sexta-feira, abril 08, 2011

“Portugal 75”, de Elisabeth Lennard.




“Em Agosto de 1975, a fotógrafa Elizabeth Lennard passou três semanas em Portugal a recolher impressões de um povo recentemente libertado:

Portugal estava totalmente impreparado para uma revolução. É um país perigosamente desorientado, economicamente deprimido e tecnologicamente e socialmente atrasado – especialmente nas zonas rurais. Nas aldeias a Igreja Católica continua a deter o poder. A maior parte dos camponeses viveu de uma certa forma durante centenas de anos e não é capaz de mudar. Um dia, numa pequena vila, vimos um grupo de mulheres ajoelhadas à porta de uma igreja. No centro da igreja havia uma estátua de um santo coberta de dinheiro. A Igreja é tão rica e no entanto esta gente faminta continua a dar o pouco que tem. Nas cidades as pessoas são mais sofisticadas mas a pobreza continua a ser extrema. Enquanto que as zonas rurais lembram a América dos anos 50, os centros urbanos evocam mais São Francisco em 1967. O ambiente é enérgico – como se as ruas tivessem sido injectadas de adrenalina. Cartazes coloridos e panfletos escondem uma economia em degradação e um desvanecer da elegância do Velho Mundo. Num café da moda local jovens fumam erva angolana, e um dos mais elegantes restaurantes de Lisboa foi “libertado” transformando-se num ponto de encontro informal e descontraído para trabalhadores e revolucionários. A pornografia é agora legal mas a censura política na imprensa continua. Na Praça do Rossio, a praça central de Lisboa onde as pessoas costumavam reunir-se para discutir futebol, debate-se agora política – por vezes até às duas ou três da madrugada. E todos os cartazes partidários e os graffitis que se encontram por toda a praça – e em todos os outros sítios –supostamente um barómetro da situação, rapidamente são cobertos pelos miúdos de rua com a retórica de uma facção oposta. Ninguém parece saber o que vai acontecer a seguir. É como estar preso no tempo; um povo atrasado e desorientado com um governo progressista e desorganizado. De acordo com um lisboeta, até os hábitos de condução foram afectados. As pessoas costumavam ser razoavelmente civilizadas e conscientes, mas agora conduzem como loucas”. in revista Rolling Stone, Novembro 1975




































































segunda-feira, abril 04, 2011

Galeria Pente 10 - Fotografias “Portugal 75”, de Elisabeth Lennard.

A Galeria Pente 10 – Fotografia Contemporânea inaugura no dia 7 de Abril, quinta-feira, a exposição “Portugal ‘75”, de Elizabeth Lennard.


Boy on tank.

Vintage hand painted silver gelatin print, ed 1/3, 28 x 36 cm


“Em Agosto de 1975, a fotógrafa Elizabeth Lennard passou três semanas em Portugal a recolher impressões de um povo recentemente libertado:

Portugal estava totalmente impreparado para uma revolução. É um país perigosamente desorientado, economicamente deprimido e tecnologicamente e socialmente atrasado – especialmente nas zonas rurais. Nas aldeias a Igreja Católica continua a deter o poder. A maior parte dos camponeses viveu de uma certa forma durante centenas de anos e não é capaz de mudar. Um dia, numa pequena vila, vimos um grupo de mulheres ajoelhadas à porta de uma igreja. No centro da igreja havia uma estátua de um santo coberta de dinheiro. A Igreja é tão rica e no entanto esta gente faminta continua a dar o pouco que tem. Nas cidades as pessoas são mais sofisticadas mas a pobreza continua a ser extrema. Enquanto que as zonas rurais lembram a América dos anos 50, os centros urbanos evocam mais São Francisco em 1967. O ambiente é enérgico – como se as ruas tivessem sido injectadas de adrenalina. Cartazes coloridos e panfletos escondem uma economia em degradação e um desvanecer da elegância do Velho Mundo. Num café da moda local jovens fumam erva angolana, e um dos mais elegantes restaurantes de Lisboa foi “libertado” transformando-se num ponto de encontro informal e descontraído para trabalhadores e revolucionários. A pornografia é agora legal mas a censura política na imprensa continua. Na Praça do Rossio, a praça central de Lisboa onde as pessoas costumavam reunir-se para discutir futebol, debate-se agora política – por vezes até às duas ou três da madrugada. E todos os cartazes partidários e os graffitis que se encontram por toda a praça – e em todos os outros sítios –supostamente um barómetro da situação, rapidamente são cobertos pelos miúdos de rua com a retórica de uma facção oposta. Ninguém parece saber o que vai acontecer a seguir. É como estar preso no tempo; um povo atrasado e desorientado com um governo progressista e desorganizado. De acordo com um lisboeta, até os hábitos de condução foram afectados. As pessoas costumavam ser razoavelmente civilizadas e conscientes, mas agora conduzem como loucas”.

