sábado, dezembro 15, 2007

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Os “Olhares fotográficos” dos estrangeiros
II - Wolfgang Sievers, Henri Cartier-Bresson e Georges Dussaud

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Quando escrevi o primeiro texto "Os 'Olhares Fotográficos' dos estrangeiros" sobre Portugal e os portugueses comecei-o com Daguerre. Daguerre nunca esteve em Portugal, a intenção era situar os leitores e familiarizá-los com os primeiros processos fotográficos. Os primeiros fotógrafos estrangeiros que nos roubaram a alma, que nos observaram, eram quase todos profissionais, em contraponto com a terminologia à época, existiam poucos amadores. George Eastman (12/07/1854 - 14/03/1932), viria a alterar tudo isto. O jovem bancário difundiu o slogan “ You press the button, we do the rest”. Nós apertávamos o botão e Eastman fazia o resto. O americano nascido em Waterville, New York, não estava a brincar “A Kodak nº1 vendeu 30 000 unidades no primeiro ano de comercialização, e a sua sucessora, a Kodak nº2, já tinha sido comprada, a meio da década de 1890, por mais de 100 000 amadores. A partir dessa altura, a fotografia deixou de ser privilégio de profissionais e aristocratas ociosos, e espalhou-se por uma população ávida de novas imagens.”, in Nafarricos.
Inventor do “filme em rolo” patenteado em 1884 e da câmara fotográfica kodak em 1888. Fundou a Eastman Dry Plate and Film Company (1884), em Rochester, New York, localidade onde viveria até sua morte, a primeira empresa a produzir equipamentos fotográficos padrões em série e também filmes transparentes flexíveis, o primeiro filme em rolo, que deu grande impulso à indústria cinematográfica. Fundou a poderosa indústria Eastman-Kodak Company (1892), que se transformou numa das maiores empresas mundiais de equipamentos e materiais fotográficos. Implantou-se em todo o mundo, a Portugal chega apenas em 1919, de facto em 1919, foi criada a Kodak Portuguesa, Limited.
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George Eastman fotografado por Nadar em Paris 1890


A 1.º Câmara Kodak e o rolo transparente patenteado por George Eastman
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A Kodak número 1, tipo caixote, era portátil, fácil de manejar e custava 25 dólares (quando custava 62 dólares para ser fabricada). Usava um filme de papel sensível com 608 X 7 cms, suficiente para tirar 100 negativos circulares de 3,8 cms. de diâmetro.
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Federick Church, Americano (1864-1925)
Albumina, George Eastman a bordo do S.S. Gallia, Fevereiro 1890
George Eastman House Collection, gift of Margaret Weston

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Fotos circulares. As primeiras câmaras Kodak caracterizavam-se pelo formato de janela redondo
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Após fazer as cem fotografias, quantidade que o filme permitia, o consumidor remetia a máquina para Rochester, onde o filme era retirado, revelado e reposto, num serviço que custava 10 dólares. Tudo por reembolso postal. O lançamento dessa máquina exigia uma divulgação em larga escala e, numa das primeiras campanhas publicitárias da história, foi criado o slogan: "Você aperta o botão e nós fazemos o resto"
A partir do momento em que a Kodak chega a Portugal, ou até devido ao facto de ter finalmente aqui chegado, os concursos de fotografia patrocinados por inúmeras colectividades, as exposições de maior ou menor relevo e os salões de maior e menor importância vão marcar as próximas décadas.
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Fotografia de Christopher Williams, "Kiev 88"
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Terá dito Fernando Pessoa que depois da Kodak a fotografia (acabou), já não serve para nada. Não foi assim, de facto, a Hasselblad que começou com uma parceria com Eastman acabaria por se tornar um aparelho de referência assim como a sua imitação pobre, a Kiev 88. A Rolleiflex haveria de fazer-lhe frente por volta de 1932, como escreve Emília Tavares “O sucesso da Rolleiflex no meio amador foi proporcionado pela simplificação das operações de focagem e captação, aliadas à utilização do primeiro filme em rolo para câmaras reflex no formato 6x6cm.
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O sucesso da máquina foi tal, que a Kodak introduziu em 1932 o filme 620, especialmente destinado a ser utilizado em Rolleiflex. Entre 1929 e 1932 foram vendidas 28 000 máquinas, a um preço que tornava a fotografia num hobbie ainda proibitivo para alguns, mas em Outubro de 1941 publicidade de marca anunciava já a venda de 400 000 aparelhos a nível internacional.”
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A LEICA e as suas lendas, os mitos e as suas histórias.
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A Leica também conquistaria outros fotógrafos. Chegariam outras câmaras fotográficas cada vez mais sofisticadas e cada vez mais ao alcance de todos. Hoje com o digital a fotografia continua. Estaria Pessoa enganado!
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Estes textos, como já devem ter percebido, não pretendem situar os estrangeiros que nos olharam, numa cronologia onde as datas são uma sucessão no tempo, elas são apenas uma referência ao tempo em que estes fotografaram Portugal. O primeiro período estaria entre o advento da fotografia em 1839 e o pós guerra (II grande Guerra Mundial). E, apesar de falar num segundo ciclo, que começaria depois da Segunda Grande Guerra Mundial e que iria até ao fotojornalismo que se seguiu à revolução de Abril de 1974, decidi que o fotografo Cecil Beaton ficaria melhor na transição destes dois períodos.
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Margaret Monck, Man, Quayside with Bird Cages (Portugal) 1930’s.
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Também preferi que Margaret Monck (Margaret St. Clair Sidney, 1911- 1994), aparecesse só no segundo período apesar de ter fotografado Portugal nos anos 30. Inexplicavelmente pouco sabemos da sua passagem por Portugal. Aqui deixamos algumas pistas para investigadores interessados. Margaret St. Clair Sidney era filha de um Vicerei da Índia, Frederick John Napier Thesiger 1.º Visconde de Chelmsford e de Frances Charlotte Guest. Margaret casou em 1934 com John Monck (o conhecido editor John Goldman), filho do Major Charles Sydney Goldman. A sua ascendência e descendência que aqui podem constatar facilitam seguramente esse empreendimento.

O mesmo entendi com Wolfgang Sievers, que abre este segundo período embora tivesse fotografado Portugal pela primeira vez em 1934. Quanto a Georges Dussaud que só começa a fotografar em Portugal a partir de 1975, e ainda hoje fotografa, foi aqui incluído por entender que não se identificaria com os períodos que se seguem: “III - Sebastião Salgado e os Mensageiros da Liberdade” e “IV - Os olhares de Cândida Hoffer, Bert Teunissen e Marta Sicurella”, penso que concordam comigo, ou pelo menos entendem as minhas opções.
Posto este interlúdio... O segundo “olhar fotográfico” dos estrangeiros sobre Portugal só nos chegaria ao aproximarmo-nos dos anos 50 com o final da II Grande Guerra Mundial e com aquilo a que o nosso posicionamento no conflito nos tinha condicionado. Ao depararmo-nos com o olhar dos estrangeiros no Portugal do pós guerra e nos anos 50 e 60, que nos mostram tantas vezes o Portugal profundo, aquele que não queremos ver, ou que vemos de outra forma. Aquilo que para um estrangeiro é tipico ou exótico, quantas vezes não é sinónimo de pobreza e até confirmação da miséria daqueles que aí vivem. Apesar da estratégia portuguesa na II Grande Guerra ter alinhado pela neutralidade, esta balançou para onde sopraram os ventos como acontece frequentemente com as posições menos claras. Dessa neutralidade resultou que o país depois da guerra manteve muitas das características que já se vinham arrastando desde o séc. XIX, no que diz respeito ao seu atraso, na sua agricultura tradicional - magnificamente documentada por Michel Giacometti no documentário “Povo que Canta” realizado por Alfredo Tropa para a Rádio Televisão Portuguesa nos anos 60. Na sua industria, cuja revolução até nós chegará – como quase tudo -, atrasada em relação aos nossos vizinhos europeus. O progresso entrava-nos pela casa a conta gotas, medido pacientemente pelos zelosos da ditadura. Mais confrangedor, era o atraso nos costumes e a mentalidade – quando os judeus em fuga da Alemanha nazi por aqui passaram, as suas roupas, as suas atitudes, os seus comportamentos mais insignificantes, como as mulheres que fumavam olhando o mar na Ericeira, despertaram a curiosidade dos pacóvios. Pena foi, que a maioria aqui só tivesse ficado de passagem e daqui nada quisesse levar, nem trazer. Poucos aqui se fixaram. Compreende-se! O regime, apesar de neutral, tinha algumas semelhanças com aquele de que fugiam.
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Wolfgang Sievers fotografado por: Angela Wylie
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Um destes judeus, em fuga de uma Europa que seria mais tarde praticamente ocupada pelos esbirros de Adolf Hitler, foi Wolfgang Georg Sievers (1913-2007). Esteve em Portugal em 1934/35, percorreu-o de norte a sul e foi a venda dessas fotografias portuguesas através de agências internacionais que financiaram, em parte, a sua viagem definitiva para a Austrália em 1937 (“Um longo adeus. Wolfgang Sievers, decano dos fotógrafos australianos, morre em Melbourne aos 93 anos”. Jorge Calado, Actual / Expresso 18 de Agosto de 2007). Para trás ficava uma Europa cega, surda e muda às atrocidades que se haveriam de tornar consciência do pior que os homens podem ser. O CPF – Centro Português de Fotografia – muito graças à amizade que aproximava o fotógrafo e o Prof. Jorge Calado, adquiriu o seu espólio de fotografia sobre Portugal. Wolfgang foi o único estrangeiro que participou na Exposição de Arte Moderna (1934) na Sociedade Nacional de Belas Artes (onde foi o único fotógrafo presente) diz-nos o Prof. Jorge Calado que termina a sua mais recente exposição “Ingenuidades” na FKG, com um trabalho do fotógrafo australiano, Homens e Mulheres do universo uni-vos, “Mudança de turno na Fábrica Kelly & Lewis Engineering”, Spring Valei Melbourne, 1949. Cortesia: National Gallery of Austrália. Fotografia de Wolfgang Sievers, “o homem com sorte”, como nos contou um dia o Prof. Jorge Calado: “Era eu o homem com sorte. Caramba, convivera com Wolfgang Sievers e éramos amigos.” Escreveu o Prof. na biografia de Sievers (“o homem com sorte”, entre outras coisas por ter escapado milagrosamente aos nazis), um dos textos do livro - catálogo Linha de Vida - A Fotografia de Wolfgang Sievers editado com a retrospectiva no Arquivo Fotográfico da CML em 2000. Jorge Calado, o amigo, despediu-se a 7 de Agosto de 2007, quando Wolfgang mais uma vez resolveu partir. Sabemos lá para onde! Desta vez para sempre. “Um longo adeus”, na revista Actual do Expresso de 18 de Agosto de 2007.
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WOLFGANG SIEVERS
Capa do catálogo da exposição "Linha de Vida" com fotografias de Wolfgang Sievers e algumas fotografias que Wolfgang fez em Portugal quando aqui esteve nos anos de 1934/35. Évora, Alcobaça, Lisboa, Algarve, Nazaré...

