terça-feira, abril 01, 2008

FOTOGRAFIA no MUSEU NACIONAL de SOARES dos REIS

Fotografia J. P. Sotto Mayor

Fotografia José Marafona

“Um dia no Museu”
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Fotógrafos do Grupo IF (Ideia e Forma) 2008

“Um dia no Museu”, é a exposição de fotografia que o Grupo IF (Ideia e Forma), realiza no Museu Nacional de Soares dos Reis, no Porto, inaugurando no Dia Internacional dos Museus (18 de Maio), e que estará patente até ao próximo mês de Agosto.
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Fotografias de Manuel Magalhães


As cerca de 60 fotografias expostas são da autoria dos cinco elementos do Grupo IF, António Drummond, Henrique Araújo, João Paulo Sotto Mayor, José Marafona e Manuel Magalhães
A iniciativa partiu da Direcção do Museu que para o efeito convidou o Grupo IF.
Assim, passados 25 anos após “ESQUINAS do TEMPO” aqui torna a expor.

"Um dia no Museu" constituirá a sua abordagem às diversas vivências que constituem o dia a dia deste pequeno universo, e que dá o nome à própria exposição.

Fundado em 1976, Grupo IF (Ideia e Forma), foi durante aproximadamente 10 anos a maior referência de fotografia colectiva em Portugal. Realizou 11 exposições originais. Selecções das mesmas foram apresentadas em Serralves no Museu de Arte Contemporãnea (Porto 60 /70: Os Artistas e a Cidade) e na galeria da Biblioteca Almeida Garrett no Porto (+ de 20 - grupos e episódios no porto do século XX).

Exposições do Grupo IF: tema livre (1976); vilarinho das furnas (1977); comboios d’ontem imagens d’hoje (1977); ponte maria pia (1977); imagens do quotidiano (1977); fotografia experimental ou de vangarda (1978); formas (1978); exercicío (1978); nona (1981); esquinas do tempo (1982); o porto visto de perto (1984).

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HORÁRIO
Encerra à 2ª Feira
3ª Feira – 14h00 às 18h00
4ª. Feira a Domingo – 10h00 às 18h00




MUSEU NACIONAL de SOARES dos REIS
Rua D. Manuel II. 4050-342 PORTO
Tel.: +351 223393770
Fax: +351 222082851
E-mail: mnsr.div@ipmuseus.pt




sábado, março 15, 2008

BES Photo, há noites assim, assombrosas, fantásticas...

A inauguração da 4ª edição do Prémio BES Photo estava marcada para as 22:00 horas do dia 13 de Março, em exposição no Museu Colecção Berardo podíamos ver os trabalhos inéditos dos três concorrentes, Daniel Malhão, Eurico Lino do Vale e Miguel Soares. Pelo adiantado da hora e pelo facto de ter sido a meio da semana, fiquei surpreendida pela quantidade de gente que ali se deslocou. Percebi depois que nem todos ali estariam por amor à fotografia. Foi servido por um catering: mousse de salmão com chantilly e trufas de cabrito panadas com amêndoas gratinadas e molho picante, acompanhei com champanhe para animar a noite.
Tenho seguido estas edições do BES Photo e, parece-me que, este ano se fez o hat trick . Eu explico porquê. Todos os trabalhos concorrentes são de tal forma fotográficos – nem sempre assim aconteceu em anteriores edições, que é demasiado penosa a escolha de qualquer um deles em detrimento dos outros dois.

Daniel Malhão (Lisboa, 1971) apresenta para o prémio BES Photo 2007 a obra «As Far as I Can See», “quatro dípticos de paisagens marítimas cortadas pela linha do horizonte, afastando o céu e o mar. Esta peça nasce da pergunta: «até onde posso ver?». Com este trabalho, Daniel Malhão tenta definir os limites.” O fotógrafo “inunda-nos” e hipnotiza-nos com a imensidão cromática das suas paisagens, ele invoca, provocantemente, um dos maiores tabus da fotografia a dimensão e os limites da mesma. A escala é determinante para o sucesso de uma imagem, José Luís Neto vencedor da 2ª edição do BES Photo, pratica o exercício da escala e das dimensões em muitos dos seus trabalhos, “Irgendwo” (1998), ou em “22474” (2000), os minúsculos rostos encapuçados dos prisioneiros fotografados por Joshua Benoliel em 1912 na penitenciária de Lisboa em Campolide e ampliados por José Luís Neto até ao formato de 30x40 cm.
Daniel Malhão vai mais longe em «As Far as I Can See», salvaguardando o carácter físico do suporte, se nos posicionarmos convenientemente as dimensões das paisagens onde mergulhamos são infinitas e ignoram o limite do olhar do fotógrafo que as aprisionou.

Eurico Lino do Vale (Porto, 1966)É o retrato do incógnito, do velado, do oposto da identidade. Definitivamente, um retrato daquilo que não está presente, daquilo que só existe em potência, no olhar de quem dispara. É assim que nascem as sombras, esse universo dissipado que reclama Tanizaki, essa empresa impossível que cerca os perfis a que Eurico Lino do Vale quer dar luz”.
Os percursores da fotografia mais não faziam que fixar-nos os recortes em perfis mais ou menos pontiagudos, mais ou menos achatados. A utilização destes instrumentos (máquinas) é conhecida e profusamente comentada na história da fotografia. Em França no tempo de Louis XIV, um novo processo de retratar é inventado e maliciosamente designado “Silhouette” nome de um “Ministro das Finanças” do reino. Sentados de perfil ao lado de um cavalete onde se dispunha uma folha branca, os retratados viam o seu perfil desenhado pela luz na superfície do papel, o interior dos contornos era posteriormente pintado a negro e recortado. Não deixa de ter piada que Eurico Lino do Vale exponha silhuetas na actual conjuntura económica do Portugal Socrático. Não resisto a lembrar-vos a história de Monsieur A. de Silhouette: ministro das finanças de Louis XIV, foi incumbido, em 1759, de equilibrar os cofres do estado que à época estavam quase vazios. Criativo, como hoje é o nosso Teixeira dos Santos, Silhouette esvaziou os bolsos dos franceses para encher os cofres do reino, mas estes não ficaram nada contentes e a sua popularidade sofreu reveses e consequências. Apareceu um novo estilo de roupa, fatos sem bolsos que foram considerados inúteis, pelo facto das pessoas não terem dinheiro para os encher. Estas roupas eram à la Silhouette, e até hoje, qualquer coisa insubstancial como uma sombra chamamos-lhe uma silhueta, em pouco tempo o brilhante ministro do reino torna-se não mais do que uma sombra de si mesmo. Não sei o que esta história tem de verdadeiro, uma coisa eu sei os portugueses também têem o seu Sr. Silhueta.
«O retrato é a própria realidade, um acto performativo. É o acto de encarnar a figura do fotógrafo para registar o momento. De um lado e do outro, é um encontro de duas pessoas num determinado tempo. O acto de fotografar é um acto de convergência de uma pessoa com outra. Depois, chega a divergência, quando o objecto se torna autónomo e decide partir. Porém, para mim, retratar não é nem teatro nem realidade pura. É o resultado daquilo que aconteceu».