in revista Rolling Stone, Novembro 1975


Miners with their dogs, interior of Portugal, 1975

Vintage hand painted silver gelatin print, ed 1/5, 25 x 35 cm

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Stairway, Lisbon, 1975

Digital pigment print on Hannemuhle paper, ed. 1/15, 29 x 42 cm


Biografia


Fotógrafa e realizadora americana, Elizabeth Lennard vive e trabalha em Paris. Participou em numerosas exposições individuais e colectivas, em França e no estrangeiro, nomeadamente no Centro Georges Pompidou, Art Cologne, Caixa Nacional dos Monumentos Históricos e dos Sítios em Paris. Entre os seus filmes importa referir Tokyo Melody – sobre Ruichi Sakamoto, Rencontro avec Gisèle Freund ou Mardis Gras d’après Blaise Cendrars.

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A exposição consiste em 22 imagens a cores, obtidas em 1975.


Elizabeth Lennard Portugal ‘75


Galeria Pente 10 - Travessa da Fábrica dos Pentes, 10 (ao Jardim das Amoreiras)


1250-106 Lisboa


Tel. 91 885 15 79 /21 386 95 69


Contacto: Catarina Ferrer catarina@pente10.com http://www.pente10.com/


Inauguração quinta feira, 7 de Abril, às 19H00.


A exposição estará patente até 14 de Maio de 2011


Horário: 3ª a Sábado, 15H00 às 19H30


Metro: Rato

Lisboa, da Avenida Dona Amélia à Almirante Reis.


domingo, abril 03, 2011

"A Prospectus Archive", exposição de Paulo Catrica no Museu da Electricidade.



















PRESS RELEASE

O guarda-roupa no silêncio do sótão, candelabros em repouso no armazém, veludos e talha dourada. A antiga sala das costureiras, o camarim do maestro, velhas oficinas e carpintarias. Entre 2005 e 2009 Paulo Catrica viajou pelo interior do Teatro Nacional de São Carlos, percorrendo espaços públicos e mergulhando na privacidade dos seus bastidores. TNSC - A Prospectus Archive é o resultado desse trabalho fotográfico, que permitiu documentar cenários, alguns dos quais deixaram entretanto de existir.

"Há um teatro por detrás do teatro". Um mundo secreto que é-nos revelado e no qual figuramos "como personagens de uma peça imaginária", descreve João Pinharanda, comissário da exposição.

TNSC - A Prospectus Archive, que está patente no Museu da Electricidade (Sala Cinzeiro 8) até ao dia 22 de Maio, surge no âmbito de uma parceria entre a Fundação EDP e o TNSC que, em 2005, encomendou a vários fotógrafos um levantamento das instalações daquele que permanece como o único teatro de ópera do país.













































Dentro de...

Abordamos estas imagens como se nos fosse possível estar nos locais que elas descrevem. Há um sentido de percurso e penetração, por um lado, e um sentido de conhecimento e posse, por outro. O percurso é pelo interior de um corpo; o conhecimento é do espaço que esse corpo define, com tudo o que ele contém. Tal espaço é evidentemente físico; mas é, também, espaço simbólico, lugar de inscrição e construção de memórias várias. Sendo assim, estas fotografias não descrevem os lugares que registam, inventam-nos.

Paulo Catrica tomou as suas imagens numa fase de transição do TNSC - quando se anunciava uma iminente e pragmática remodelação das funcionalidades de certas zonas obsoletas de trabalho face à desejada imutabilidade cenográfica e preservação histórica dos espaços públicos. A urgência documental da tarefa conduziu então o artista para os bastidores do Teatro; e tornou numericamente secundário o seu interesse pelas zonas públicas de circulação, ou seja, corredores, camarotes e frisas, balcões, plateia, boca de cena e palco.