O atraso nos costumes e nas mentalidades em Portugal foi, também, registada por outros que nos visitaram. Emília Tavares, conservadora para a área da fotografia e vídeo no Museu do Chiado - Museu Nacional de Arte Contemporânea em Lisboa, escreve no seu trabalho “A fotografia ideológica de João Martins (1898-1972)”, Mimesis 2002: “O fenómeno dos salões de fotografia está intimamente associado ao advento do amadorismo fotográfico, à banalização da fotografia, à sua acessibilidade e mediatização como objecto de culto social e familiar. A um inicial associativismo de elite, sucedeu no século XX outra concepção deste tipo de agrupamento, então designados de foto-clubes, numa esfera de agremiação por identidade com determinado processo ou técnica fotográfica, ou ainda através de espaços lúdicos de cariz pós-laboral, como os grupos desportivos e culturais de grupos profissionais determinados.” Apesar disso, os salões de fotografia que então se multiplicaram trouxeram outros olhares, neles participavam grande número de estrangeiros, alguns (não muitos), deslocavam-se propositadamente a esses eventos traziam o seu próprio olhar e levavam-no no regresso, na bagagem, para terras distantes. Na verdade esse olhar não era muito diferente do nosso, também ele se limitava ao litoral, às ilhas, ao característico nos pescadores e nas gentes do campo, aos saloios, às planícies alentejanas, ao atraso, à pobreza, às crianças descalças, às feiras, romarias e procissões.
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Um desses salonistas estrangeiros foi Jean Dieuzaide (1921-2003), assinava Yan quando concorria aos Salões da Companhia Nacional de Navegação e aos Salões de Arte Fotográfica do Grupo Desportivo da CUF. Foi colaborador do Secretariado Nacional de Informação. Ruben de Carvalho escreveu: “Em 1953, a editora francesa Arthaud enviava pela primeira vez a Portugal um fotógrafo que, então com 30 anos, conquistara já uma sólida reputação no seu país: Jean Dieuzaide. As visitas repetiram-se nos anos seguintes (1954 e 1956), tendo como objectivo a publicação do livro “Le Portugal”, saído em 1956 com um texto de Yves Bottineau. Entretanto, Dieuzaide conquistara o mais importante prémio de fotografia francês, o Prix Nièpce, em 1955 com as suas imagens feitas em Portugal. O trabalho de Dieuzaide seria ainda parcialmente utilizado em nova publicação, “Voyages en Ibérie”, surgido em 1983 nas edições Contrejour, mas seria necessário aguardar por 1987 para que a cidade de Toulouse (onde Dieuzaide fundou em 1975 a Galeria Municipal do Castelo de Água) organizasse uma exposição integral dos trabalhos, acompanhado da edição do livro Portugal 1950, com um texto de Eduardo Lourenço.
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Homem de esquerda, esteticamente ligado às correntes neo-realistas do cinema e da fotografia, Dieuzaide apaixonou-se literalmente por Portugal e particularmente pelo seu povo. Um povo pescador e rural que a sua objectiva fixou, como bem salienta Eduardo Lourenço, na simultaneidade da dureza da sua vida de trabalho e da dignidade do seu porte, num conjunto de imagens que directamente recordam o desenho e a pintura de Rogério Ribeiro, Dourado, Pomar, Pavia que na mesma época traziam os trabalhadores do Alentejo e do Ribatejo à protagonização das suas obras. Se constituem uma denúncia da pobreza desse povo trabalhador no Portugal sombrio dos anos 50, as fotos de Dieuzaide reflectem contudo a consciência que se postava detrás da máquina sobre o papel do povo, a sua capacidade de resistência e a inevitabilidade da sua acção transformadora. Daí a impressionante modernidade destas imagens, a sensação de confiança e determinação que transmitem.” In “Crónica da Idade Mídia - Há meio Século” Avante n.º 1376 – 13 de Abril 2000.

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JEAN DIEUZAIDE

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A menina do coelho. Nazaré, Portugal, 1954; O domingo do pescador, Camara de Lobos, Madeira, 1956; Repasto no São João, Braga Portugal 1954; são algumas das muitas fotografias que Yan ou Jean Dieuzaide fez no Portugal dos anos 50 do século XX. E nós agradecemos.
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Quando esteve em Lisboa Henri Cartier-Bresson (1908-2004), subiu ao Castelo de São Jorge para espreitar a cidade. Não terá visto mais que qualquer um de nós, não terá tido o seu “instante decisivo”, os deuses não estavam com ele nesse momento, ter-se-ão reencontrado no mesmo dia nos Jerónimos durante uma confissão – mas, ficou-nos um sabor a pouco. Inge Morath (1923-2002), foi assistente de Henri Cartier-Bresson nos anos de 1953-54 (eventualmente acompanhou-o na sua vinda a Portugal em 1954). Morath começou a fotografar em 1951, entrou na Magnum em 1953 como membro associado e tornou-se membro de pleno direito em 1955. Esteve em Portugal em 1956, foi quando fotografou alfama e, é dessa data a fotografia de Lisboa do Cais das Colunas escolhida para ilustrar o livro “Magum, Magnum”, comemorativo dos 60 anos da Magnum, editado em 2007.
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Em 1960 conhece o escritor e dramaturgo Arthur Miller (1915-2005), do qual vem a tornar-se a terceira mulher e de quem terá 2 filhos Rebeca e David. Anos mais tarde Henri Cartier–Bresson regressa a Portugal, questionado por um jornalista sobre as imagens que tinha feito quando aqui esteve nos anos 50, o grande da fotografia europeia não trazia lembranças, não tinha memórias, vá lá saber-se porquê! Definitivamente, o caçador de “instantes”, aqui, não foi feliz.
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Cartier-Bresson veio espreitar-nos, não terá visto mais que qualquer um de nós. Castelo de S. Jorge, Lisboa 1954
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"Confissão" Jerónimos, Lisboa 1954 Cartier-Bresson 1954
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O fotógrafo francês Eduard Boubat tinha 33 anos quando visitou Portugal pela primeira vez. Enquanto Sophie, sua mulher, descansava no quarto de um Hotel na Nazaré, Boubat foi passear até à praia. Foi com a sua velha Leica que tirou a sua primeira fotografia no nosso país. Boubat costumava referir-se à “atmosfera” ele dizia que a fotografia não é apenas visual, ela é também narrativa e lírica. - Nem mais... Como ele próprio escreveu “Tinha chegado havia apenas meia hora e aquele homem estava ali, com a sua criança, como se estivesse à minha espera” A imagem iria aparecer na capa do seu primeiro livro, publicado no Japão e intitulado Ode Marítima, numa referência a Fernando Pessoa. In As Imagens e Nós.
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1.ª Fotografia de Edouard Boubat em Portugal, Nazaré 1956
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Édouard Boubat (1923- 1999), esteve em Portugal em 1956 e regressou nos anos de 1957, 1958, 1965, 1973 e 1980. - Deve ter gostado!
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Fotografia de Edouard Boubat, Nazaré 1956
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Nos anos 50 também por aqui passou a realizadora e fotógrafa francesa Agnès Varda (1928-), que fotografa a mulher portuguesa e um cheirinho dos sabonetes Lux das vedetas de Hollywood. É dela a mulher que passa apressada roçando a parede com o cartaz da Lux que exibe o sorriso e os olhos rasgados de Sophia Loren. “A cineasta passou pela Póvoa de Varzim nos anos cinquenta e deparou-se com uma festa popular. Pediu à senhora da foto que fosse com ela para uma rua deserta com claridade para aí compor este belo retrato. Cinquenta anos depois escrevi um artigo num jornal com o postal "Sophia Loren em Portugal" e eis que alguém me dá a conhecer a poveira que ilustra tão bela imagem” chama-se Maria do Alívio, senhora que lavava roupa para fora. "Sophia Loren em Portugal”, 1953, comentários no Blog a (In)visibilidade das coisas. Não resisto a mostrar aqui um pequeno excerto de um texto de Agnès Varda, os filmes e as fotografias, “Daguerrencontro, Outubro 1992″, Cinemateca Portuguesa, Junho 1993.
“Para voltarmos à fotografia e chegarmos a Portugal, a fotografia “Sofia Loren em Portugal” foi feita na altura de uma reportagem (…) Pensando nessa reportagem a primeira coisa de que me lembro são as escritas nos passeios em frente à loja de chá- chat quer dizer em português chá, não é? Para mim, que gosto muito de gatos, os gatos estavam nos passeios e fartei-me de os fotografar. Fotografei também muitas mulheres que levavam coisas sobre a cabeça, pão ou bebés. Estive numas aldeias muito bonitas, Nazaré, na costa, e na região de Évora. Atravessei planaltos que parecem a lua. Em Estremoz havia um homem que fazia estatuetas e trabalhava nas finanças, ia receber os impostos de bicicleta e voltava para casa para fazer pequenas esculturas com um canivete. Fiz muitas fotografias sobre a arte popular, mas gostei sobretudo do trabalho desse homem… Luciano Martins de Oliveira, chamava-se.”
Postado no blog De-ci De-lá em 23 de Agosrto de 2006.
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Maria do Alívio fotografada por Agnès Varda, Povoa do Varzim 1953
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Continuando nos anos 50, neste vai e vem impossivel de evitar, tantos são os fotógrafos que nos visitaram, Bert Hardy (1913-1995), o inglês que entre 1941 e 1957 que trabalhou para a revista Picture Post . Esteve em Portugal, mais exactamente nos anos de 1951 e 1955, entre os pescadores da Nazaré e as ceifeiras do Alentejo. George Pickow (?), fotógrafo casado com a lenda da musica popular americana Jean Ritchie, "Sings Blue Diamond Mines ", um pouco de musica nunca fez mal a ninguém... Regressemos à fotografia! George Pickow esteve em Portugal nos anos 50 também ele, fotografou as gentes e os costumes portugueses, pode ver aqui alguns trabalhos que George Pickow fez quando esteve entre nós.
Finalmente, Reg Birkett (?), todos fotografaram costumes portugueses e estiveram também na Nazaré, assim como todos têm trabalhos sobre Portugal no Huston Archiv e podem ser vistados na Viewimages.
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George Pickow, "Beach Nets", 1950, Nazaré. Hulton Archive
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Bert Hardy, "Portuguese Fisherman", 1952, Nazaré. Hulton Archive
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Reg Birkett, "Fishermen Siesta", 1958 -Nazaré Getty/images
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François Le Diascorn (1947-), gosta de fotografar: animais mágicos, monstros marinhos, Budas e Cristos, anjos e demónios, monges e pastores, cidades e países como: Paris, Veneza, Índia, Egipto, Grécia e também Portugal.
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FRANÇOIS LE DIASCORN

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Em Portugal esteve em 1978, debaixo de sobreiros e azinheiras alentejanas; em 1980 em procissões e romarias; voltou ao nosso país em 1992. Não sei quantas vezes regressou, quantas imagens levou consigo cada vez que cá esteve. O fotógrafo francês merece ser referenciado até porque, o seu trabalho se identifica com o de outros fotógrafos referidos neste período.
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Lamentações das três Marias, Évora, Portugal 1980. Fotografia François Le Diascorn / Phatos
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A suiça Sabine Weiss (1924-), esteve em Portugal nos anos de 1954 e 1956, esteve em Fátima onde provavelmente terá fotografado “Missa”, 1954. Esta fotografia pode também ter sido tirada em qualquer igreja de Portugal. Sabine Weiss nasceu na Suiça em 1924. Quando de uma viagem a Itália conhece Hugh Weiss, um pintor americano, com quem vem a casar em 1950. A fotógrafa escreveu: “Eu gosto muito deste diálogo constante entre mim, o meu aparelho e o meu sujeito, isto é o que me diferencia de alguns fotógrafos que não procuram este dialogo e que preferem distanciar-se do seu sujeito.”.