Miguel Soares (Braga, 1970) Finalmente no trabalho de Miguel Soares onde a teoria estética de Samuel Taylor Coleridge (1732-1834), que invoca a vontade de uma pessoa aceitar como verdade as instalações de uma obra de ficção, mesmo se elas são fantásticas ou impossíveis. «A nossa vontade de aceitar a ilusão, mesmo em casos inverosímeis e tecnicamente imperfeitos, a chamada teoria da Suspension of Disbelief interessa-me imenso. Há coisas que víamos há vinte anos atrás e pareciam altamente verosímeis e realistas e que hoje em dia parecem muito mal feitas.»
Dei comigo a questionar-me se a obra “Planets” se tratava de caixas de luz, tal era a minúcia da iluminação mas, também, a sequência e a tonalidade das fotografias. Se eliminarmos as duas últimas fotografias na sequência de quem as percorre quando entra e verifica tratar-se na verdade de candeeiros de jardim, facilmente entramos no mundo mágico do fantástico, no mundo da teoria de Samuel Taylor Coleridge.


Também em "Li ine" o artista explora os mecanismos que regulam e determinam a percepção:




O Prémio BES Photo (este ano no valor de 25.000 euros) é atribuído desde 2004 pelo Banco Espírito Santo em parceria com o Centro Cultural de Belém, e em 2008, no âmbito de um novo protocolo, em parceria com o Museu Colecção Berardo.
Para esta 4.ª edição do galardão, os artistas foram escolhidos por um júri de selecção com base em exposições realizadas entre 01 de Julho de 2006 e 31 de Julho de 2007. O Júri de Selecção foi composto por Albano da Silva Pereira, Director do CAV (Centro de Artes Visuais, Coimbra), José Luís Neto, artista plástico e vencedor do BES Photo 2005, Leonor Nazaré, curadora do CAM (Centro Arte Moderna José Azeredo Perdigão, Fundação Calouste Gulbenkian), Nuno Crespo, crítico de arte e Ricardo Nicolau, Adjunto do Director do Museu de Serralves.
Os artistas foram seleccionados pelas seguintes exposições (realizadas entre 1 de Julho de 2006 e 31 de Julho de 2007:
- Daniel Malhão pela exposição "Título", na Galeria Vera Cortês - Agência de Arte (20 Out a 18 Nov 2006).
- Eurico Lino do Vale pela exposição "Retratos dos Túmulos dos Reis de Portugal", na Galeria Carlos Carvalho (09 Maio a 31 Julho 2007).
- Miguel Soares pela exposição "Exposição Individual de Miguel Soares", na Galeria Graça Brandão (21 Junho a 31 Julho 2007).
O júri, que anunciará o vencedor a 07 de Abril, é constituído pela curadora Lorena Corral, François Hebel, director de "Rencontres Culturales de la Photo", Jürgen Bock, Director da Escola de Arte Maumaus, José Bragança de Miranda, Professor da Universidade Nova de Lisboa e Thomas Seelig, Curador do Fotomuseum Winterthur, na Suiça.
Os trabalhos dos candidatos ao BES Photo serão apresentados, em Junho, no PhotoEspaña, em Madrid, que este ano é comissariado pelo português Sérgio Mah.


Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.

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terça-feira, março 11, 2008


Paulo Catrica apresenta uma série de peças pensadas para o espaço da galeria Quadrado Azul, em Lisboa, em mostra patente de 7 de Março a 3 de Maio, sob o título “No ruses, so to speak”.
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© Paulo Catrica
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segunda-feira, março 03, 2008

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Gérald Bloncourt

“Os anos da lama” ou “Por uma vida melhor”


Dos jardins do castelo de Saint-Ggermain en Laye avista-se Paris e a Torre Eiffel. Nos anos sessenta quem dali não procurasse o horizonte e se inclinasse um pouco olhando para baixo, junto à muralha descortinava as hortas que os portugueses emigrados cultivavam aos domingos - nem todos. Muitos estavam com as famílias à beira dos lagos dos jardins do Vésinet (Ville du Vésinet, o Estoril parisiense), faziam piqueniques onde não dispensavam os garrafões de cinco litros em vidro verde forrado no entrelaçado do vime, nem faltava o bacalhau cozido com batatas. Estendiam ao sol as toalhas de linho branco do Minho – os que as tinham. Os domingos eram deles, ninguém lhes ousaria tirar aqueles, poucos, momentos de ilusão. As crianças brincavam com botas rotas exibindo roupa remendada. Os adultos sonhavam poder vir a ter um daqueles palacetes que ladeavam os jardins. Eram às centenas, cada um mais exuberante que o outro. Os portugueses acreditavam poder construi-los ainda melhores, com telhados mais inclinados, grades e portões ainda mais rendilhados. Quando a noite chegava regressavam aos “bidonvilles” onde a maioria morava. Cheios de sonhos e ilusões, – nem tudo era lama.
Ainda há bem pouco tempo deixámos as casas de granito com tábuas nas janelas e os animais em baixo nas lojas cujos excrementos quentes nos aqueciam. Ainda há muito pouco tempo os nossos avós cortavam a canivete um pedaço de queijo para comer num naco de pão, os mais abastados uma rodela de chouriço ou um pedaço de toucinho. Vivíamos de azeitonas e broas para molhar nas sopas. As casas nas grandes cidades de Lisboa e Porto não tinham casa de banho, havia um lugar que para tudo servia, separado por uma cortina, ali se faziam as necessidades, ali nos lavávamos, ali despejávamos a água com que lavávamos os legumes. Era o buraco. Ainda hoje encontramos pela cidade balneários públicos. O merceeiro fazia as contas que anotava em papel pardo, logo pagaríamos, se tudo corresse bem, no final do mês. Comprava-se o leite nas leitarias, que já não existem. Os papo-secos ou as carcaças nas padarias que são cada vez menos. Os automóveis passavam de pais para filhos. – Se terminares o curso ficas com o carro do pai. Ainda há pouco tempo os pais sonhavam casar bem as filhas, o mais depressa possível e empregar os filhos na função pública ou num banco – que eram para toda a vida, o trabalho e os casamentos. Já não emigramos tanto mas, nada garante que não voltemos a ter de o fazer. Ainda há pouco tempo a maioria de nós morria à nascença. Hoje estamos melhor, como diz António Barreto no “Portugal – Um Retrato Social”. Mas, não somos melhores - digo eu! Temos menos tempo para os outros, somos mais individualistas. Atropelamo-nos constantemente. E temos pouca memória. Também, há poucos testemunhos. E bem falta nos fazem...



