exemplares robóticos que Harri Kallio construiu, colocou e fotografou no seu ambiente natural, as Ilhas Maurícias. O desaparecimento desta expécie foi consequência da selvajaria dos marinheiros holandeses, espanhois e portugueses que se deliciavam a matá-los à pedrada, até à sua extinção.
“Raios e tempestades nos trabalhos de Nick Moir (1975-); surge a vida na forma de “Lagarto” ou “Dragão Barbudo” e manifestam-se as forças da natureza. E houve luz e energia e as coisas reagiram e a matéria transformou-se. E surgiu a vida.”. Não fosse o Prof. Jorge Calado, para surpresa de alguns que visitam esta exposição, ele também um cientista poeta; engenheiro do conhecimento; físico, coleccionador de sonhos; alquimista da simbiose entre as artes e as ciências; preeminente contador de histórias.“Engenho é máquina ou ardil; ingenuidade é a qualidade do que nasceu livre. Aqui nasce a engenharia, "INGenuidades" usa o engenho e arte da fotografia para mostrar a vida e a morte das técnicas. O ciclo vital das Engenharias – criação, destruição, reciclagem – visto e contado através dos quatro elementos: fogo (tetraedro), ar (octaedro), água (icosaedro), terra (cubo). O quinto poliedro regular o dodecaedro, foi atirado para a quinta-essência, o éter, o espaço, o vazio. E a ciência permitiu que se entendesse o universo.
“A natureza e as suas leis estavam escondidas nas trevas e Deus disse, “Haja Newton!” e fez-se luz.”
Alexander Pope (1688-1744)
E o homem aplicou a ciência e modificou o universo em seu benefício (às vezes egoísta). E daqui resultaram, por vezes, grandes danos. Mas as forças da Natureza continuam avassaladoras. A solução passa por melhor engenharia.”
Figuras geométricas de poliedros regulares acompanham a exposição em conformidade com os elementos que a mesma vai referindo. Para suavizar a visita à mega exposição uma paleta de cores varia segundo os elementos e os temas de cada secção.
É a partir dos quatro elementos que se narra o ciclo vital: criação/destruição/reciclagem. "Todas as engenharias - a civil, a química, a eléctrica, a hidráulica ou a aeronáutica - estão ancoradas nestes elementos, aparecem em defesa das pessoas contra essas forças", explica o Prof. Jorge Calado, "INGenuidades" tenta "espevitar a imaginação das pessoas". Sem ordem cronológica e pontuada por imagens de grande impacto, as provas mais antigas e mais sensíveis são exibidas em nichos com iluminação mais apropriada, algumas surpresas. Muitas surpresas. Esta é também uma exposição que nos maravilha a cada momento que vamos entrando por ela adentro. A variação das dimensões ajudam o diálogo entre as obras.
As sensações são uma constante. O sopro tranquilo do vento, quente e poeirento, "Hot and Dusty, Santa Ana Winds 1996" quando apreciamos a obra do americano (índio), Victor Masayesva (1951-).
Juan Fontanive, "Paper Films" 2005
O zunir indiferente das tempestades em rastos rasgados pela destruição infligida pelo Katrina e aqui mostrada no trabalho de Robert Polidori (1951-) , “North Robertson Street”, 2006.
Alguns anos antes do dominio das máquinas, um latoeiro, a mulher e a filha percorreram a imensidão australiana na sua oficina sobre rodas. Primeiro puxada por um animal, mais tarde uma carrinha, que é hoje grande atracção do Museu Nacional, em Camberra. Consertava tudo, arranjava cortadores de relva, máquinas agrícolas, remendava tachos e sapatos. Jeff Carter (1928-) fotografou-o nos anos 5o.O Prof. Jorge Calado conseguiu reunir aqui todas as engenharias. Pasme-se, até a Engenharia Social. Aí mostra-nos as grandes migrações e os refugiados. O trabalho infantil denunciado na fotografia de Lewis W. Haine (1874-1940). Os problemas étnicos com os ciganos em França. Os aborígenes austalianos. Os combates pelos direitos das mulheres. As lutas pela igualdade entre pretos e brancos, (A 1 de Dezembro de 1955, num autocarro de Montgomery, Alabama, a costureira Rosa Parks recusou-se a dar o seu lugar a um branco. Foi presa. A população preta boicotou os autocarros. Era o início do Movimento dos Direitos Civis.), "Boicote dos autocarros" 1956 de Dan Weiner (1919-1959), Montgomery, Alabama. O Apartheid ("vida separada" ou "segregação racial"), cancro africano que moribundo encontra o seu fim apenas nos finais do séc. XX, às mão de Nelson Mandela e Frederik Willem Klerk em 1990. As greves e as convulsões sociais, mais próprias de regimes injustos e totalitários. Um tríptico intenso de Paulo Nozolino (1955-), lembra-nos o que de pior há nos homens.