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Sabine Weiss, Interior de igreja em Portugal, 1954
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Quem também esteve em Fátima foi George Krause. De facto o americano nascido em Filadélfia nos EUA em 1937, esteve em Portugal quando tinha 27 anos. Foi quando fez as fotografias de Fátima, tinham passado já 43 anos desde as aparições e o local onde construíram o Santuário tornara-se de culto. Foi nesse ano, a 21 de Novembro que ao encerrar a 3ª sessão do Concilio Ecuménico do Vaticano II, o Papa Paulo VI anuncia diante dos 2.500 padres conciliares, a concessão da Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima. George Krause voltaria a Portugal, pelo menos em 1970 data de um outro trabalho do fotógrafo americano. “Rebanho”, 1970.
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Fátima Portugal, 1964 Fotografia d George Krause
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Rebanho, 197o Portugal. Fotografia de George Krause
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Quando da exposição “Dedans Dehors”, inaugurada a 17 de Maio de 2005 em Paris no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, comissariada por Jorge Calado, o Prof. escreveu sobre Thurston Hopkins (1913-),o seguinte: “Mas todos compreenderão que eu feche este breve preâmbulo com uma homenagem a Thurston Hopkins, que há mais de 50 anos se apaixonou por Portugal e pela voz de Amália. Foi, para mim, um privilégio retomar o contacto e verificar que o nonagenário Thurston, cineasta, escritor, designer gráfico, pintor, biógrafo, ilustrador, glória do fotojornalismo britânico, continua activo, generoso e optimista. Corre que a fotografia prolonga e melhora a vida, e eu acredito.”. Nem mais...
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Os fotógrafos ingleses Grace e Thurston Hopkins
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A 6 de Dezembro de 2007 num leilão organizado pela P4 Photography, estiveram à venda duas fotografias de Thurston Hopkins, respectivamente: uma vista de Coimbra em 1950 e uma outra de Amália Rodrigues na Feira Popular, foram adquiridas cada uma por 820€, preço de martelo. Isto mostra o valor dos trabalhos do fotógrafo inglês no mercado português.

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Amália, Lisboa, 1950. Thurston Hopkins (col. Culturgest/CGD, Lisboa)
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Wolf Suschitzky (1912-?), fotógrafo e cineasta nasceu em Viena e foi para Inglaterra em 1934-35, tendo-se naturalizado inglês em 1947. Fotografava sempre que viajava e construiu um grande arquivo de imagens documentais. Esteve na Madeira em 1950, onde fez algumas fotografias.
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Wolf Suschitzky (1912-)
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Entre 1954 e 1956 Bill Perlmutter (1932-), foi fotógrafo do Signal Corps US Army West Germany e viajou por toda a Europa para fotografar diversos temas militares. Voltou mais tarde ao Continente Europeu e esteve em Portugal, pela primeira vez, no Inverno de 1958, tinha então 26 anos.
A maqueta do livro «Retratos dos Portugueses» foi adquirida à alguns anos pelo Centro Português de Fotografia - CPF. Bill Perlmutter cruzar-se-ia novamente com os portugueses em 1970 em (Portrait of the Portuguese, Modernage Gallery New York), e mais tarde em 1998 em “À Prova de Água”, grande exposição organizada pelo Prof. Jorge Calado (Waterproof at Expo '98, Centro Cultural de Belém Lisboa, Portugal). A exposição “Heróis do Mar” onde o fotógrafo norte-americano foi de novo lembrado assim como o seu percurso pelo litoral português, entre Lisboa e a Nazaré em 1958, foi cedida pelo Centro Português de Fotografia para ser vista nas comemorações dos 70 anos do Museu Marítimo de Ílhavo. Passados todos estes anos, as fotografias de Bill Perlmutter (entretanto editadas em livro, em 2002), foram novamente mostradas em ‘Heróis do Mar’, exposição que tem percorrido o país de então para cá.

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Praia da Nazaré, 1958. Bill Perlmutter
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Sobre este trabalho o fotógrafo diz: “As pessoas fascinavam-me; os rostos morenos e marcados pelo tempo pareciam estar em completa sintonia com o mar bravo à sua volta. As roupas pareciam fora do tempo, na moda em qualquer século menos no século XX. Aqui o relógio parou, ou pelo menos passou a andar mais devagar, porque estes pescadores corajosos pareciam mais próximos do seu passado fenício do que do presente. Os rostos enrugados, profundamente sulcados, espelhavam uma vida de luta e determinação contra um mar exigente. As mulheres também reflectiam uma imagem de orgulhoso estoicismo, modelado por uma vida de muito trabalho e sacrifício (...) Também me impressionavam as infindáveis paisagens de céu, mar e areia. Nuvens escuras carregadas de presságios, limitadas pela espuma do mar, criavam perfeitas molduras a esta gente do mar. As elegantes proas pontiagudas dos barcos de pesca e as filas de cestos entrançados a secar ao sol, acrescentavam outros elementos a estes ambientes extraordinários. Fiz milhares de fotografias em várias paragens do mundo desde essa primeira visita a Portugal, mas nunca o resultado me satisfez tanto. Ao olhar para estas imagens, 40 anos mais tarde, consigo recordar com espantosa clareza, as circunstâncias e as emoções ligadas a cada cena. É com enorme satisfação que vejo estas fotografias novamente ressuscitadas em “Heróis do Mar” para poderem ser apreciadas por uma nova geração de observadores.", in "O Ilhavense" e no blog da APPH - Associação Portuguesa de Photographi@.
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Outros norte americanos por aqui passaram. O filho de Edward Weston (1886-1958) referência da straight photography nos Estados Unidos, esteve no nosso país pelo menos em 1960 e 1971 datas a que correspondem duas das fotografias que Brett Weston (1911-1993), fez em Portugal, designadamente: “Convent”, 1960 e “Crakced Paint” em 1971. Brett Weston começou a fotografar com 14 anos. Trabalhou no atelier do pai em Glendale até 1927. São conhecidos os retratos que fez de Einstein em 1930.

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Fotografia de Brett Weston "Convento", 1960



Fotografia Brett Weston "Crakced Paint", 1971

Outro americano que nos visitou foi a fotógrafa Esther Bubley (1921-1998). Esteve em Portugal em 1965, gostou dos vendedores de castanhas, das varinas e dos empedrados da calçada portuguesa. A força das suas imagens, desde quando trabalhava para Roy Stryker (Farm Security Administration), como técnica na câmara escura e durante toda a sua vida, nunca deixou de nos surpreender. Contudo, a sensibilidade da fotógrafa americana não encontrou entre nós especial fortuna.

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.Varina, Lisboa Portugal 1965. Fotografia de Esther Bubley
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Empedrado da calçada portuguesa. Lisboa 1965. Foto Esther Bubley
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Alma Lavenson (1897-1989), nasceu em San Francisco, filha de um empresário/comerciante bem sucedido. Após o devastador terramoto, e incêndio que se lhe seguiu, de 1906, a família vai viver para a Baía de Oakland. Em Dezembro de 1927 uma fotografia sua fez a capa da Photo-Era Magazine e em 1941 recebe um prémio pela fotografia “San Ildefonso Indians” que é uma das fotografias mais conhecidas da fotógrafa americana. Em 1962 esteve em Portugal continental e na Madeira. A sua fotografia “Spiral I, Tomar, Portugal” fez parte da exposição Photography in the Fine Arts IV organizada em 1963 no Metropolitan Museum, Nova Iorque, que a adquiriu. Alma Lavenson, formou-se em psicologia em 1919 e durante a sua vida foi muito mais que uma fotógrafa. “Para mim”, disse ela, em 1978, “fotografia era apenas uma pequena parte da minha vida”. Alma Lavenson morreu em 1989. (Patrícia Gleason Fuller, texto de Alma Lavenson (exposição catálogo), Riverside, CA: Museu da Fotografia Califórnia, c. 1979.) e (Biografia de Alma Lavenson “Portugal 1890-1990” Catálogo Europália 1991).

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Spiral, Tomar, Portugal, 1962 de Alma Lavenson
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Quem também esteve em Portugal, na Nazaré, foi Stanley Kubrick (1928-1999), o americano que adaptou para o cinema “Lolita” (1962), clássico da literatura escrita por Vladimir Nabokov à volta da relação entre um homem de meia-idade e uma adolescente; "2001: Uma Odisséia no Espaço" (1968), - quem da nossa geração terá passado ao lado; " Laranja Mecânica" (1971) de Anthony Burgess, focado na violência humana e, principalmente, na da juventude; "O iluminado" (1980) (The Shining), adaptação da obra de Stephen King. A história de uma família que passa uma temporada num hotel nas montanhas. - Arrepiante...

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Alguns anos antes Kubrick, o fotógrafo, tinha estado em Portugal, mais exactamente em Maio de 1948 como podemos comprovar no livro de Rainer Crone: “Stanley Kubrick, Drama and Shadow: Photographs 1945-1950” da Phaidon. E aqui vou ter que recordar o que rescreveu o Prof. Jorge Calado “Que viu ele? Judeu solitário, oriundo de uma família de imigrantes austríacos, Kubrick viu inevitavelmente o Portugal estrangeiro – o das viúvas da Nazaré e da roda viva dos moinhos de vento. (...) as mulheres a olharem o mar sem retorno, mas também soube encará-las de frente para começar a desfiar o seu fado de tragédia grega.”. O Prof. escreve ainda “Alguns, em Portugal, chamam a isto fotografia turística e fogem dela como o diabo da cruz. (...) Nazaré foi a nossa Coney Island, a Trafalgar Square de todas as demonstrações. E que seria da fotografia americana sem a primeira ou da inglesa sem a segunda.”, Expresso, 20 de Janeiro de 2006. Prof. Jorge Calado, “Cinema e fotografia. O fotojornalismo Stanley Kubrick e a sua passagem por Portugal”.