© Gérald Bloncourt


É por estas razões que a exposição do fotógrafo Gérald Bloncourt “Uma vida melhor” que está no Centro Cultural de Belém até 18 de Maio de 2008 se reveste de uma tão grande importância. Porque, mais uma vez, é um estrangeiro a olhar-nos como nós não nos vemos. Gérald Bloncourt olhava para os assustados emigrantes portugueses que fotografava nos bairros de lata, nos anos 50, e pensava: "Que vai fazer? Qual é o seu destino? Ele vai conseguir porque é filho dos grandes descobridores!". E conseguiram. Hoje os portugueses em França são uma comunidade integrada com numerosos exemplos de sucesso empresarial e humano.
Activista político e social Gérald Bloncourt nasceu no Haiti, donde foi expulso para França onde continuou a lutar contra a ditadura haitiana. Fotografou as condições miseráveis em que viviam os trabalhadores portugueses em França nos anos 50, 60’s e 70’s. A entrada nas fábricas, os trabalhos de madrugada no “Les Halles”, então mercado abastecedor de frutas e legumes de toda a região parisiense, a construção da “La Defance”, hoje marca de uma França moderna, mas à época um imenso lamaçal de miséria. Os bairros de lata feitos com os restos de materiais das construções onde trabalhavam como pedreiros, carpinteiros e serventes. As crianças que, enlameadas, transportavam a água que não havia canalizada e tomavam conta umas das outras até ao regresso dos pais, ausentes nos estaleiros ou nos mercados a maior parte do dia.
Gérald Bloncourt também esteve em Portugal nas aldeias do nordeste transmontano donde vinham muitos dos emigrantes que fotografou em França. E, mais tarde, festejou com os portugueses o primeiro 1º de Maio depois do 25 de Abril de 1974, e a revolução dos cravos.

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Excerto do documentário “Gente do salto” de José Vieira



Para além de depoimentos do fotógrafo haitiano sobre o seu trabalho, podemos ver ainda nesta exposição os documentários “Gente do salto” e “Os anos da lama” realizados por José Vieira. “A expressão “o salto” contém a história dos emigrantes que, nos anos 60, partiram de Portugal, sem documentos, em direcção ao norte da Europa (...) O salto” era a emigração clandestina, literalmente o grande salto por cima das fronteiras dos milhares e milhares de portugueses que então fugiram da ditadura de Salazar. “O salto” eram separações e rupturas brutais. Esvaziaram-se aldeias inteiras, em segredo e debaixo de medo. Era a viagem do silêncio. Um acto de resistência e de desobediência que por vezes custou a vida. De tempos a tempos, a policia disparava como se perseguisse prisioneiros evadidos. “O salto era uma evasão que esperava pela amnistia: o regresso ao país. Porém “O salto” foi, quase sempre, a partida definitiva do país.”. Podemos ver no documentário de José Vieira.
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A exposição de "Gérald Bloncourt - Por uma Vida Melhor", foi comissariada por Bernardette Caille, e vai estar no Museu Colecção Berardo até 18 de Maio de 2008. A não perder.
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Ângela Camila Castelo-Branco

Visite o sítio de Gerald Bloncourt e o trabalho de Gérald Bloncourt no sítio do Sudexpresso um espaço virtual de memória e de história das migrações passadas e actuais.



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PONTO DE VISTA

Fotografias de António Barreto

“Portugal, um Retrato Social” de António Barreto é o resultado de mais de dez anos de trabalho, uma vida dedicada a pensar os outros. A pensar a sociedade portuguesa nos últimos 30 a 40 anos.
“Ponto de Vista” não nos mostra apenas o ângulo escolhido pelo fotógrafo quando opta por determinada imagem. Não é o desfecho de uma espera por um “instante decisivo”. “Ponto de Vista” é o olhar do fotógrafo mas, também, do sociólogo que está dentro desse fotógrafo. No caso de António Barreto, um não pode ser desassociado do outro. Não apenas pelo facto de que as suas fotografias serão sempre associadas à ideia que temos do sociólogo/ fotógrafo, mas pela circunstância de que na realidade as fotografias são o resultado do trabalho de um fotógrafo / sociólogo.

Ângela Camila Castelo-Branco



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"PONTO DE VISTA" é a primeira exposição de fotografias de António Barreto. Trata-se de uma selecção de fotografias recolhidas, em 2005 e 2006, durante a rodagem da série Portugal, um Retrato Social, realizado por Joana Pontes.
Em conjunto com a exposição é lançado o livro com o mesmo nome, disponível apenas na FNAC.
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O sociólogo António Barreto está a exibir 38 imagens a preto e branco do Portugal contemporâneo. São momentos captados com uma LEICA durante as rodagens do documentário "Portugal, um Retrato Social", exibido na RTP. Vídeo Artes & Espectáculos 2008-03-03 21:06:17

terça-feira, fevereiro 19, 2008


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Um dia destes o António...


Um dia destes o António enviou-me pelo correio um Almanaque Português de Fotografia de 1958, era o terceiro ano que se editava. Deparei com um aviso dos CTT na minha caixa do correio. O volume, segundo a missiva aviso, era de grande dimensão! Do que se trataria? Só o saberia na segunda-feira, pois que já passava das seis da tarde quando cheguei a casa. Deixei passar o sábado e o domingo tentando não pensar no assunto. Segunda-feira, em pulgas, arrumei o carro a alguma distância da loja dos CTT. Tirei a senha e, enquanto esperava, o empregado atendeu uma senhora que queria um livro do Miguel Sousa Tavares “O Rio das Flores”; logo a seguir, uma mãe comprava para o filho uma bola de futebol Portugal Tam.º1 e uma T-shirt Bem Me Quer – Senhora. Havia para venda a maior variedade de produtos, cheguei a duvidar que ali se vendessem selos ou enviassem cartas. Seria ali que tinha de levantar a encomenda postal! Quando finalmente chegou a minha vez, abri ali mesmo a surpresa do meu amigo. Um Almanaque de fotografia. O Almanaque tem algumas curiosidades e um artigo de um dos maiores fotógrafos portugueses. Em homenagem a Augusto Cabrita, aqui transcrevo “A Luz e o Ritmo na Fotografia”.