Mas a verdade é que, talvez, no trabalho visual de Catrica, esse interesse pelas zonas não-acessíveis supere qualquer programa documental prévio; e se sustente na própria vertigem do artista pelo que se situa fora de cena, pelo não-arquitectónico, pelo não-decorativo, pelo irregular e desarrumado. De facto, independentemente dos espaços que são privilegiados nestes registos, apenas tangencialmente ou a posteriori se adequa classificar estas fotos como "documentos". O autor fala, antes, de narrativas – e as suas fotos são, sem dúvida, narrativas: carregadas ou despidas de informações dos que habitam o espaço, dos que o ocupam e modelam, dos que nele deixam marcas de excesso ou depuração, de bom gosto ou kitsch, de tranquilidade ou tensão. Porém, a derradeira narrativa é a que estrutura o próprio trabalho apresentado. É ela que inventa para nós aquilo que deveremos ver. Imagem a imagem, arrasta as sombras e abre a luz sobre as maquinarias de cena, segmenta os lugares de espera e trabalho, desmultiplica os espaços e as coisas nos espelhos, espalha as ferramentas, instrumentos, papéis… pelas mesas, matiza a luz, escurece os cantos, confronta tempos contraditórios, contrabalança a crueza, agressivamente anónima, da repartição pública com memórias que acentuam os elementos de identificação poética do lugar... É certo que toda a memória é construída e que toda a construção é uma invenção. E se a sistematização das memórias implica o seu registo e classificação, assim se chega a um arquivo que é também, sempre, construção e invenção... discurso que só a fotografia (uma exposição e um livro de fotografia) permitiriam abrir a tantas ficções.

Há um teatro por detrás do teatro, um texto que se ouve por detrás do texto, um olhar diverso, em enquadramentos de proximidade, que vê para além do olhar público, que apenas se dirige ao palco. Estando estas imagens totalmente esvaziadas de figuras humanas, é tudo o resto, os restos dessa presença obsessiva, aquilo que compõe as narrativas que nos são oferecidas. E, no mundo secreto que assim possuímos e conhecemos, somos nós a presença real destas fotos. Personagens de uma peça imaginária que encena um mundo sem função, onde tudo é pouco óbvio, onde o espaço penetrado e percorrido quase não nos permite recuo, nem do campo de visão nem da experiência do tempo. É isto que garante, para todo aquele passado, um presente perpétuo; e, para todos aqueles espaços obstruídos, a clareza final de quem vê uma sala de talha dourada e veludos pesados onde o mundo inteiro parece poder resolver-se em representação e música.


João Pinharanda


























Paulo Catrica, nasceu em 1965, Lisboa. Estudou fotografia no Ar.Co., licenciou-se em História na Universidade Lusíada e o Mestrado em Imagem e Comunicação no Goldsmiths College, em Londres. Frequenta actualmente, como bolseiro da Fundação da Ciência e Tecnologia, o programa de doutoramento em Estudos de Fotografia da Universidade de Westminster, em Londres.

Desde 1997 desenvolve um interesse particular pela fotografia de paisagem urbana, em particular por espaços periféricos e/ou suburbanos, persistindo no seu trabalho a ideia de associar arquitectura (objecto) com o contexto evolvente e o uso quotidiano.

Expõe e edita regularmente em Portugal e no estrangeiro desde 1998. Foi nomeado para o prémio BESPhoto (2005). Das exposições individuais recentes destacam-se No Ruses so to Speak na Galeria Quadrado Azul, Lisboa (2008) e H08 no Silo, Porto (2009). Concluiu recentemente projectos de encomenda para a Photographers Gallery, Londres (2009) e para a Casa das Histórias Paula Rego (2009). Desenvolveu um projecto comissariado por Greg Hilty, curatorial director da Lisson Gallery, para uma residência artística no arquipélago das Galápagos (2010).


MUSEU DA ELECTRICIDADE

Avenida Brasília - Central Tejo



















Patente ao publico de 31 de Março a 22 de Maio de 2011.

sábado, abril 02, 2011

Lançamento do livro "Seis Pintores" de José-Augusto França.

© Fotografia Ângela Camila Castelo-Branco Dia 5 de Abril, às 18h30 no MNAC - Museu do Chiado.

Prisma da semana - C.C.B.

Museu Colecção Berardo, Lisboa 2010.