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Auto-retrato, "Stan Kubrick"–style, 1950. All photographs by Stanley Kubrick. From the Look Magazine Photograph Collection/The Library of Congress.

Outros americanos fotografaram Portugal Peter Fink (1907-1984), que esteve connosco diversas vezes nos anos 50 e 60, e também fotografou as famílias que no cais esperavam o regresso dos soldados portugueses da guerra colonial em Angola.

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Peter Fink. Portugal ca. 1955 Col. CPF/MC

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Leon Levinstein (1913-1988), filho de emigrantes judeus russos passou por Portugal quando de uma viagem pela Europa nos anos 60.


.Leo Levinstein. Mulheres da Nazaré, Portugal 1960 Col. CPF/MC
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Ray K.. Metzker (1931-), este professor de fotografia e fotógrafo viajou pela Europa em 1960-61, fez algumas fotografias de Portugal em 1960.
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Ray K..Metzker Portugal 1960 Col. CPF/MC


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Louis Stettner (1922-), visitou Portugal em 1958-59. Foi nessa altura que o fotógrafo e escritor esteve, - adivinhem onde? Na Nazaré, pois claro.
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Fotografia Louis Stettner. Nazaré Portugal 1958 Col. CPF/MC
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Nos anos sessenta, mais exactamente em 1963, esteve em Portugal, no âmbito de uma série anual de foto-reportagens para a revista norte-americana “Look”, Irving Penn (1917-), e foi nessa ocasião que fotografou Amália Rodrigues e também fotografou alguns ciganos que acabaram publicados no Século Ilustrado.

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"Young New Yorkers on the Brooklin waterfront on 9/11", Thomas Hoepker



Thomas Hoepker (1936-), no dia 11 de Setembro de 2001 ficou preso no trânsito e só pôde fotografar o horror a partir de Manhattan Bridge. Foi quando fotografou cinco nova iorquinos que conversavam perante a tragédia, “Young New Yorkers on the Brookliyn waterfront on 9/11”. A fotografia, que o autor só permitiu ser publicada 4 anos depois dos acontecimentos daquele dia fatídico, torna-se polémica.
Em 1964 Hoepker estava a fotografar em Trás-os-Montes a boda de um casamento; fotografou também um jovem da Mocidade Portuguesa, fazendo a saudação fascista; as mulheres vestidas de negro; o homem que faz pose para o fotógrafo de rua segurando um guarda-chuva e os rapazes (um de bicicleta e outro montado num burro), que debaixo de chuva miudinha, sorriem para o fotógrafo, riem de quê? Interpretações...
Não sei se o fotógrafo voltou mais tarde a Portugal, no entanto, a sua passagem por aqui, deixou rasto.

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Thomas Hoepker em Trás-os-Montes

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Neal Slavin

Britons. Channel Swimmers Association. Neal Slavin
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Neal Slavin (1941-) em 1968 recebe uma bolsa de Fullbright que lhe permite viajar para Portugal. Ao mesmo tempo que no âmbito dessa bolsa faz fotografia arqueológica, Slavin fotografa Portugal e os portugueses. Expôs no Museu de Arte Antiga em Lisboa em 1968 e no Museu Machado de Castro em Coimbra no ano de 1970. Os trabalhos de 1968, foram mostrados numa exposição em Nova Iorque, Underground Gallery, e no primeiro livro, "Portugal", editado pela Lustrum Press em NY 1971. Em 1987 expôs em Conimbriga, “Conimbriga, Ruínas de Conimbriga”. Os seus primeiros trabalhos sobre Portugal foram expostos e editados pela Ether no Fotoporto em 1990.

Neal Slavin (1941-)
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Fotografias de Neal Slavin. Portugal, 1968. Lisboa, Fátima, Nazaré, etç. Fotografias reproduzidas no Catálogo "Portugal 1890-1990" da auturia de Jorge Calado e António Sena no âmbito da Europalia 1991 e também do livro "1839-1989 Um Ano Depois/ One Year Later" 1990, cuja selecção de fotografias e Edição de catálogo da colecção da SEC foi da responsabilidade do Prof. Jorge Calado.
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Portugal foi visitado, pelo menos, por uma centena de fotógrafos estrangeiros, suspeito que terão sido muito mais de uma centena. Podemos constatar isso mesmo se espreitarmos alguns arquivos internacionais de fotografia, alguns bancos de imagem ou arquivos privados de instituições comerciais e industriais que funcionavam em Portugal. Por exemplo os arquivos da companhia de electricidade ou os arquivos das companhias de telecomunicações. Os arquivos das empresas de transportes ferroviários e da construção das linhas de caminhos-de-ferro. Mas também companhias de exploração de minas, frequentemente estas explorações eram entregues a empresas estrangeiras que contratavam fotógrafos estrangeiros para fazerem o levantamento patrimonial das mesmas. Haviam também as agências de imagens, hoje arquivos ou bancos de imagens. Se numa visita a Paris passarem uma tarde nos arquivos Roger-Viollet, ficaram surpreendidos com centenas de imagens de Portugal que se encontram nesses arquivos. A 13 de Outubro de 1889, Henri Roger fotografava a família durante um almoço, fazia a sua primeira fotografia e dava início a uma das mais prestigiadas agências fotográficas do mundo a Roger-Viollet.

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O holandês Christoffel Johannes Scherer, melhor ainda, Kees Scherer (1920-1993), foi um dos fundadores da World Press Photo. Esteve em Portugal em 1967 e fotografou-o de norte a sul. O Vintage Photo Gallery Pim Westerweel possui 54 fotografias que Scherer fez do nosso país.



Kees Scherer

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KEES SCHERER
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Fotografias de Kess Scherer. © Pim Westerweel
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A Lisboa cidade triste e alegre de Sid Kerner (1920-), foi quando o americano decidiu nela passar férias no Verão de 1967. Como com Vítor Palla e Costa Martins dez anos antes em 1958, também foram as pessoas que lhe prenderam o olhar de estrangeiro, “crianças e velhos, vendedores, pedintes, gente da rua.”, mas também os detalhes arquitectónicos, montras e mercados. Algumas das fotografias que fez quando por aqui passou foram expostas na Hudson Park Branch Library em 1971. Em 1995 foi homenageado com uma exposição no Arquivo Fotográfico da Câmara Municipal de Lisboa. Toda a exposição foi oferecida ao Arquivo de Lisboa. Sid Kerner terá, eventualmente, feito mais imagens da cidade que o viu regressar convidado para este evento. Não sabemos! Sid Kerner escreveu, no catálogo da exposição de 1995 “Lisbon Pictures, 1967”, que acreditava que a fotografia deve reflectir os tempos em que vivemos, e documentar não só o que nos perturba, mas também o que nos encoraja na nossa sociedade.

Sid Kerner (1920-)


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Herbert George Ponting (1870-1935), fotógrafo filho mais velho de Francisco Ponting, um banqueiro norte americano. Casou-se com Mary Biddle Elliott em 1895. Dificuldades financeiras obrigaram a família a regressar a Inglaterra em 1898. Depois de um breve período em Londres, voltaram para a Califórnia. Ponting abriu um estúdio de fotografia em 1900. No mesmo ano ganhou um concurso organizado pela Bausch e Lomb. Creio tratar-se Bausch & Lomb, a primeira empresa óptica norte americana, fundada em 1850 por dois amigos, J.J. Bausch e H. Lomb. Em 1853, quando John Jacob Bausch, um imigrante alemão, abriu uma pequena óptica em Rochester, Nova York, necessitou de mais dinheiro para manter o crescimento do negócio e pediu emprestados 60 dólares ao seu amigo Henry Lomb, a quem prometeu tornar sócio se o negócio desse certo, e como deu. Em 1920, a Força Aérea dos Estados Unidos fez uma encomenda: - Produzir uma protecção ocular para os seus pilotos de caça, que enfrentavam sérios problemas de visibilidade. Depois de dez anos de pesquisa, apresentaram óculos com lentes verdes, que reflectiam os raios solares. Somente em 1936 a novidade foi baptizada de Ray-Ban e começou a ser vendida ao grande público. Não resisti a contar a história. Ponting também fez fotografia de vistas estereoscópicas para diversas empresas. Entre 1900 e 1910 viajou pelo mundo, Japão, Coreia, Manchúria, China, Índia, Suíça, França, Espanha, Rússia, França, Birmânia e Portugal. Durante estes anos, ele se tornou amigo de um outro fotógrafo, E. O. Hoppé.

Emil Otto Hoppé (1878-1972), também esteve em Portugal, assim como anos mais tarde e também na Madeira o fotógrafo Coburn.

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O fotógrafo Alvin Langdon Coburn, nasceu nos EUA, em 1882. Com oito anos recebe dos seus tios a primeira câmara fotográfica e é o fotógrafo F. Holland Day que o convence a dedicar-se à fotografia. Acaba por abrir um estúdio em Nova Iorque. Em 1904, Coburn realiza um conjunto de retratos dos principais artistas e autores literários britânicos para o Metropolitan Magazine projecto que vai consagrá-lo como um dos grandes retratistas da época. Anos mais tarde, em 1917, realiza uma sucessão de imagens fotográficas com um espelho com efeitos caleidoscópicos à frente das lentes, repartindo assim o objecto fotografado num conjunto de planos não representacionais. Nasciam assim as primeiras fotografias puramente abstractas - "vortografias" -, como o próprio Coburn lhes chamaria. Por volta de 1930 oferece grande parte da sua colecção de fotografias ao Royal Photographic Society e destruiu 15.000 negativos em vidro. Em 1950 volta a fotografar, faz 300 fotografias numa visita à lha da Madeira, em Portugal.
Morreu aos 84 anos no País de Gales em 1966 e deixou tudo à George Eastman House, em Rochester. Alvin Langdon Coburn, in Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2007. [Consult. 2007-11-23].
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Continuando ao largo de Portugal agora em pleno Oceano Atlântico, no arquipélago dos Açores que foi visitado por Hans Hass (1919), "A Vida Nasceu no Mar" muito interessante, pois relata mergulhos em partes díspares do globo como nas Capelas - S.Miguel Açores, nos anos 50 e 60, onde mergulha junto a um cachalote moribundo (diga-se arpoado). Cientista do mar, pioneiro da caça submarina e do mergulho com escafandro, o alemão Hans Hass e a sua mulher Lotte Hass foram, junto com Jacques Cousteau, os percursores das imagens submarinas e dos relatos voltados para o grande público.