A Luz e o Ritmo na Fotografia
por Augusto Cabrita



Quando o fotógrafo por um impulso emotivo, não se contenta apenas em reproduzir mecanicamente a realidade e deseja interpretá-la com um cunho vincadamente pessoal, tem que atende fundamentalmente, aos elementos essenciais da composição fotográfica.
Trataremos, neste artigo sobre composição, de dois desses elementos básicos da arte de compor: a Luz e o Ritmo.
De facto sem luz não pode haver fotografia, e é da sábia escolha desse elemento que o fotógrafo dá plasticidade às imagens. Não basta, pois, - como é vulgar ouvir dizer-se – que uma fotografia “resultou” devido à acção única e exclusiva de um bom fotómetro!...
A célula foto-eléctrica, quanto muito, é um óptimo auxiliar de que o fotógrafo dispõe para “medir” a luz. Mas o que é essencial acima de tudo isto, é saber “interpretar” essa luz! Claro que, ao falar-mos de luz, temos que nos referir às sombras projectadas pelos corpos iluminados e é do equilíbrio entre as partes luminosas e as zonas escuras, que reside muitas vezes o êxito de uma fotografia. Às sombras e às respectivas gradações dentro do claro-escuro, está reservado um papel importantíssimo na composição fotográfica, de tal modo que um fotógrafo deve saber provocar essas sombras, quer usando a luz artificial ou escolhendo a hora ideal do dia para fotografar.
Falando do outro elemento essencial da composição fotográfica – o ritmo é definindo-o como sendo o equilíbrio de pontos de interesse que faz com que a vista realize o seu reconhecimento pela fotografia, sem a deixar “descansar” demasiadamente em quaisquer desses pontos, diremos que do intimo acordo entre estas duas condições – luz e ritmo – resultará o carácter e o ambiente da composição.
Tal como há pouco afirmámos, quando nos referimos ao papel que o fotómetro exerce no espírito de certas pessoas, como único responsável no êxito de uma fotografia, diz-se, por vezes, que certa e determinada fotografia tem vida, apenas porque houve “muita sorte”, da parte do fotografo em apanhar uma série de pessoas em atitudes de franca actividade!
De certo que o factor sorte e a espontaneidade de movimentos, ajudam muito o “caçador de imagens”, mas a grande dificuldade reside, sem dúvida, em saber interpretar esse momento.
E quantas fotografias não há que apesar de serem arrancadas à vida real, não nos infundem uma sensação de vitalidade e de movimento? Por vezes um objecto estático ou uma simples linha sabiamente fotografados podem emprestar-nos uma sensação forte de movimento e um automóvel em desenfreada correria não nos provocar qualquer noção de velocidade.
Tudo depende, pois do arranjo rítmico da imagem! E como tudo na vida é ritmo, se uma fotografia não for organizada de modo a que todos os elementos de que o fotógrafo dispõe sigam esse “caminho fácil” que a vista depois percorrerá, ao ser levada por uma sucessão ordenada de linhas, a fotografia resultará fria, estática – sem vida!
Não é difícil, quando contemplamos uma boa fotografia, descobrirmos a razão porque ela nos infunde essa agradável sensação de vitalidade. Verificamos que essa fonte de energia tem origem na maneira como o fotógrafo concebeu ritmicamente a sua obra, transmitindo-nos a impressão viva de quanto viu e sentiu.
Uma vez traçado esse caminho fácil de percorrer com a vista, verificar-se-á que, através dele não se poderá construir um ARABESCO rítmico, por meio de linhas reais ou fictícias. A linha tem, por si mesma, uma grande potência de direcção e emotividade. A vertical, por exemplo, dá-nos uma impressão de grandeza; à horizontais associa-se imediatamente a ideia de repouso e tranquilidade; a diagonal é essencialmente uma linha de movimento, sugerindo acção , agitação e inquietude, enquanto que a curva nos dá uma doce sensação de graciosidade.
É, pois, através das qualidades emotivas das linhas, que podem ser sugeridas as mais diversas sensações de ambientes e estados de alma.




Análise do ritmo

Para ilustrar o que dissemos acerca do papel que o Ritmo desempenha na fotografia escolhemos três fotografias de autores portugueses, com o fim de, ante a sua representação esquemática, analisarmos a maneira como o fotógrafo realizou a estrutura da sua obra e, ao mesmo tempo, demonstrar que o “clima” criado se deve essencialmente à interpretação que o autor deu ao motivo escolhido (onde a natureza não foi mais que um simples pretexto) dispondo de uma maneira organizada os elementos constituintes da composição. Dissemos também que a linha possuía por si mesma uma grande potência de direcção e emotividade, e que era através das suas qualidades emotivas que poderiam ser sugeridas as mais diversas sensações de ambiente.
Pois bem: A sensação que nos sugere a primeira dessas fotografias que escolhemos para analisar – intitulada “Vento” – é de facto, como pretendeu o autor, o distinto amador Eng. Chagas dos Santos, a de “um dia de vento”!
É certo que um fotógrafo inexperiente, sem quaisquer conhecimentos das mais elementares regras de composição, também poderia ter fotografado este assunto. Todavia, uma vez apresentada a fotografia, verificaríamos que o ambiente criado havia sido mais um assunto de roupa estendida, confusamente disposta, e nunca o de “O dia do vento”!
Para se obter este efeito houve que se escolher o ângulo ideal para a tomada de vista, de modo a que as linhas rítmicas produzissem todo o seu efeito emotivo. Esta fotografia é um exemplo frisante de RITMO ANGULAR, conforme se pode verificar através das linhas tracejadas na sua representação esquemática. O RITMO ANGULAR determina um movimento forte, com direcção muito definida. De facto, ao olharmos para esta prova, sentimos uma sensação forte de movimento da direita para a esquerda - como que um impulso produzido por uma violenta rajada de vento.
É de notar também que todos os “pontos de interesse” desta fotografia, dispostos nesse “caminho fácil” de se percorrer com a vista (referimo-nos à diagonal dominante desta prova) “ajudam”, pelos seus ritmos angulares, a que se obtenha a sensação desejada.

