quarta-feira, abril 18, 2012

Esperança.


Campo de S. Francisco, Ponta Delgada, Açores
Fotografia Ângela Camila Castelo-Branco



É um dia húmido de Novembro. São Miguel está, como quase sempre, sob uma espessa camada de nuvens. Azorian torpor é como os ingleses chamam a esta atmosfera opressiva, obsidiante, que não só atormenta o corpo como parece infiltrar-se e assediar a mente. Na baixa de Ponta Delgada, ao lado da Tabacaria Açoriana, fica a loja de quinquilharias de Benjamim Ferin. Antero entra na loja e cumprimenta o empregado. Está calmo, tranquilo. Pergunta se tem revólveres à venda. O empregado olha-o surpreendido. Antero, sorri:

- Sabe, vou morar para um local longe de vizinhança. Com os ratoneiros que andam por aí, é bom estar prevenido.

- Sem dúvida, senhor doutor. É mais prudente estar prevenido.

E vai buscar as armas que tem para venda. Antero analisa-as uma a uma. Acaba por optar por um revólver Lefaucheux. O empregado ensina-o a carregá-lo.

- Nunca peguei numa arma de fogo...

O homem dá-lhe mais algumas explicações. Quando vai a retirar as balas do tambor, Antero diz-lhe:

- Não, não. Deixe-o assim, já pronto.

O homem obedece, mas avisa de que convém nunca esquecer que a arma está carregada, pronta a disparar. Às vezes há acidentes...

- Esteja descansado. Vou ter todo o cuidado.

Enquanto embrulha o revólver com sucessivas camadas de papel, o empregado pergunta:

- Ouvi contar que o senhor doutor ia para Lisboa?

- Pensei nisso, mas desisti, pois ultimamente tenho passado melhor.

- Ainda bem, senhor doutor. Ainda bem.

Antero tira da algibeira algumas libras que põe sobre o balcão:

- Faça o favor de se pagar. Eu nunca me habituei a fazer dedução de moeda fraca.

Antero sai. Os homens que estão à porta, saúdam-no respeitosamente.

Vai a casa de seu primo, Augusto de Arruda Quental. Quando entra coloca o embrulho sobre uma mesa e, por cima, põe o chapéu. Conversa tranquilamente com o primo. Falam de banalidades. O tempo, a política, coisas da família. Quando Antero se ergue para sair, o primo dá-lhe o chapéu e faz depois menção de lhe entregar também o embrulho. Antero quase grita:

- Não lhe pegues!

Despedem-se.

Metendo pela Rua de S. Brás, encaminha-se a passos lentos para o Campo de São Francisco, uma ampla praça pública de Ponta Delgada. Aí, senta-se num banco, junto do muro do convento da Esperança.. Nesse muro, por cima do banco, um dístico em pedra lavrada mostra a palavra esperança sobreposta a uma âncora. Antero sorri. Esperança e uma âncora que o segurem à vida, eis precisamente o que lhe falta.

Olha o largo, com as suas árvores, com as suas simétricas placas redondas de relva, circundando o pequeno coreto implantado no centro. Há pouca gente. Uma senhora passa perto levando pelas mãos duas crianças. À memória ocorre-lhe a imagem de um menino passeando ali, pela mão de seu pai, muitos anos atrás. De tudo, o pior mal é ter nascido, pensa.

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