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O Dr. Hass, como era mais conhecido, conta em seus livros as aventuras de mergulhar entre corais, tubarões e belos organismos marinhos, nos mais diversos mares do mundo. A série de livros que escreveu mostrando como era a vida submarina, ilustrada com várias fotos a preto e branco, fizeram grande sucesso na mesma época que Cousteau também explorava o assunto, assim, os relatos de Hans Hass são pródigos na descrição, uma vez que ele não possuía a estrutura que Cousteau tinha a seu dispor, nem as imagens em movimento que fizeram o sucesso de Cousteau.
O livro "O Demonio do Mar Vermelho" é muito interessante para os mergulhadores de naufrágio, por causa do relato sobre os naufrágios ocorridos na Segunda Guerra e que apresentavam então pouca vida marinha em relação a naufrágios mais antigos.
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Bernard Wolf é um fotógrafo freelancer. Em 1970 fotografou a caça à baleia e ao cachalote no atlântico ao largo do Arquipélago dos Açores. Deste trabalho editou um livro em 1972 “Daniel and the Whale Hunters; the Adventures of a Portuguese Boy in a Whaling Town in the Azores”. New York: Random House. Seria mais tarde reeditado em português Bernard Wolf [2002] , Daniel e os “caçadores” de baleias , Lajes do Pico , Câmara Municipal das Lajes do Pico.
Fotografou as festas do Espírito Santo, na Ribeira de Maio. Trabalhou a cores e fotografou o Algarve, Lisboa e os Açores para a Secretaria Nacional do Turismo e para empresas como a TAP, transportadora aérea portuguesa. Nos anos oitenta voltou a fotografar Portugal.

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Fotografias de Bernard Wolf

Fotografias de Bernard Wolf . Festas do Espírito Santo na Ribeira Brava, Açores 1970.
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Fotografias de Bernard Wolf


Fotografias de Bernard Wolf Lisboa, Algarve e Açores.
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Como já foi dito, nos anos 40/50 estiveram em Portugal: os franceses, Henri Cartier-Bresson, Inge Morath, Édouard Boubat, Agnès Varda, Jean Dieuzaide e a suiça Sabine Weiss; de Inglaterra, Thurston Hopkins, Wolf Suschitzky e Bert Hardy; da Holanda, Kees Scherer; da América, Stanley Kubrick, Leon Levinstein e Louis Stettner. Nos anos 60 visitam-nos outros americanos Ray K.. Metzker, Irving Penn, Brett Weston, Esther Bubley, Alma Lavenson, George Krause, Bill Perlmutter, Neal Slavin, etc. Bernard Wolf nos anos setenta fotografou as Festas do Espirito Santo na Ribeira Brava nos Açores. Quem também nos fotografou - a trabalhar, foi Alan Villiers, um notável marinheiro e fotógrafo, com enorme entusiasmo pela vida no mar. Os seus trabalhos evocam a história marítima do início do século XX. Villiers nasceu em Melbourne, na Austrália, em 1903. Filho do poeta e dirigente sindical Leon Joseph Villiers.

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Em 1952 publicou o livro "The Quest of the Schooner Argus", sobre a pesca da frota portuguesa do bacalhau nos Bancos da Terra Nova, especialmente a bordo do lugre Argus. Este livro foi inicialmente publicado em português pela Livraria Clássica Editora com o título "A Campanha do Argus: Uma viagem aos Bancos da Terra Nova e à Groenlândia". Em 2005 a Editora Cavalo de Pau e o Museu Marítimo de Ílhavo reeditaram o livro com o título "A Campanha do Argus - Uma Viagem na Pesca do Bacalhau" [Veja a capa]. Sobre o mesmo tema Villiers escreveu para a revista National Geograhic Magazine, em Maio de 1952, o artigo "I Sailed With The Portuguese Brave Captains" e realizou o filme "The Bankers - The Voyage of the Schooner Argus", a partir das filmagens realizadas em 1950.

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Estiveram entre nós fotógrafos que regressariam mais tarde e outros que nunca mais cá voltariam. Fotógrafos famosos ou que famosos se tornariam. E, passaram por cá muitos que eram pouco conhecidos. Também... Toni Schneiders (1920-), fotógrafo alemão que esteve em Sesimbra. Leo Jahn Deitrichstein, fotógrafo e editor que esteve no nosso país nos anos 50. Eliot Elisofon (1911-1973), nasceu em Nova Iorque, fotojornalista freelance, fotógrafo da "Life", esteve em Sesimbra, Aveiro, Lisboa; W. Robert Moore (1927-1984) e tantos outros. Koudelka que regressaria nos anos da revolução de Abril, com os "mensageiros da liberdade". Era um nunca mais acabar...
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Foram muitos os estrangeiros que nos elegeram. Georges Dussaud só cá esteve a partir de 1975 mas voltaria nos anos 80, 90 e 2000 entrando pelo século adentro numa impressionante aventura de poesia e paixão. Conheço poucos olhares, tão profundos, tão completos, das nossas raízes das nossas entranhas, como este de Georges Dussaud. Conheço muito bem os lugares e as gentes do nordeste transmontano que o fotógrafo elegeu para imortalizar, até por isso, sou observadora privilegiada desta parte do seu trabalho. Nunca nos cruzámos naquelas terras, embora também eu por lá andasse nos mesmos anos com ainda mais assiduidade. Embora aí não tenha família, sempre que posso é para onde vou repousar. Quando os meus filhos começaram a crescer gostava de lhes mostrar os corsos e os javalis. Sentíamo-los de noite, quando invadiam as hortas dando cabo de tudo. Ouviamos os lobos, os mesmos que nos diziam terem sido extintos, gostavamos de imaginá-los a uivar à lua. Ouviamos o nadar deslizante das lontras, nos rios que descem as serras e atravessam as aldeias em silêncio. De madrugada acordamos com o som dos guizos dos rebanhos e os badalos das vacas, levadas para os montes pelos pastores. A matança do porco, ou das ovelhas, das galinhas e outras aves de capoeira, de coelhos. Seja lá do que for, ainda ali se faz à antiga. Depois lavam-se as tripas no rio, para os enchidos. A Europa dos políticos ainda está longe – nem tanto quanto gostariamos, e assim vai continuar até que do esquecimento e da morte se faça lei. Não existe outra forma. Sempre foi assim. Isolados, muito isolados, apesar das estradas terem nos últimos anos encurtado as distâncias. Basta lá irem de Inverno para saberem do que estou a falar. Os animais, cada vez menos, vivem na parte debaixo das casas “lojas”, para que em cima, onde os donos dormem, o frio não seja tanto. Há alturas em que o "briol" é tanto que nem se sai de casa. Melhor, comem-se castanhas assadas na fogueira ou no fogão da lareira onde se fumam os enchidos. Fiasse alguma lã, cardasse cada vez menos o linho, – as poucas raparigas por casar, já não querem os enxovais. Contam-se anedotas, fala-se na vida dos outros, que são como o linho cada vez menos, até que a violência do tempo afrouxe e permita levar os animais ao campo porque a ração é cara. Dussaud fotografa-nos como os estrangeiros que nos olharam nos anos 50 e 60 do século passado. Em pleno século XXI Dussaud diz que cada um tem o seu ritmo, manifestamente diferente de pessoa para pessoa, de comunidade para comunidade, de fotógrafo para fotógrafo. Eu sempre olhei o nordeste transmontano como o olhar de Dussaud, como o dizer de Torga que o fotógrafo apanhou de fugida como um “bicho”, num retrato único, protegendo-se da chuva da serra, talvez por isso os entenda tão bem.

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Georges Dussaud

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.A partir da observação das fotografias de Dussaud dir-se-ia que o fotógrafo não era estrangeiro, eu pelo menos não conheço nenhum português que se tenha, da mesma forma, assim saído tão bem. E basta ver aqui que Geoges Dussaud não se ficou por Trás-os-Montes. Ele foi a Lisboa, Douro e Alentejo. Ele não esqueceu os pescadores e o mar português. Voltaremos a falar de Georges Dussaud quando do capítulo IV - Os olhares de Cândida Hoffer, Bert Teunissen e Marta Sicurella, em Os "olhares fotográficos" dos estrangeiros de Ângela Camila Castelo-Branco
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Agrelos, Serra do Barroso 1981

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"Esta fotografia é de uma reportagem sobre as debulhadas. Era Verão fazia muito calor. Uma mulher que estava à janela convidou-nos a beber um copo de vinho. Disse-lhes que as ia fotografar e elas puseram-se nesta posição. São mãe e filha, e esta pôs o cão sobre os joelhos. Vi nele o filho que ela não teria. Foi algo perturbador: há uma evidência de pobreza, mas ao mesmo tempo uma dignidade impressionante." (Georges Dussaud). In "Ministério da Soltura"

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Uma amiga alemã costumava dizer – quando queria irritar-me, que os portugueses tinham duas particularidades, a primeira, era que, em geral lhes faltavam os molares sendo que por esse facto quando estavam de perfil conseguia ver-se o outro lado da rua sem qualquer dificuldade; a segunda, dizia ela, coleccionávamos tudo: latas de refrigerantes e cervejas, canetas e isqueiros, porta-chaves, chávenas, selos, caricas e rolhas, pacotes de açúcar e até havia, num filme do realizador César Monteiro, um personagem (que era interpretada pelo próprio César Monteiro), que coleccionava pêlos púbicos. Dizia ela, que isso só era possível porque não tínhamos sofrido as contingências de uma guerra onde várias cidades foram completamente destruídas, não ficando pedra sobre pedra, pelos alemães e pelos aliados ao defenderem-nos do tirano, durante a II Grande Guerra Mundial. Se no que se refere à nossa saúde dentária ela queria destacar o nosso atraso na higiene da boca em relação ao resto da Europa, não me foi difícil concordar com ela. Naquilo que se refere ao coleccionismo - pelos púbicos à parte -, ela queria apenas dizer que éramos mais materialistas, mais agarrados aos objectos e às suas histórias, diz ela, porque nunca tínhamos perdido nada, - eles sim teriam passado pelas agruras da guerra. Neste ponto a minha amiga estava enganada, a revolução dos “cravos”, a mesma que nos deu a liberdade, tinha despojado de tudo, até mesmo da sua própria terra e dos familiares que lá ficaram sepultados, centenas de milhares de portugueses das colónias que foram despejados na metrópole sem, literalmente, nada. Imaginem que a partir de amanhã teriam de abandonar as vossas casas, a vossa terra (Coimbra, Torres Novas, Alenquer, Monfortinho, Vidigueira, seja qual for o seu nome, seja lá onde isso fica) e nunca mais teriam oportunidade para aí regressarem. Imaginem a gravidade daquilo que não se fez, do que não fomos capazes de perceber nos corações daqueles que nos chegavam nas pontes aéreas, velhos que transportavam nos olhos cascatas de desespero, crianças que conviviam alegres com a mentira dos pais que lhes prometiam um regresso que nunca aconteceria – onde estavam os “olhares fotográficos”? - Um assunto que está por escrever de uma maneira séria, de uma maneira justa, devemos-lhes isso. - Talvez ainda seja demasiado cedo.Contudo, penso que a minha amiga estava enganada quanto a sermos um povo que nunca perdeu nada.