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Repare-se que até a simples árvore, colocada na parte inferior da fotografia, imprime, pela agudeza do ângulo formado pela sua posição inclinada um movimento dinâmico e agitado.
Na realidade, quanto mais agudo for o ângulo mais o movimento se torna violento e incisivo, ao contrário dos ângulos abertos que nos dão a sensação dum movimento lento.
A segunda fotografia que apresentamos para exemplificar outro arranjo rítmico – RITMO EM ESPIRAL – é a prova “Homem do mar”, do autor deste artigo. Se olharmos para a representação esquemática desta fotografia, o desenvolvimento linear do seu arabesco, toma a forma de uma espiral.
De facto, a vista “entra” naturalmente pelo ombro – cuja a posição dá estabilidade à composição – seguindo depois o “seu caminho” num movimento em espiral em redor da cabeça do pescador, para se deter finalmente na borla do barrete – que marca, por assim dizer, o términos “dessa viagem”.
Por último escolhemos para fazer a análise rítmica a magnifica prova – “Dinamismo” do consagrado amador de Coimbra, David de Almeida Carvalho.
Esta fotografia, devido ao seu desenvolvimento linear, é um sugestivo exemplo de um outro arranjo rítmico, ou seja: RITMO EM HÉLICE.

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O rítmico em forma de hélice dá-nos, pelas qualidades emotivas das suas linhas., uma sensação de força, excitação e movimento. De facto, se olharmos detidamente para a fotogravura da prova “Dinamismo” e em seguida para a sua representação esquemática (na qual construímos, em linhas tracejadas, o respectivo arabesco rítmico) verificamos que a nossa vista entra, naturalmente, pela parte inferior esquerda da fotografia, sendo depois levada a percorrer “aquele caminho fácil”, num impulso ascensional, com um breve momento de repouso no primeiro ponto de interesse que encontra: o elemento humano, colocado no “ponto forte” da composição. Este elemento – uma banhista que sobe uma escada - “força” o sentido rítmico da imagem, ajudando a vista a percorrer o resto do “seu caminho”.
O segundo ponto de paragem, dá-se precisamente quando os degraus do primeiro lanço de escada acabam de traçar a primeira curva. Aí, a vista já não se detém tanto tempo quando da “contemplação da figura humana”, pois num breve instante, toma como que alento, para se lançar vertiginosamente NUM MOMENTO HELICOIDAL para os outros degraus da escada, a qual, sempre uniformemente iluminada, contribui para que a vista não se distraia e continue o seu caminho, até novamente se enrolar (agora num movimento mais lento) libertando-se, por fim, ao sair pela parte superior esquerda da fotografia.

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Como vimos, o arabesco rítmico que serve de estrutura a esta prova é uma autêntica hélice, que nos sugere, pelo seu desenvolvimento, uma sensação de potência, excitação e movimento. Está pois absolutamente certo o título que o autor deu a esta prova denominando-a “Dinamismo”. O motivo escolhido – uma escada de cimento armado! – é aos olhos de um leigo em composição fotográfica, um assunto banal, sem expressão, sem movimento – Sem vida. Todavia, a escolha feliz do ângulo e a sua excelente iluminação fizeram deste assunto, aparentemente frio e estático, uma bela fotografia, plena de vitalidade e movimento. A beleza existe, de facto, em toda a parte – a dificuldade é saber encontrá-la!


Augusto Cabrita, Almanaque Português de Fotografia, 1958
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segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Pour mes amis, mes amours et mes emmerdes
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© Fotografias Charles Aznavour


Dia 23 de Fevereiro Aznavour actua mais uma vez em Portugal. Sendo um dos meus cantores franceses preferidos este seria já motivo para o lembrar mas, de facto, são outras as sensibilidades que me fazem trazê-lo aqui. Quando o intérprete da canção francesa se exprime em 24x36 ou em ektas diz-nos que a fotografia é uma arte de consolar, de amar e de exaltar.
No livro “Images de ma vie” Aznavour mostra ao público os seus álbuns de fotografias. Essas fotografias são aquelas que o cantor fez dos momentos em família, dos amigos e dele mesmo mas, são também aquelas que Aznavour fez dos outros pelo mundo onde andou.
As fotos falam de um Aznavour que não é apenas a voz. Ninguém é apenas aquilo que os outros pretendem!
Em 2007 Aznavour falou sobre fotografia no “Salon de la Photo”. Escutem o que ele diz sobre a fotografia no Photographie.com carregando sobre o link.
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Ângela Camila Castelo-Branco

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Non, Je N'ai Rien Oublié - Charles Aznavour

domingo, fevereiro 17, 2008

Milagres do tempo presente

Dedico este artigo a Gérard Castello Lopes

As duas fotografias que hoje me servem de tema ganharam prémios do World Press Photo 2007. À esquerda, na foto do búlgaro Ivaylo Velev, o esquiador Philippe Meier é perseguido por uma avalanche em Flaine, França, em 15.03.2007. Velev ficou em primeiro na categoria de acção desportiva. À direita, a foto de Miguel Barreira, do Record, ficou em terceiro nessa categoria; mostra o surfista Jaime Jesus no campeonato português em 16.12.2007 alçando-se habilmente duma onda violenta na Nazaré (ver todas as imagens no blogue do PÚBLICO http://blogs.publico.pt/artephotographica/).


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Essas são as circunstâncias das duas fotografias; elas são aqui irrelevantes. Certamente não o foram nem para os desportistas, que correram perigo, nem para os fotógrafos que as viveram do lado de lá da câmara. Mas nenhuma delas foi pr emiada pelas acções desportivas dos seus protagonistas. A única circunstância importante dos dois momentos decisivos nas imagens é conhecermos o seu devir: os desportistas não sofreram com gravidade em consequência dos actos da natureza que vemos. Venceram as ameaças gigantescas que nos são dadas ver.
O que interessa nas fotografias, é, assim, e apenas, as próprias fotografias. Elas sobreviveram em primeiro lugar pela beleza. Aplicando o que o antropólogo Julio Caro Baroja escreveu em contexto só aparentemente afastado, ‘as formas de ritual que têm um valor estético resistem ao tempo’. É o caso.
Ambas as fotos confirmam e contrariam a essência da fotografia em simultâneo: capturam um momento fixo, único; mas dão-nos também, na rigidez desse momento, a história do antes e principalmente do depois. Não são só a acção em imagem, são a imagem em acção. Tal como a foto do homem que salta de uma das Torres Gémeas, estamos perante duas imagens provocadoras da imaginação, construtoras de narrativas.
Há mais semelhanças entre elas. Cada uma mostra um único homem, não identificável. A identidade é tornada irrelevante pela distância e pelas circunstâncias que cada um vive. No caso do esquiador, a cara está tapada pelo equipamento de protecção. No caso do surfista, a distância impede que lhe reconheçamos as feições. Aqui entra uma primeira dimensão cultural das duas fotos -- simbólica ou representacional, se se quiser: estes dois homens poderiam ser qualquer um, qualquer outro. Eles são eles e ao mesmo tempo todos os homens. Apesar de a circunstância revelar a sua valentia, não estão aqui como heróis, pois mais parece que os rodeia uma força exterior a eles.
Assemelham-se também as duas imagens por mostrarem os protagonistas rodeados pelo elemento água: gelada no primeiro caso, líquida no segundo, a água ocupa tudo o que há. E a água está nos dois casos em revolta, em avalancha sobre o esquiador, em onda gigantesca envolvendo o surfista.
Os desportistas estão em perigo. A água representa aqui em primeiro lugar a morte e não surge aparentemente como a fonte de toda a vida. É uma massa indiferenciada que ameaça submergir os homens. É uma representação simbólica da dissolução, do dilúvio que revela a fragilidade do homem: ‘Salvai-me, ó Deus, porque as águas quase me submergem. Estou a afundar-me num lamaçal profundo, não tenho ponto de apoio; entrei no abismo de águas sem fundo e a corrente está a arrastar-me’ (Salmos, 69, 1-2).