.
O Corpo Prolongado: Aquilo que fazemos para corrigirmos as nossas limitações e/ou aperfeiçoar as nossas funções. O Prof. Jorge Calado acrescenta que a inteligência humana é responsável pela estagnação da sua evolução como espécie. A inteligência que, entre todos os animais, só encontramos no homem e vem solucionando as suas necessidades ou incapacidades substituindo-as no imediato por soluções de recurso e artificiais. – Não vemos bem, utilizamos óculos. Não conseguimos voar, construimos aviões. Isto impede que nos cresçam asas. A ciência ao serviço do homem, como na série de Matthew Pillsbury (1973), iluminada só pelos ecrãs dos computadores "Penelope Umbrico, with her Daughters; Monday, February 3, 2003, 7:00-7:30pm". A visualização de DNA num gel utilizando luz fluorescente, CEBIP, Faculdade de Medicina, Lisboa 27 de Junho 2003 num trabalho de Luisa Ferreira (1961-).
"Integrada nas comemorações dos 50 anos da fundação, esta é, como o título indica, uma exposição que celebra a ingenuidade e o engenho, nos múltiplos sentidos que tais palavras foram tendo. Ciência e estética fundem-se, aqui, na obra de grandes nomes da arte fotográfica, como Alfred Stieglitz, Eugene Atget, Edward Weston, Albert Renger - Patzsch, Ansel Adams, Dorothea Lange, Margaret Bourke-White, Bill Brandt, Inge Morath, Bernd e Hilla Becher, Robert Frank ou os portugueses José M. Rodrigues (um inédito cromeleque dos Almendres, visto do alto de uma escada magirus), Luís Pavão (Auto-Europa, 1998), António Júlio Duarte (investigação e trabalho fabril), José Manuel Rodrigues (num salto para as nuvens "Amesterdão", 1984), Paulo Nozolino, (um tríptico que nos recorda os horrores do holocausto), Edgar Martins (incêndios na Beira, Portugal), Carlos Miguel Fernandes (Althing o mais antigo parlamento do mundo), Luísa Ferreira (laboratórios científicos, de um projecto à espera de ser mostrado), um campo de futebol em Alhandra, de Paulo Catrica. E os antigos Paulo Guedes, para mostrar o aqueduto de Lisboa ao lado da muralha da China, e ainda Emílio Biel e os Caminho-de-Ferro do Douro.".
Thingvellir é o berço histórico da nação islandesa. O topónimo significa vale do parlamento, pois foi aqui que a partir de 930 se reunia a assembleia de notáveis da Islândia. O Alþingi ou Althing é o mais antigo parlamento, (o que faz de Althing uma das mais antigas instituições do mundo), a 45 quilômetros da actual capital islandesa, Reiquiavique. Foi só em 1799 que a assembleia se mudou par um local menos turbulento. Vulcanicamente falando. O vale indica a separação de 2 placas tectónicas, América para um lado e Euroásia para o outro. Mesmo durante a união islando-norueguesa, o Althing continuou a acolher sessões. Simbolicamente, foi neste local que em 17 de Junho de 1944 a República da Islândia proclamou a independência e um presidente eleito por um voto popular substituiu o Rei.
"A ilha de Surtsey, com 2,5 km2, situa-se a cerca de 30 quilômetros ao sul da Islândia, e surgiu devido a erupções vulcânicas ocorridas no leito oceânico, elevando-se a uma altura de mais de 170 m sobre o nível do mar, durante o intervalo de tempo decorrido entre 1963 e 1967. No clímax das erupções, chegou a ser expelida uma coluna de vapor d'água e cinzas a uma altura de 6 km, provocando precipitações de detritos ao longo de uma extensa área. Após o seu resfriamento, Surtsey tornou-se um grande laboratório de pesquisas biológicas, pois em muito pouco tempo foi ela extensamente povoada por abundante flora e fauna...Imediatamente após o resfriamento, a partir de 1967, começaram a surgir musgos, liquens, e organismos menores abrigados entre eles, e logo depois, dentro de um período de dez anos, "chuvas" de esporos, sementes, e outras partes de cerca de 40 espécies de plantas vasculares, 158 espécies de insetos, e outros organismos "viáveis", pelo ar e pela superfície do mar.", (Science, 28/11/75, referida na Folha Criacionista nº 11).
Em 1971 Ernst Haas publicou “The Creation”, um trabalho baseado no livro do Géneses, que se revelaria pioneiro na aceitação da fotografia a cores.