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Vem esta conversa a propósito da 3 vaga dos "olhares fotográficos" dos estrangeiros sobre Portugal e os portugueses: Sebastião Salgado e os “Mensageiros da Liberdade”.
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Anrtónio Faria e Ângela Camila Castelo-Branco

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.....Os “Olhares fotográficos” dos estrangeiros:
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......I - De Charles Legrand e William Barklay a Man Ray
......II - Wolfgang Sievers, Henri Cartier-Bresson e Georges Dussaud
......III - Sebastião Salgado e os “Mensageiros da Liberdade”
......IV - Os olhares de Cândida Hoffer, Bert Teunissen e Marta Sicurella.

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sexta-feira, dezembro 14, 2007


Manoel de Oliveira



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“Documentário” ou “Ficção”

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“Criadores” ou “Criaturas”

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sexta-feira, novembro 30, 2007

M a r i a José Pa l l a
E x p o s i ç ã o d e Fotog r a f i a s 7 Dezembro d e 2 0 0 7






Auto-Retratos no Labirinto
Nuno Júdice



HÁ UMA SUCESSÃO DE PORTAS DE VIDRO QUE ABREM PARA OUTRAS PORTAS DE VIDRO. Se nos aproximarmos, vemos que nem todas são iguais, embora o pareça. Há portas onde há corpos; e esses corpos talvez não estejam por trás das portas, mas apenas reflectidos nas portas. Digo "apenas" porque esta é a forma mais óbvia de dizer que estes corpos fazem parte dessas portas. Ao abrir o espelho, abrimos cada uma dessas figuras que as portas reflectem; e o que se encontra por trás, como nos espelhos paralelos, é o infinito que se abre, como um poço, ao desejo de saber o que está para além daquilo que se pode saber. Mas num espelho a sabedoria confunde-se com a visão; e se queremos ver o que queremos saber, teremos de saber o que queremos ver. Então, o caminho será outro. Ir de uma porta para outra porta não é o mesmo que ir de um espelho para outro espelho. Para entrar por uma porta teremos de bater à porta, e esperar que nos abram; e se não houver ninguém por trás da porta, ficaremos à espera, como se esse fosse o destino natural de quem quer entrar sem ter a chave de todas as portas. Do outro lado, porém, também pode haver quem queira fazer esperar; e enquanto se espera há tempo para fixar cada pormenor da porta, a não ser que essa porta seja um espelho. Então, o que se fixa é cada pormenor da imagem de quem está à espera reflectida nessa porta que é um espelho; e talvez que, no fim, quem esteja à espera descubra que, afinal, é ele mesmo quem está do outro lado do espelho, a fazê-lo esperar por si próprio. Os dois, porém, ele e ele mesmo, nunca se irão encontrar.

É ESTA ENGRENAGEM LABIRÍNTICA QUE A FOTOGRAFIA DE MARIA JOSÉ PALLA PÕE EM MOVIMENTO. Vai fazê-lo, porém, como uma encenação, quase um bailado, de onde surgem figuras e sombras que se interpõem entre a câmara e o olhar, desviando a atenção para outros espaços onde, por vezes, é possível sairmos da beleza vestida de angústia que alguns destes caminhos põem no palco que a sua objectiva enquadra para um desenho quase abstracto do mundo que se abre entre os corpos e os objectos. Vemos o trabalho; mas descobrimos também que ele resulta de um jogo formal que desemboca na luz e na cor, em contraponto ao negro de certas portas, de certos espelhos, de certos planos. Espaços sem tempo, mas em que o espaço vai desenhando uma constelação geométrica que se liberta dos actores, transformados em sombras ou reflexos fugitivos num fundo quase fantasmático. Finalmente, no centro – mas tão no centro que a sua presença se torna transparente, como essa objectiva que o olhar atravessa na transmutação da realidade em cena fotográfica - a autora vai tornar-nos cúmplices do seu projecto. Para onde olha? Olha-nos? No fundo, vê para ser olhada - e nesse olhar colectivo, que é o olhar de cada um de nós, que adivinhamos à sua frente, recomeça o jogo inúmero dos espelhos.

quarta-feira, novembro 21, 2007

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Edward Henry Weston (1886 -1958)

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terça-feira, novembro 13, 2007

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Hanane Ksouri, St. Raphael 1999 Foto de Patrick Faigenbaum
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na

Fundação Calouste Gulbenkian


Raphael a tocar guitarra, Paris 2004 Col. do fotografo.

De 16 de Novembro de 2007 a 24 de Fevereiro de 2008

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segunda-feira, novembro 12, 2007



D. Amélia cerca de 187? Fotografia de Bond (?)
Colecção Ch. Chusseau-Flaviens da George Eastman House
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Em “‘Eles é que nos topam’ I - De Charles Legrand e William Barklay a Man Ray”, falei dos estrangeiros que fotografaram Portugal no início da fotografia no nosso país e não me referi a Charles Chusseau-Flaviens. Os blogues têm a particularidade de podermos acrescentar sempre que nos provir aquilo que bem entendermos. Não hesitei, e lá acrescentei o fotógrafo francês. Pouco se sabe sobre este fotógrafo que terá trabalhado entre 1890 e 1910. Consultando a parte do seu trabalho que se encontra na George Eastman House, parece tratar-se de um dos primeiros repórteres fotográficos freelancer. Viajava com facilidade e tinha acesso a várias famílias reais europeias. Tinha também grande facilidade em fotografar quartéis e militares em exercício assim como o respectivo armamento, o que fez em vários países da Europa. Fotografava com muita frequência cenas do quotidiano e fazia levantamentos etnográficos. Os ciganos na Roménia, negativos de alguma raridade e algumas vivências na Argélia, Marrocos e na Turquia, onde também adquiriu originais a (Sebah & Joailler), importante firma estabelecida em Constantinopla. Percorreu a maioria dos países da Europa. Da colecção, uma das maiores da George Eastman House, fazem parte mais de 11.000 negativos em vidro. O conjunto foi entregue à Casa George Eastman pela Kodak Pathé em 1974. É provável que seja apenas parte da sua produção como fotógrafo isto porque, se atentarmos ao número de chapas em vidro feitas em França, uma insignificância, por exemplo da Exposição Universal de 1900 em Paris apenas se conhecem 2 chapas, leva-nos a suspeitar que a colecção na posse da George Eastman House não representa todo o seu trabalho. Tal situação, leva-nos a concluir que a sua obra é muito mais vasta. Chusseau - Flaviens quando viajava adquiria trabalhos de outros fotógrafos e produzia a bordo uma cópia. Ele incluía frequentemente o nome do fotógrafo na anotação em francês ao longo da borda do negativo em vidro. Assim se explicam os negativos da Nova Zelândia, Japão, Abissínia na Etiópia e outros países para onde Chusseau-Flaviens não pode ter viajado em pessoa. Na George Eastman House são em grande número os vidros da Bulgária, Roménia e Espanha. Surpreendente é o número de chapas sobre Portugal, cerca de 900 negativos em vidro. A sua diversidade geográfica contempla a cidade do Porto, com vistas de uma beleza rara a que a cidade já nos habituou e onde podemos ver o desembarcar do bacalhau na Ribeira. Cascais com as suas praias de pescadores, antes do turismo, os hotéis e os casinos as terem tomado; Mafra, Tomar e Sintra com os seus monumentos; Cacilhas, donde miramos a Lisboa do princípio do século XX; Coimbra, as pessoas, os estudantes e as tricanas, a universidade e o choupal. A sensibilidade de Chusseau - Flaviens quando regista os tipos sociais, os costumes, os vendedores ambulantes: de azeite, de carvão, de leite, de legumes, de aves, de peixe, de ostras, de pão, de perus, de alhos e cebolas, os aguadeiros, os varredores de rua, as lavadeiras, os calceteiros e a calçada portuguesa, os trolhas e os galegos nas mudanças, tudo estimula o estudo da cidade de Lisboa no início do século XX. Fotografou o exército português: a cavalaria, a infantaria, a artilharia nos quartéis e em manobras. Fotografou a marinha, os marinheiros e os seus barcos: o Douro, o Vasco da Gama, o Almirante Reis, o Tejo, o D. Amélia e o Dom Luís. Um grande número de fotografias da família real portuguesa, D. Carlos, D. Amélia, D. Afonso e D. Manuel II. Em alguns dos negativos em actos oficiais mas, noutros negativos em situações menos formais ou pousando desportivamente para a câmara. D. Manuel II simulando esgrima ou com uma raquete de ténis na varanda do Palácio da Pena. Os primeiros republicanos, da carbonária como António Maria da Silva até ao primeiro Presidente da República, Manuel de Arriaga na varanda do Palácio de Belém. A colecção conta também com retratos de António José d’Almeida, João Chagas, Magalhães Lima, Braamcamp Freire, Afonso Costa, A. de Azevedo Vasconcelos, Teófilo Braga e o Patriarca de Lisboa D. António Mendes Belo. Apesar de algumas das fotografias terem sido adquiridas a fotógrafos e estúdios fotográficos portugueses como à Foto Vasques, não é de excluir que Chusseau – Flaviens tenha estado no nosso país pelo menos até 1910. A colecção conta ainda com uma fotografia da Rainha D. Amélia, muito nova, por volta de 1872, seguramente adquirida ou oferecida ao fotógrafo.
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Lisboa, tipos e costumes no inicio do século XX Fotografia de Chusseau - Flaviens. Geoge Eastman House
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Fundação Foto-Colectania

domingo, novembro 11, 2007

CORPUS MEUM

Liberdade

A fotografia da mão de Gracinda Candeias


A mão de Gracinda Candeias estende-se até nós no próximo dia 7 e até ao dia 12 de Novembro, das 15:00 horas às 22:00 horas, representada, pela Galeria Quattro, na Feira de Arte Contemporânea, (FAC) na FIL (Expo), no STAND D 24.

Um dia, Gracinda Candeias, deixou de SENTIR AS MÃOS! Experimentou várias sensações até à ausência delas e achou que não tinha mãos!

“Em finais de Novembro de 2004, fui submetida a uma intervenção cirúrgica à mão esquerda. A cirurgia foi a libertação do nervo mediano, ou um corte no ligamento anelar anterior do carpo.
Pois! A libertação do nervo! Mas não a minha ! Penei todo este tempo, até que em Agosto de 2007 dou por mim a fotografar a mão esquerda com a mão direita, pois é dela que se trata neste trabalho.
Recorri às tecnologias e acrescentei pontos eléctricos luminosos.
Imperceptíveis no primeiro olhar, representam os choques que senti, por cada nervo a ser libertado. A libertação de cada um passa por essa ausência de contornos, de amarras, de realidades, de barreiras.”