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As duas imagens parecem distinguir-se quanto à capacidade de o homem se afirmar perante o elemento em fúria. Vemos o esquiador mais próximo de ser esmagado do que o surfista, porque o primeiro está na metade inferior da fotografia e o segundo na metade superior. A ameaça ao esquiador é, porém, organizada com linhas rectas do gelo a cair em grossas cordas. A ameaça não passa da metade superior. Há, a meio da imagem, uma zona neutra e o esquiador fica a salvo não só por causa dessa distância como devido à sua posição: a forma triangular que assume com os esquis e o bastão resguarda-o. E, pelo movimento de fuga, em menos de um ápice o esquiador estará fora da fotografia, e esse devir é mostrado na imagem fixa. O gelo que cai, a zona neutra e o corpo do homem em movimento seguem todos na mesma direcção, o canto inferior direito seguindo a diagonal que parte do canto superior esquerdo.
No caso do surfista, quase não há linhas rectas. A onda do mar é um remoinho, um vórtice que suga em direcção ao centro exacto da fotografia. É aí que está o fundo, o abismo, o ponto mais negro do mar na imagem. Acontece, porém, que a imagem nos dá uma sensação de que o homem não corre perigo. O corpo do homem, num magnífico movimento, acompanha a direcção da onda, mas ele está suspenso, acima da onda, acima do centro do abismo. O seu movimento ascensional diz-nos que ele salvar-se-á. Tal como o gelo, estas não são águas de dilúvio, mas afinal de renovação da vida. Nós sabêmo-lo porque há uma harmonia geométrica perfeita, e a perfeição é divina. O surfista está colocado exactamente acima do cruzamento das diagonais da fotografia. Ele está na metade superior da fotografia porque voa, foge da água em direcção ao céu enquanto o esquiador tinha de estar na metade inferior da fotografia porque foge da água que cai do céu, foge em direcção à terra. Atenção: o surfista está protegido pelo céu, mas também o esquiador, porque ambos estão no ar, não tocam no elemento em fúria, eles andam sobre as águas: poder divino, poder do homem forte e hábil que o desportista representa? Será como o leitor quiser receber estas imagens: mas em qualquer caso, não temerá por eles.
Estando no Centro simbólico das imagens, os seus protagonistas não só representam a Ordem como a vitória sobre o Caos que os ameaça. Nas fotos, para mais, o Caos aparece organizado. Ambos os homens sugerem triângulos, símbolos de divindade, harmonia e proporção. E a fúria da Natureza é geometrica. As duas fotografias transmitem esteticamente essa dupla visão do Caos e da Ordem.
É assim. As imagens dão-nos realidades, mas realidades aparentes. Elas só ganham sentido com a carga simbólica, sagrada ou profana, que transportam elas e que transportamos nós. São os símbolos que tornam estas imagens não só universais como transparentes, que nos permitem ver a transcendência, o mundo e o homem. Podemos camuflar os mitos e os símbolos, mas são eles que nos salvam. Merecem prémios.
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Eduardo Cintra Torres in "Olho Vivo", Público 16 de Fevereiro de 2008

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sábado, fevereiro 16, 2008

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Pedro Letria
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São Trindade

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"O Mundo é belo" de Pedro Letria
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de São Trindade "Sobreviver a uma cidade de futebol"
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21 de Fevereiro de 2008. às 18:30
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Rua da Palma, 246 Lisboa
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Telf.21 886 23 32
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Os Livros de Daniel Blaufuks
28 de Fevereiro de 2008 a 28 de Março de 2008

Conversa entre Nuno Crespo e o Autor
Quinta-Feira 28 de Fevereiro de 2008, às 17 horas
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Um mundo igual a este, mas um bocadinho diferente.

"A fotografia é um espaço. A fotografia é uma memória. Fotografia é um texto. A fotografia é um postal. A memória é uma imagem. Um livro de fotografias bem desenhado pode criar um novo tipo de original."

Estas afirmações de Daniel Blaufuks partem da consciência de que a imagem fotográfica é constituida de inúmeras camadas de sentido em que a relação entre memória e realidade conhece novas dimensões.

Trata-se de, primeiro, distinguir entre a imagem-facto e imagem-fotografia, esta é um objecto com uma escala e narrativa próprias, a outra diz respeito aos diferentes modos de como o real se inscreve nos corpos, na inteligência, na sensibilidade.

As categorias de interpretação da fotografia estão presas não só à pratica que cada indivíduo, artista e fotógrafo a cada momento definem, mas do modo como essas imagens participam da vida colectiva da comunidade em que se inserem. É neste contexto que o livro de fotografia (também podemos designá-lo como álbum, atlas, colecção e, até certo ponto, arquivo) é uma outra existência da imagem-fotografia. É esta existência que os livros de Blaufuks dão conta...

Nuno Crespo

Arquivo Municipal de Lisboa /Biblioteca do Arquivo Fotográfico

Rua da Palma, 246 Lisboa

Telf.21 886 23 32

arqmun.fotografico@cm-lisboa.pt

O "Sítio" do Daniel Blaufuks


© Daniel Blaufuks. I Spy, da série Collected Short Stories, 2003
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sexta-feira, fevereiro 08, 2008


FOTÓGRAFOS DA CASA REAL


Palácio Nacional da Ajuda

17 de Fevereiro de 2008 às 15:00 horas

No Palácio Nacional da Ajuda uma visita guiada cujo tema é “Fotógrafos da Casa Real”, a qual será orientada pela conservadora da colecção de fotografia do palácio, a Dr.ª Mª do Carmo Rebello de Andrade. A visita está sujeita a marcação prévia e tem o limite de 30 pessoas.