Em 1862 Barker tinha apenas 18 anos, não obstante decidiu dedicar-se à fotografia. Mudou-se para Niagara Falls onde abriu um estúdio e loja “Barker's Stereoscopic View Manufactory and Photograph Rooms”, aí vendia vistas e recordações. Tornou-se famoso graças às espectaculares fotografias das cataratas de Niagara, muitas delas resultavam da combinação de vários negativos. No trabalho de George Baker, que está exposto na Fundação Calouste Gulbenkian em “INGnuidades”, Niagara in Summer, from Below, a pedra que se encontra em primeiro plano foi lá posta depois - pela junção de negativos. E muito bem! Pois esteticamente, faz todo o sentido lá estar.
Neste trabalho, que tanto pode ser lido da direita para a esquerda, - como é o caso em culturas como a japonesa ou a árabe, o bloco vai derretendo lentamente sem sair do papel fotográfico que o condiciona. Se ler-mos a fotografia da esquerda para a direita somos surpreendidos pela acutilância de uma enorme faca gelada que, indiferente, nos esventra em público.
.
O grupo de fotografias que mais me impressionou, pela sua raridade mas também pela oportunidade em poder apreciá-lo em conjunto, foi o das albuminas de Robert Howlett (1831-1858), numa delas podemos ver numa pequena carte-de-visite, Isambard Kingdom Brunel o construtor do navio a vapor Great Eastern. - Aliás a única carte-de-visite da exposição. O fotógrafo podia ter feito o retrato do construtor do navio tendo como fundo o próprio navio, exaltando assim a dimensão da obra a par da pequenez do seu criador. Não o fez, foi ainda mais ardiloso, fotografou-o tendo como fundo um pormenor de correntes enormes que levariam a imaginação do observador a supor que estas serviriam a puxar ou deslocar ou prender algo com dimensões ainda mais gigantescas. A desproporção entre a figura humana e os anéis das correntes em fundo é de tal ordem que poderíamos supor tratar-se de uma montagem fotográfica, mas não é o caso. Podemos apreciar nesta imagem um momento único da relação entre o homem e o objecto. Eventualmente, não é de todo ingénua a opção do Prof. Jorge Calado por uma carte-de-visite para nos contar esta história.
JOEL MEYEROWITZ (1938-)
Joel Meyerowitz World Trade Center, torres depois do ataque.
O crime hediondo tocou-nos a todos mas, mais horrivelmente a tragédia abateu-se sobre os nova-iorquinos.
Arrancar das entranhas da vítima o horror da própria tragédia. Procurar ver algum sentido dos actos da demência dos homens entre os “restos” dessa cegueira. A tarefa coube ao fotógrafo nova-iorquino Joel Meyerowitz que nasceu em Big Apple em 1938 e ainda hoje aí vive. Foi o único fotógrafo autorizado a registar “A Cidade Proibida” o recinto sagrado o “Ground Zero”. Nove meses de trabalho, milhares de fotografias doadas ao Museum of the City of New York que o apoiava. Um portfolio no “New Yorker” e um monumental livro “Aftermath” edição Phaidon, dedicado “aos que lá estavam, para todos os que lá não estiveram”.
“No campo lavrado” capta os “ jardineiros” e “ceifeiros” desta seara tétrica, agarrados aos seus ancinhos, fazendo a triagem das pedras e dos ossos. Foram encontrados cerca de 20 000 partes de corpos, mas 1 796 pessoas evaporaram-se sem deixar rasto...” e finalmente e menos de um ano depois “No meio da poeira, junto a uns carris, irrompera um tufo de erva verde. A vida regressara ao jardim da morte.” Assim escreveu o Prof. Jorge Calado na revista Actual do jornal Expresso de 30 de Setembro de 2006. Está de ver, que o Prof. ao dar-nos a oportunidade de podermos contactar com este trabalho de Joel Meyerowitz em “INGenuidades”, presta ao mesmo tempo uma homenagem à memória das vítimas.
EDWARD BURTYNSKY (1955-)
Edward Burtynsky. "Shipbreaking" Chittagong, Bangladesh, 2000
Edward Burtynsky. "Shipbreaking" Chittagong, Bangladesh, 2000
Diz-se, que foi a partir daí que o Bangladesh se tornou no país onde se desmantelam o maior número de barcos de grande tonelagem.
Ficção ou realidade, o certo é que o Bangladesh é um país muito pobre e este trabalho, feito em condições miseráveis para a saúde das populações, é também muito perigoso para o ambiente. Estes transatlânticos além do ferro, comportam materiais altamente tóxicos como seja o asbesto (amianto), as pinturas de ligação e os PCBs.
No Bangladesh e mais concretamente, no seu maior porto o de Chittagong são desmantelados mais de metade dos navios do mundo, 80% do ferro desses barcos são para consumo interno. As fotografias do canadiano Edward Burtynsky são reveladoras desta grande tragédia ambiental e humana.
Edward Burtynsky. "Shipbreaking" Chittagong, Bangladesh, 2000
.