A mão de Gracinda Candeias em fotografia e tecnologia lenticular num painel com as dimensões de 160 x 160 cm. A obra é acompanhada com um DVD do trabalho na Feira de Arte Contemporânea. E foi a obra que mais me surpreendeu.

quarta-feira, outubro 03, 2007



KODAK LIVE FOREVER

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Fernando Pessoa terá dito que “depois da Kodak a fotografia (acabou), já não serve para nada.”. Pessoa estava enganado! Nem a Kodak nem a fotografia se finaram...

quarta-feira, setembro 26, 2007





Gertrud Arndt, "Auto-retrato - máscara", Dessau, 1930


MOMENTOS ESTELARES
LA FOTOGRAFÍA EN EL SIGLO XX
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Inaugorou hoje em Madrid e vai poder visitar até 18 de Novembro, no Círculo de Bellas Artes (desde o começo do século XX até aos anos 70), e na sala de exposições do Canal de Isabel II (desde os anos 70 até à actualidade), a exposição de fotografia “Momentos estelares – La Fotografia en el Siglo XX”. (...) Desde as fotografias de Stieglitz, Rodchenko ou Man Ray até às de Doisneau, Robert Frank, Andy Warhol ou Marina Abramovic, a exposição mostra a adolescência (juventude) da fotografia, o seu desenvolvimento (maturação) como meio de expressão e a sua consagração como uma das Belas Artes. (...) Esta é uma mostra sem precedentes em Espanha, disse na inauguração Juan Barja, director do Círculo de Bellas Artes, entidade organizadora da exposição com a Consejería de Cultura e Turismo da Comunidade de Madrid e Caja Duero. A iniciativa da exposição partiu da publicação em castelhano de "La fotografía del siglo XX", um dicionário histórico escrito por Koetzle, explicou Isabel Rosell, directora geral dos Arquivos, Museus e Bibliotecas da Comunidade de Madrid. (...) "Momentos estelares. La fotografía del siglo XX" está organizada em torno das grandes correntes fotográficas, como o pictorialismo, primeiro movimento que se integrou nas Belas Artes, a nova objectividade, impulsionada por Blossfeldt, Renger-Patzsch ou Rodchenko. O surrealismo, com as criações vanguardistas de Man Ray, Nougé ou Kertész, a fotografia subjectiva de criação livre de artistas como Steinert, as fotomontagens satíricos sobre Hitler de Heartfield (dentro da corrente Dada), são algumas das temáticas da eclosão da arte fotográfica que se podem ver em exposição. (...) Paralelamente à sua vertente artística, a fotografia do século XX encaminhou-se para a via documental e converteu-se em memoria / testemunho dos grandes acontecimentos sociais e históricos pelas objectivas de Eugene Smith, Brassaï, Cartier-Bresson, Robert Frank, William Klein ou Garry Winogrand. Instantâneos gravados na memória colectiva, como "A mãe imigrante”, da fotografa Dorothea Lange, ou "Morte de um soldado republicano", fixada por Robert Capa no início da guerra civil espanhola, são algumas das fotografias que podem ser vistas na exposição.(...) A exposição conta com originais cedidos por 71 instituições. Os fotógrafos Espanhóis mais conhecidos também estão representados, desde Echagüe, Català-Roca, Josep Renau e Masat, retratistas da Espanha do pós guerra, até aos trabalhos mais recentes de Isabel Muñoz, Alberto García-Alix, Chema Madoz, Joan Fontcuberta, Ouka Leele ou Luis González Palma.




Morte de um miliciano, Robert Capa, Cerro Muriano, 5 de Setembro de 1936
(25,5 x 35cm)
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A mãe imigrante. Fotografia de Dorothea Lange


Comisarios:
Hans-Michael Koetzle e Oliva María Rubio
Local:
Círculo de Bellas Artes
Canal de Isabel II
Organização:
CBA
Consejería de Cultura y Turismo. Comunidad de Madrid

Caja Duero

ColaboraçãoLa fábrica

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“Atlas” na Rua dos Navegantes
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“Atlas” é uma exposição que abre ao público no próximo dia 4 de Outubro na p4Photography. Um espaço de fotografia que Luís Trindade inaugura em Lisboa.
Atlas, primeiro rei da mítica Atlântida, mencionada pelo filósofo grego Platão, mas também, Atlas condenado por Zeus a carregar os céus sobre os ombros (da mitologia grega), - a partir daqui cada um fará a sua história.
Podemos ver nesta exposição trabalhos de três fotógrafos portugueses: Carlos Miguel Fernandes, João Mariano e Rui Fonseca. Mais uma vez, Portugal e o mar, da Islândia ao Arquipélago dos Açores, do apanhador de percebes à recolha do sargaço. A exposição pode ser vista até ao dia 10 de Janeiro no n.º 16 da Rua dos Navegantes que desce em direcção ao Tejo e que subindo desemboca num gradeamento em ferro forjado sobre o “Jardim da Burra”, mesmo ao lado da Basílica da Estrela.
Na mesma rua no n.º 46, na Galeria de Arte Contempo, inaugurou no dia 20 de Setembro uma exposição de um nome maior da fotografia portuguesa, Eduardo Nery. “Homem-Animal. Metamorfoses” são as fotografias que Eduardo Nery fez entre 2004 e 2006. José Luís Porfírio escreveu que "provocam deliberadamente um desequilíbrio que torna mais patente a ambiguidade do confronto entre o ícone humano e o animal" (...) "Trata-se dum conjunto feliz, que contrasta pela sua leveza com o peso das anteriores Metamorfoses...”.
No que diz respeito à fotografia, desde 1976 que Eduardo Nery nos surpreende. Desta seremos seguramente mais uma vez surpreendidos.
As duas exposições obrigam os amantes da fotografia a uma passagem pela freguesia da Lapa. Desejo o maior sucesso à p4Photography. Decididamente, a Rua dos Navegantes vai ser estória na história da fotografia portuguesa. Que arribem a bom porto...


Ângela Camila Castelo-Branco


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Fotografia de Rui Fonseca. Tempestade nos Açores


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Fotografia de João Mariano. Recolha do sargaço
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Banhos na Islândia. Fotografia de Carlos Miguel Fernandes


Rua dos Navegantes n.º 16

Atlas
Carlos Miguel Fernandes / João Mariano / Rui Fonseca

Segunda a Sexta-feira das 14.00 às 18.00

Sábado das 14.00 às 18.00
Fechado aos Domindos
Inauguração 03 de Outubro às 20h00


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Galeria de Arte Contempo
Rua dos Navegantes nº 46 A

Eduardo Nery
Homem-Animal. Metamorfoses

20 de Setembro a 20 de Outubro de 2007
5ª feira a Sábado: 14h30-19h30
Inauguração 20 de Setembro às 21h30
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Fotografia de Eduardo Nery (Metamorfoses)
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quinta-feira, setembro 20, 2007







Convites oferecidos por PHOTOGRAPHIE.COM clic aqui para ter um convite gratuito para todos os dias do Salon de la Photo de Paris.


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quinta-feira, setembro 13, 2007

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O Boletim Architectonico e de Archeologia
da Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes


Aos domingos de manhã gosto de ir à “Versailles” a pastelaria, na Av. da República em Lisboa desde 1922, tem um quê de francês e não é apenas o nome. Quem lá vai, procura um certo “chic”, aquele “glamour” nostálgico de uma França que já não existe. Confesso que o que me atrai nesta casa são os croquetes, cedinho, ainda quentinhos, a desfazerem-se na boca. Aceito que existam motivos mais nobres para se gostar da Versailles. Uma das poucas casas sobrevivente da Lisboa romântica, pelo menos a única que ainda me encanta. Apesar de a minha juventude ter estado mais ligada a outros cafés de Lisboa como: a Mexicana, o Vá-Vá ou o Luanda que ainda existem, ou o desaparecido Café Colombo ao lado do não menos histórico Galeto, que foi há dias fechado pela inspecção de saúde parece que por causa do bom gosto da bicharada; ou ainda o feliniano Salão Imperium ali nas escadinhas de Sta Justa, prostrado aos pés do elevador de Eiffel. Naquele tempo, o Dino e o Rodolfo marcavam presença por volta das cinco da tarde e encantavam-me na minha inocência. Subia-se uns degraus e estávamos na Maçã onde a Ana Salazar se iniciava com trapinhos que trazia de Londres. Quem não gostava ia aos Porfirios, (Susana Larisma. Jornal "Público", 23 de Setembro de 2001). Menos ousados, ainda assim, a loja de Porfírio Araújo e filhos, na esquina da rua da Vitória, parecia-se com uma discoteca na decoração e na música alta. As jeans eram ainda uma miragem, compravam-se as mini-saias, os “collants” com padrões e cores extravagantes e as bombazinas e os veludos cotelê com várias espessuras. O tempo não perdoa, hoje em matéria de encantos temos de ir ao Porto, ao Café Guarany (o café dos músicos) ou ao Magestic, ambos adquiridos pelo empresário Barrias, um homem de qualidades humanas superiores que fez fortuna nas favelas do Rio de Janeiro com uma pequena mercearia, - e muito trabalho. Barrias, recuperou o Café Magestic a partir de uma fotografia que pediu ao seu amigo Manuel Lázaro Santos Silva, proprietário da Foto Beleza desde 1979 e que tinha no seu espolio as chapas em vidro da inauguração do estabelecimento em 1921 ainda com o seu primeiro nome “Café Elite” que durou apenas um ano. A 31 de Julho de 1922 passa definitivamente a chamar-se Magestic. Da Foto Beleza falarei outro dia, com mais paciência, aquilo tem que se lhe diga. Eu sei do que falo. Também não são os croquetes da Versailles nem os Porfírios do Sr. Araújo o assunto da história de hoje.
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Ao Largo do Carmo, aquele onde o Cap. Salgueiro Maia prendeu o Pres. do Conselho Marcelo Caetano que dali foi transportado num chaimite para que a população em fúria – os mesmos que dias antes o veneravam, não o estropiassem ali mesmo dando largas a anos de frustração e recalcamentos -. Nem tudo era medíocre e mesquinho, nem todos os que ali estavam o faziam levianamente. Honra seja feita a Francisco Sousa Tavares, com megafone na mão a acalmar a maralha. E a tantos outros que apesar de terem sido vitimas de um regime hediondo souberam ser misericordiosos quando da sua queda. Nem só de cravos viveu a revolução!

Dizia eu, ali ao Largo do Carmo ficava a Associação dos Architectos Civis Portuguezes a que, em 1874, o Rei D. Luís I concedeu o titulo de Real Associação dos Architectos Civis e Archeologos Portuguezes, assim passou a ser denominada a actual AAP - Associação dos Arqueólogos Portugueses. "Remonta à longínqua data de 22 de Novembro de 1863, no decorrer de uma reunião de 8 arquitectos, a génese da mais antiga instituição de arqueologia existente na Península Ibérica.", escreve A. Bordalo Sanches no site digital do Clube Nacional de Filatelia, onde podemos ler outras informações sobre a AAP.