Informações:

Palácio Nacional da Ajuda / Museu Calçada da Ajuda 1349-021 Lisboa

Tel 213637095

Fax 213648283

www.ipmuseus.pt/

www.ippar.pt/monumentos/palacio_ajuda.html

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quarta-feira, fevereiro 06, 2008

HOTEL CHELSEA, NY
"Um lugar mágico"




Capa do Le Monde 2. “Hotel Chelsea, New York”, Fotografia de Rita Barros


O assunto “Une legende que s’éteint” faz a capa do "Le Monde 2" de 1 de Fevereiro de 2008, com uma fotografia de Rita Barros. No interior algumas fotografias ilustram a reportagem sobre a agonia do mítico hotel nova-iorquino. A fotógrafa portuguesa vive em New York desde 1980, foi para lá estudar, a cidade trocou-lhe as voltas “Rapidamente arranjei amigos, também saía muito, NY era super divertido, mas assim daquelas coisas que a gente não tem tempo para ir às aulas, e pronto, rapidamente gostei muito, e festas, era uma altura em que havia muito dinheiro e em que, de facto, viver era fácil. Trabalhar era uma coisa, género ganhar rapidamente assim o que houvesse a ganhar e continuar.” (som), In ©2001 Walk Don't Walk, de Laurent Simões. Rita vive no último andar do Chelsea Hotel no mesmo quarto onde esteve o inventor dos satélites, Arthur C. Clarke que escreveu "2001: Odisseia no Espaço" enquanto aí esteve hospedado. Rita Barros já editou um livro de fotografias “Chelsea Hotel fifteen years” em 1999. E não me surpreenderia se editar um segundo com muitas fotografias e histórias deste hotel mítico, verdadeiro ícone da cultura nova-iorquina.

Velho de 125 anos o Chelsea aguenta. Tem resistido desde 1883 altura em que foi construído no bairro de Chelsea, em Manhattan, Nova Iorque. Situa-se no 222 de West Street 23º, entre as Sétima e Oitava Avenidas. Foi o primeiro condomínio “cooperativa de habitação” de Nova Iorque. De rendas baixas e residentes modestos, trabalhadores imigrantes italianos, irlandeses, polacos, alguns judeus que viviam do comércio e de outras actividades portuárias nas docas de Hudson ali mesmo ao lado. Em 1905 a cooperativa foi vendida e passou a ser um Hotel. Foi só em 1939 que o pai de Stanley Bard, um imigrante húngaro que tinha feito fortuna, adquiriu o hotel em sociedade com alguns amigos. Em 1957 o pai de Stanley Bard nomeia-o delegado do Chelsea Hotel. Hoje o hotel recebe hóspedes, mas é mais conhecido pelos seus residentes de longa duração, do passado e do presente. Em 1968 Stanley Bard hospedou um jovem checo que não gostava dos tanques soviéticos a passearem pelas ruas de Praga e por isso resolveu fugir para o outro lado do atlântico. Acabado de chegar a New York, sem dinheiro, ficou combinado que só pagaria a estadia no Chelsea quando se concretizasse a pretensão que trazia de realizar um filme. Bard perguntou-lhe como se chamava. Ao que este lhe respondeu: "... no passaporte está escrito Jan Thomas Forman mas, todos me tratam por Milos". O jovem cineasta, então com 36 anos, só veio a pagar a renda 2 anos depois com o êxito de Taking Off (1971), uma sátira hilariante. Ficaria no Chelsea por mais três anos, a trabalhar no argumento do “One Flew Over the Cuckoo's Nest” (em português: Voando sobre um Ninho de Cucos), que estreou em 1975. Um filme que é uma adaptação de um romance de Ken Kesey, que foi produzido pelo actor Michael Douglas e que marcaria a carreira de Milos Forman. Ainda hoje, quando visita Nova Iorque, Milos fica hospedado no Chelsea Hotel.




"Como se fuma um charro"




Não resisto - até pelo fundamentalismo anti tabagista que nos rodeia, em deixar aqui um excerto de 'Taking Off' de Milos Forman (1971), How to smoke a joint – (Como se fuma um charro). Milos Forman deve rir-se do facto de hoje em dia, haver um 'Não Fumar' no átrio do hotel.


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São muitas as estórias e não menos os nomes de gente célebre que encontrou no Chelsea um abrigo, um lugar privilegiado de inspiração e magia. Paul Morrissey e Andy Warhol dirigem “Chelsea Girls (1966). O filme foi o primeiro grande sucesso cinematográfico de Warhol. Tendo como cenário o Hotel Chelsea e outros locais de New York, documenta a vida das jovens que aí vivem. O nome é uma óbvia referência ao local onde decorreram as filmagens. Filmado no Verão e início do Outono 1966, em várias salas e locais no interior do Hotel Chelsea, mas vale a pena esclarecer que, de todos aqueles que entravam no filme, só o poeta René Ricard realmente vivia ali na altura. Também se filmou na The Factory, Warhol's studio.
A cantora de música popular, modelo e actriz alemã Christa Päffgen (1938–1988) foi discípula de Warhol, mais conhecida pelo seu pseudónimo Nico, e foi uma das "Warhol Superstar", em "Chelsea Girls".
O Hotel Chelsea é frequentemente associado ao "Warhol Superstars" e o filme "Chelsea Girls" (1966), um filme sobre a sua "Factory" e a vida das "Warhol Superstars": Edie Sedgwick, Viva, Larry Rivers, Ultra Violet, Mary Woronov, Holly Woodlawn, Andrea Feldman, Nico, Paul América, e Brigid Berlinno como residentes do Hotel Chelsea.




Nico canta Chelsea Girls in the Chelsea Hotel




No Hotel Chelsea passaram ou permaneceram por longos períodos, escritores e pensadores como: Mark Twain, O. Henry, Herbert Huncke, Dylan Thomas, Arthur C. Clarke, William S. Burroughs, Gregory Corso, Leonard Cohen, Arthur Miller, Quentin Crisp, Gore Vidal, Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Jack Kerouac (que aí escreveu On the Road ), Robert Hunter, Jack Gantos, Brendan Behan, Simone de Beauvoir, Robert Oppenheimer, Jean-Paul Sartre, Bill Landis, Michelle Clifford, Thomas Wolfe, Charles Bukowski, Matthew Richardson , Peggy Biderman, Raymond Foye, e René Ricard. Charles R. Jackson, autor de The Lost Weekend, cometeu suicídio nos seus aposentos, no Chelsea a 21 de Setembro de 1968. Por lá passaram também actores e realizadores como: Stanley Kubrick, Shirley Clarke, Cyndi Coyne, Mitch Hedberg, Miloš Forman, Lillie Langtry, Ethan Hawke, Dennis Hopper, Eddie Izzard, Kevin O'Connor, Uma Thurman, Elliot Gould, Jane Fonda, e Gaby Hoffmann e sua mãe, a estrela "Warhol Superstar" Viva e Edie Sedgwick. Ali moraram, mais ou menos tempo, músicos como: The Libertines, Tom Aguarda, Patti Smith, Virgil Thomson, Dee Dee Ramone do grupo "The Ramones", Henri Chopin, John Cale, Édith Piaf, Joni Mitchell, Marty Connolly, Bob Dylan, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Sid Vicious, Richard Hell, Ryan Adams, Jobriath, Rufus Wainwright, Abdullah Ibrahim / Sathima Bea Benjamin, Leonard Cohen e Anthony Kiedis.