A terra tremeu ao amanhecer do dia 26 de Agosto de 1906. Este tipo de abalos não era desconhecido para os californianos de São Francisco e logo que pararam a população foi tomar o seu banho, tratar da sua higiene pessoal, preparar os pequenos-almoços. Foi então que o pior aconteceu, as condutas de gaz estavam destruídas com roturas e fugas por todo o lado. Deram-se as primeiras explosões, deflagraram incêndios por toda a cidade com uma rapidez imprevisível. Foi terrível mais de 80% da cidade destruída e mais de metade da população sem casa. As autoridades decidiram dinamitar quarteirões inteiros para travar o avanço dos incêndios. As decisões foram tomadas na hora, todas as pessoas tinham de abandonar as suas casas e deixar os seus haveres, tudo era deixado para trás. O fotógrafo Arnold Genthe tinha saído para fotografar a cidade, quando regressou já não tinha casa, tinha sido dinamitada, perdeu-a com tudo o que nela se encontrava. O cenário era apocalíptico como podemos ver nas fotografia de Genthe e nas panorâmicas aéreas de George R. Lawrence.
Primeira capa da "Life" 23 de Novembro de 1936
Margaret Bourke-White fotografou em 1936 a barragem em estilo Déco de Fort Peck, Montana. Essa imagem foi escolhida para a primeira capa da "Life". Para a fotojornalista americana foi o inicio de uma colaboração que durou até à sua morte em 1971.
Margaret ourke-White e a barragem déco de Fort-Peck Montana, 1936
“Fotografia e Engenharia Nuclear” estão bastante representadas em “INGenuidades”. Todo um historial que obriga a termos que passar pela Fundação Calouste Gulbenkian. Aí poderemos ver a primeira fotografia (Nuclear), uma imagem obtida por Raios X à mão da mulher do cientista e Prémio Nobel da Física em 1901, Wilhelm Conrad Rontgen (1845-1923). É interessante pensarmos que até aqui a fotografia era aquilo que víamos. Quanto muito, era também aquilo que poderíamos ver através da ajuda de uma construção óptica: o telescópio ou o microscópio. Mas o Raio X veio trazer-nos algo de completamente novo. A fotografia arrogava-se agora à presunção de ir ainda mais longe. Ela passou a mostrar-nos algo que para o ser humano seria impossível de ser visto a olho nu. Esta fotografia, da mão enluvada da mulher de Wilhelm Rontgen, poderia muito bem ter sido incluída no “Corpo Prolongado”.
Não quero calar uma última história das centenas que ficaram por contar. Numa das vezes que estive na exposição “Ingenuidades” apercebi-me da presença de um “colega de trabalho”. Aproximei-me sem que este desse pela minha presença e escutei-lhe um comentário.
- Gosto de algumas das fotografias, mas também está aqui cada porcaria que não me diz nada!
Estremeci! E denunciei-me.
O Paulo não se ficou.
Fiquei surpreso! Logo esta...Uma albumina do Crystal Palace - Exposição Mundial de Londres em 1851.
À época o recurso à engenharia era muito dispendioso. Depois de se terem recusado uma série de projectos de conceituados engenheiros, os ingleses convidaram um arquitecto paisagista “construtor de estufas” e pediram-lhe que se encarregasse de projectar e construir o pavilhão inglês para a 1.ª Exposição Mundial e que para tal contava apenas com 10 dias. Joseph Paxton (1801-1865), não se intimidou.
O Crystal Palace estrutura em ferro e vidro que se elevava a 33 metros de altura, fazia lembrar uma estufa gigante. Durante os 4 meses da Exposição Mundial de Londres recebeu mais de 6 milhões de visitantes o êxito foi tal que em 1852 o pavilhão pioneiro no conceito de “pré fabricação” foi desmontado e reconstruído em Sydenham no sul de Londres, aí Philip Henry Delamotte acompanhou fotograficamente a sua reconstrução. Apenas estes dois motivos (acompanhamento fotográfico e a própria obra de engenharia), já justificariam a relevância da presença desta fotografia na exposição. Mas quero lembrar aqui os Jardins do Palácio de Cristal no Porto, ainda hoje conhecidos como tal, e que devem o seu nome ao belo edifício em ferro e vidro, que existiu no mesmo local, e que teve como modelo o Crystal Palace de Londres. O Palácio de Cristal do Porto foi inaugurado a 18 de Setembro de 1865 com a primeira Exposição Industrial da Península Ibérica, a Exposição Industrial do Porto. Em 1951 o magnífico edifício foi demolido e no seu lugar foi construído em 1956 um Pavilhão de Desportos, posteriormente Pavilhão Rosa Mota. Mas ainda hoje, toda a gente chama à construção que o substituiu o Palácio de Cristal.
Galeria de Exposições Temporárias Fundação Calouste Gulbenkian
.


















