De facto, a associação foi fundada em Lisboa em 1863, e estabelecida na antiga Igreja do Largo do Carmo, mais exactamente nas ruínas do Mosteiro de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Com o intuito, entre outras coisas, de fundar um Museu Arqueológico, onde se reuniriam objectos de arte dispersos pelo reino. Relíquias que a mão do tempo e a barbaridade dos homens têm feito ruína, como nos diz Ignacio de Vilhena Barbosa no n.º 1 da 2.ª série do Boletim Architectonico e de Archeologia, em 1874. Convém mencionar que, o Boletim da Associação teve várias séries entre 1866 e 1921. Seria importante fazer um levantamento das albuminas oferecidas nos boletins desta associação. Nos 12 fascículos da 2.ª série, publicados entre 1874 e 1876, o boletim oferecia em alguns dos números, albuminas de peças do acervo desta associação. A primeira dessas fotografias executadas pelo sócio honorário, o fotógrafo Henrique Nunes, foi uma albumina que mostra um sarcófago romano descoberto na Estremadura. No Boletim podemos ler as vicissitudes por que passara a obra então documentada e que não me escuso a reproduzir este excerto: “ Fomos assas felizes em haver descoberto em 1868 na Quinta da Gafa, em Alcobaça, este sarcófago (Albumina de Henrique Nunes); estava desprezado e enterrado no estrume, a fim de ficar em altura suficiente para que animais suínos pudessem tomar o seu sustento, que dentro dele se lhes dava!”. Nem mais! A obra está aí descrita ao pormenor. Quando foi pela primeira vez descoberto, por um agricultor que plantava uma nova vinha, em 1790, o sarcófago estava no Valado dos Frades, no Couto de Alcobaça.
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No Boletim nº 1 (1874), ficamos a saber da oferta feita pelo Rei D. Fernando a esta Associação de “...uma colecção de 39 Photographias tiradas dos objectos principais e executados por artistas portugueses, da riquíssima galeria que sua Majestade possui no palácio das Necessidade; objectos que figuraram na exposição de Viena d’Austria no ano findo”, e que poderiam então ornar a associação como era desejo do Rei.

Também, “Na sessão da assembleia geral de 13 de Julho (de 1871) se deliberou formar-se um Álbum com os retratos em photographia dos nossos sócios amadores, sendo assinados com o próprio punho do respectivo sócio.”.
A 6 de Maio de 1875, ficamos a saber pelo relatório dos trabalhos da associação, publicados no Boletim n.º 6 na página 90 o seguinte: “Tendo recebido o conselho um pedido do photographo francês o Sr. Pomard, para tirar a photographia das naves deste edifício, acompanhado duma carta em que se expressa inconvenientemente, deliberou o conselho por unanimidade que, lhe fosse negada a licença”. Fico curiosa sobre o conteúdo da carta.

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Entre as albuminas executadas pelo fotógrafo Henrique Nunes e oferecidas no Boletim, encontramos no n.º 9 a máscara encontrada na Necrópole Romana descoberta em Alcácer do Sal em 1874. (Esta albumina está numerada como sendo a estampa n.º 13 e na página 131 do Boletim, onde descrevem a obra, por lapso identificam-na pelo n.º 14). “Preparando-se um terreno para um calcadouro de uma eira em Alcácer do Sal, fez descobrir uma Necrópole da época romana, na qual se acharam diversos objectos de barro, bronze e ferro, e igualmente uma máscara de terra cotta coberta de estuque colorido e em bom estado de conservação...” e apesar de “Posto que fosse designada como máscara, todavia ela representa o retrato de um indivíduo, do qual as suas cinzas estavam encerradas na maior urna que foi descoberta também nesta mesma ocasião e estando encostada a ela faz acreditar seria o retrato do defunto. Os romanos tinham o costume de mandarem tirar a mascara das pessoas falecidas, em barro ou cera , para cobrirem o rosto do falecido durante o tempo que os despejos mortais ficavam expostos no vestíbulo de suas casas antes de serem consumidos pelo fogo, a fim de se conservarem a memória de seus parentes, guardando essas mascaras na família.”

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O túmulo de El-Rei D. Fernando, foi também reproduzido pelo fotógrafo Henrique Nunes. Em duas albuminas o fotógrafo reproduziu o sarcófago e a parte superior do túmulo do séc. XIV. Quem conhece o túmulo, sabe que a sua parte superior é facetada dando-lhe uma forma cónica, razão que levou a adopta-la para arrumo de celas de cavalos, que aí eram pousadas quando não estavam no lombo destes. Assim podemos observar descrito no Boletim n.º 8: “É pena que apresente algumas partes já arruinadas em um dos seus lados, destruição causada pela cobiça de rapina durante a guerra com estranhos e, e por ocasião das nossas antigas discórdias civis. (...) os frades mandaram serrar as cabeças dos quatro quadrúpedes que serviam de pés ao tumulo, como se pode verificar, para que ele ficasse unido com a parede da empena do portal. (...) Ultimamente serviu a mimosa campa abaulada de cavalete para as selas velhas dos cavalos do regimento de cavalaria, então aquartelado no edifício do extinto convento. Além disso os soldados divertiam-se em tirar os olhos e quebrar os narizes dos bustos que ornam esta obra prima de escultura, e já em 1834 Almeida Garret lastimava não existirem dentro deste tumulo os despojos mortais D’el-rei D. Fernando!(...)Por um mero acaso salvou-se de ser mutilado o lado oposto, por ter ficado resguardado pela parede, sendo desta face donde se tirou a photographia da estampa agora publicada neste número” .

Fazem ainda parte desta 2.ª Série do Boletim da Associação, uma albumina da maqueta/modelo para a restauração da Igreja dos Jerónimos em Belém, delineada pelo arquitecto Joaquim Possidónio Narciso da Silva em 1867 e também uma outra albumina da maqueta do Hospital Militar de Macau.

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A Associação de Arqueólogos Portugueses possui algumas espécies fotográficas únicas, alguns destes documentos estão à guarda do IMC - Instituto dos Museus e da Conservação, (IMC –Decreto-Lei 97/2007, de 31 de Março), que resultou da fusão do IPM- Instituto Português de Museus e o IPCR - Instituto Português de Conservação e Restauro. Em boa hora lá foram parar, porque as condições exigidas para a conservação deste tipo de documentos, obrigam a algum investimento que nem todas as instituições podem fazer, nem tal se justifica em espólios de pequenas dimensões. Cabe ao estado providenciar alternativas que possibilitem a conservação e preservação do património fotográfico nacional.

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Ângela Camila Castelo-Branco

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segunda-feira, agosto 27, 2007



J' aime la photographie

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Serge Gainsbourg - Negative Blues (1965)
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Où est ma petite amie?
Elle est dans mon Rolleiflex
Je le regarde perplexe
Dois-je le foutre aux orties.
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Où est ma petite amie?
Elle est dans mon Rolleiflex
C’était mon premier réflexe
J’aime la photographie
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Je revois la p’tite chérie
Posant pour mon Rolleiflex
Un p’tit machin en lastex
Lui donnait un peu d’esprit
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Où est ma petite amie?
Elle est dans mon Rolleiflex
J’y ai filé des complexes
Elle a filé cette nuit
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Où est ma petite amie?
Elle est dans mon Rolleiflex
Faut connaître le contexte
Le pourquoi et le pour qui
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quarta-feira, agosto 22, 2007


Foto retirada do Título de Nacionalidade Nº 15, em nome de José António Lívio Barros, passado em 16 de Fevereiro de 1916, com a validade de um ano. O mesmo documento é revalidado em 22 de Julho de 1919. Na altura o José António tinha 37 anos, o que nos diz que em 1904 tinha de idade 23 anos.



Não me interessa apenas a história da fotografia em Portugal e nas antigas colónias. Tenho, também, especial interesse pela diáspora dos portugueses no mundo e o seu contributo e envolvimento com a fotografia nos locais onde se encontravam uns temporariamente, outros fazendo já parte desses locais, parte dessas vivências. Nas américas: Brasil (O fotógrafo Siza e Henrique Nunes, em Belém do Pará - ambos familiares da nossa Teresa Siza) e Estados Unidos da América (O Insley de Cabeceiras de Basto. De entre as serranias da Cabreira e do Marão até New York City) ou (Os Nunes Carvalho daguerreotipistas sefarditas), Venezuela, Canadá etc. Nas áfricas: as antigas colónias portuguesas e as outras onde os portugueses também se posicionaram e não apenas comercialmente. De Madagáscar onde fomos os primeiros europeus a chegar; à Tanzânia, Zanzibar onde o primeiro branco a visitar a ilha foi o navegador Vasco da Gama (O “Sultanato” dos fotógrafos portugueses no Zanzibar); ao Congo onde sempre estivemos. A África de onde o coração dos portugueses nunca saiu. Estivemos na Oceânia, no exotismo místico de Timor visto pelos olhos e pelo sentir de Rui Cinatti e recordado no (Álbum Álvaro Fontoura) «Colónia Portuguesa de Timor» álbum da familia Fontoura, recuperado e editado em CD-ROM pela Fundação Mário Soares. A imensidão australiana para onde tantos portugueses foram mas, de fotógrafos portugueses nessas paragens nada sabemos! A nossa presença na Ásia: de Macau a Goa e ao resto da Índia portuguesa; de Nagasaki, Kobe, Yokoama, Hiogo, Osaka e Tokushima, o Japão de Wenceslau de Moraes até José António Lívio Barros, o fotógrafo português (ou de ascendência portuguesa), que privou com a monarquia no Reino do Sião.
Há dias, quando jantava com os meus irmãos, o Miguel chamou-me a atenção para o blogue “Aqui Tailândia” de José Gomes Martins onde este postava no dia 21 de Julho de 2007, “J. António: O fotógrafo português no Reino do Sião”. A sua descoberta, a sua suspeita da importância deste fotógrafo com estúdio em Banguecoque e que terá cedido fotografias suas a fotógrafos com a importância do checo Enrique Stanko Vráz, é ainda mais empolgante, quando sabemos o prestigio que Portugal tem na Tailândia, onde fomos os primeiros ocidentais a ter embaixada. Mas chega de conversa, vamos lá a saber quem é José António Lívio de Barros e até onde os portugueses levaram a fotografia...


"J. António: o fotógrafo português no Reino do Sião"


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quinta-feira, agosto 16, 2007

Clic aqui! ou sobre a máquina fotográfica

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A Publicidade sempre as quis conquiSTAR



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Foram muitos os realizadores, os decoradores, os fotógrafos, os compositores de musicas para filmes que a publicidade desejou um dia conquistar, pois que, a experiência e a fama das celebridades poderiam ser exploradas em qualquer campanha. Foi assim com Joan Crawford, Frank Capra, Ann Sothern, James Cagney, Cecil B. de Mille, Doris Day, Fred Astaire, Gregory Peck, Harold Lloyd, Bob Hope e tantos outros que deram a cara pela qualidade dos aparelhos de fotografia Stereo Realist, que faziam fotografias em 3D (três dimensões).



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Cameras 3D
STEREO REALIST