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Patti Smith e Robert Mapplethorpe no Hotel Chelsea


O Chelsea foi ainda um lugar mágico para artistas plásticos que ali pernoitaram ou se deixaram ficar em estadias mais ou menos longas, ali viveram, ali se abrigaram e ao Hotel deixaram algumas das suas obras: Larry Rivers, Brett Whiteley, Christo, Arman, Richard Bernstein, Francesco Clemente, Philip Taaffe, Michele Zalopany, Ralph Gibson, Robert Mapplethorpe, Frida Kahlo, Diego Rivera, Robert Crumb, Jasper Johns, Claes Oldenburg, Vali Myers, Donald Baechler, Herbert Gentry, Willem De Kooning, John Dahlberg e Henri Cartier-Bresson. O pintor e etnomusicologista Harry Smith viveu e morreu no quarto 328. O pintor Alphaeus Cole viveu no Chelsea os últimos 35 anos da sua vida, onde acabou por morrer em 1988, com 112 anos. Charles James: couturiers do século XX, influenciaram a moda nos anos de 1940 e 50 - Em 1964 mudaram-se para o Chelsea Hotel, onde criaram um pequeno estúdio, mas que atraiu poucos clientes. James morreu de pneumonia no Chelsea Hotel, em 1978.




Um "concerto" ao Chelsea Hotel
“Sarah” Bob Dylan in Chelsea Hotel
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"Sara" by Bob Dylan, which refers to "Staying up for days in the Chelsea Hotel, writing Sad Eyed Lady of the Lowlands for you".


LEONARD COHEN'S CHELSEA HOTEL AT MIDNIGHT
Chelsea Hotel/Leonard Cohen/Rufus Wainwright








David Van Tieghem - Live at the Chelsea Hotel






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New York Skyline. Fotografia de Rita Barros

Ângela Camila Castelo-Branco, APPh.

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sexta-feira, fevereiro 01, 2008


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Dos Anos do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa
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Na sequência de uma iniciativa da Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (FAUP) e do jornal “O Primeiro de Janeiro”, e tendo por base uma selecção de fotografias (70), a exposição "Dos Anos do Inquérito à Arquitectura Regional Portuguesa" pretende dar a conhecer uma determinada realidade arquitectónica, antropológica e etnográfica de Portugal. As fotografias têm origem no arquivo profissional do arquitecto António Menéres, enquanto membro da Zona 1 da equipa do inquérito produzido pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos no final dos anos 50 e tornado público no ano de 1961. A exposição que agora se apresenta na Direcção-Geral de Arquivos (DGARQ) / Arquivo Nacional da Torre do Tombo (ANTT), mostra o percurso fotográfico resultante da acção do arquitecto. O resultado deste trabalho é uma exposição itinerante, que já esteve exposta na FAUP e no Arquivo Distrital de Braga/Unidade Cultural da Universidade do Minho e que agora se apresenta em Lisboa, acompanhada de um Livro/ Catálogo (disponível para aquisição na Loja da DGARQ/ANTT) que fixa e amplia a dimensão do material expositivo.
A exposição está patente ao público, na sala de exposições do ANTT (Alameda da Universidade, 1649-010 Lisboa), de 11 de Janeiro a 22 de Fevereiro de 2008, nos dias úteis das 10h às 19h e aos Sábados das 10h às 12h.
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quinta-feira, janeiro 31, 2008



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L'ancêtre du porte cartes mémoire. (Tony Cenicola/The New York Times)


Robert Capa e "La valise mexicaine"


Desaparecida desde 1939, “la valise mexicaine” de Robert Capa que na verdade não é uma, mas três malas de negativos, acabam de ser devolvidas por um cineasta mexicano, Benjamin N. Traver. O fotógrafo tinha confiado estas três malas ao seu assistente Imre (Csiki) Weisz antes de fugir para os Estados Unidos da América. Agora que foram encontradas, elas trazem consigo algumas questões. Julgava-se que Weisz as tinha dado a um Cônsul mexicano em Marselha, antes de ter sido preso e de ter sido enviado para um campo na Argélia. Por isso, e se foi realmente assim, como se explica que depois da sua libertação, ele não tenha procurado os negativos (na altura nas mãos do General Aguilar Gonzalez que os tinha levado com ele para o México) ?
Imre Weisz entrevistado pelo biografo de Robert Capa, Richard Whelan, em 1985, nunca deu indícios que permitissem localizar os negativos...Ele hoje está morto, mas foi precisamente no México que acabou os seus dias (casou com a pintora surrealista Leonora Carrington).
Depois da reaparição surpresa dos negativos na Internacional Center of Photography (ICP) em Nova Iorque, “une onde de choc parcours la planète photographique”. A descoberta destes filmes, que pertenciam tanto a Capa como a Gerda Taro e David ‘Chim’ Seymour, reabrem a discussão. O original da célebre foto do soldado espanhol, atribuída a Capa e publicada a 23 de Setembro de 1936 na revista VU, estará ele no meio dos 3 500 negativos perdidos à 69 anos? Poderemos esclarecer, enfim, a autenticidade do “cliché”? Por exemplo, em Lés Photos Icons (Ed. Taschen, 2002) Hans-Michael Koetzle interroga-se: “Como é que um homem que está a descer uma ladeira e é alvejado, pode cair para trás?”
A fotografia será encenada? O homem terá sido realmente baleado? E depois falta confirmar de quem é na verdade a imagem. Brian Wallis, o chefe dos conservadores do ICP, já disse que a emblemática fotografia pode ser de Taro e não de Capa... Uma coisa é certa, os direitos sobre os clichés de Gerda Taro na posse do ICP, serão assegurados pela Magnum, assim como os negativos de Capa e de Chim que forem encontrados nas malas.



Morte de um miliciano, Robert Capa, (?) Cerro Muriano, 1936 (25,5 x 35cm)


Texto original no blogue Photographie.com
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